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Madeira: explicar o quê?

27 de Janeiro de 2012


Muitos jornalistas e políticos falam e escrevem sobre a Madeira sem conhecer minimamente a realidade local, repetindo frases feitas (mas sem sentido) e insistindo na obra feita por Jardim. Obviamente, nem os jornalistas perguntam qual obra, nem os políticos se dão ao trabalho de explicitar a obra, todos dando de barato que, na Madeira, a obra se mede por betão e é contabilizada por estradas, piscinas, marinas, etc, etc.

É certo, também, que agora já se fala da monstruosa dívida financeira, mas por enquanto a esmagadora maioria dos jornalistas e dos políticos ‘esquece-se’ da outra dívida, ou déficite, bem mais importante e gravosa: o défice democrático que, para nossa vergonha, tem a mesma idade da ‘autonomia’ implantada naquela parcela de Portugal.

E como raramente no Continente damos atenção ao que em jornais da Madeira alguns jornalistas e comentadores vão publicando, aqui reproduzimos um esclarecedor texto hoje saído no Diário de Notícias do Funchal, exactamente no dia em que Jardim, espera-se, vai finalmente dar pormenores sobre o acordo de resgate, ou de capitulação, assinado com o Governo português. (RC)

 

Explicar o quê?

Esmolas, meta-as onde muito bem entender, crie uma comissão de patos bravos para lutarem contra os ambientalistas, comunistas, maçons e ingleses

DN-M, 27.01.2012, Paulo Gomes

De que servirá prestar atenção ao que Jardim vai dizer sobre o reajuste financeiro da Madeira, se ele não teve o mínimo de consideração para com o povo que o reelegeu há bem pouco tempo, mantendo-se bem caladinho desde as eleições e não justificando nada, nem o buraco, nem o porquê do esconder da dívida, nem mesmo os termos em que estava a ser negociado o reajuste financeiro. O presidente do governo regional pode dizer o que quiser, explicar o que entender, mas nunca vai conseguir justificar como é que deixou que pusessem em risco a saúde e a educação de uma boa parte da população madeirense, atingindo os jovens e idosos. Nem vai conseguir explicar, mesmo com ajuda de Cunha e Silva, como é que permitiu o desnorte da marina do Lugar de Baixo e os milhões que ainda hoje lá se metem, quando não há dinheiro para as farmácias e outros fornecedores. Nem para escolas que não têm coisas básicas como papel ou que até viram cortados os telefones por falta de pagamento. Para não falar das que fecharam a cantina porque não tinham gás para almoços. Este governo, o mesmo de há mais de 30 anos, deixou que uma política de incentivo ao desporto se transformasse em corrida desenfreada às competições nacionais de dezenas de equipas e centenas de jogadores estranhos à terra, que agora dão faltas de comparência e são excluídas de provas por falta de dinheiro para pagar viagens. E vai ser difícil explicar o que é aquela diferença de 1% no IVA. Esmolas, meta-as onde muito bem entender, crie uma comissão de patos bravos para lutarem contra os ambientalistas, comunistas, maçons e ingleses. Ou agarre nesse 1% e ajude o edil de C. Lobos a vigiar os carros dos fiscais com GPS, enquanto ele ou outro vereador qualquer tira a chapa oficial do jipe e leva-o para férias.
Temos uma região extravagante, tal como o país em que vivemos. Apesar de nos situarmos na cauda de um pelotão de ordenados mínimos e médios, conseguimos ter o combustível mais caro do mundo, os portos mais caros da Europa, o custo de vida mais caro do que nos Estados Unidos. Dizem-nos que é um problema de produtividade. Parece-me que é um problema de liderança. Gente como Cavaco Silva, que é o presidente de todos os portugueses e insulta todos os portugueses ao ter a lata de se lamuriar das suas reformas. Gente como Catroga que disse à troika que os portugueses ganhavam muito e agora está numa EDP a receber num mês o que um professor ganha em dois anos de trabalho. Tem razão, alguns portugueses ganham muito. Nomeadamente os administradores de empresas públicas que geralmente são os boys do partido que governa. Daquelas empresas que fogem para paraísos fiscais, enquanto na AR se bate na “zona franca” da Madeira. Ou daquelas que se tornam excepções nos cortes dos subsídios, como o vergonhoso Banco de Portugal. Mas que podemos esperar de um país que tem um tribunal constitucional a passear 13 juízes em 665 mil euros de BMW alemão?
Não podem ser só os funcionários públicos a pagar a dívida. Os cortes, abrangendo a totalidade dos trabalhadores, nem chegariam aos 10%. Para quê ter milhares de situações complicadas ao cortar 25% dos rendimentos de funcionários públicos, quando estaria tudo muito mais justo se o esforço fosse distribuído por todos os contribuintes? O Estado viveu acima das possibilidades, mas o funcionário público não foi o culpado. Quem o faz, assume as consequências. Ou não é assim também com o privado?

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