{"id":9564,"date":"2014-01-15T04:42:31","date_gmt":"2014-01-15T04:42:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=9564"},"modified":"2014-01-15T04:42:31","modified_gmt":"2014-01-15T04:42:31","slug":"o-sonho-evanescente-de-um-jornalismo-independente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=9564","title":{"rendered":"O sonho evanescente de um jornalismo independente"},"content":{"rendered":"<p>Uma piada que corre h\u00e1 uns anos nos EUA diz que os americanos v\u00eaem programas de humor como o \u201cDaily Show\u201d do humorista Jon Stewart para ficarem informados e programas de informa\u00e7\u00e3o como os da Fox News para se rirem. \u00c9 verdade que os programas de Jon Stewart s\u00e3o particularmente informativos e fazem uma atenta leitura cr\u00edtica da realidade poil\u00edtica americana e que os programas da reaccion\u00e1ria Fox News s\u00e3o particularmente manipuladores e desonestos, mas o aforismo \u00e9 verdade em geral e n\u00e3o apenas para os EUA.<\/p>\n<p>Humoristas como os americanos Jon Stewart e George Carlin, como os brit\u00e2nicos Monty Python ou Ricky Gervais, como o franc\u00eas Coluche ou como os portugueses M\u00e1rio Viegas, Bruno Nogueira ou Ricardo Ara\u00fajo Pereira tiveram ou t\u00eam um papel mais importante na vis\u00e3o cr\u00edtica da sociedade e na den\u00fancia de injusti\u00e7as ou de absurdos do que a esmagadora maioria dos media de informa\u00e7\u00e3o e dos jornalistas profissionais. <em>(Jos\u00e9 V\u00edtor Malheiros)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nMas n\u00e3o se trata s\u00f3 dos humoristas. Uma das grandes altera\u00e7\u00f5es do panorama medi\u00e1tico dos \u00faltimos anos, em Portugal e n\u00e3o s\u00f3, foi a relev\u00e2ncia conquistada pelos artigos de opini\u00e3o. Hoje em dia, uma percentagem elevada de leitores de jornais e sites come\u00e7a a sua leitura di\u00e1ria pela sec\u00e7\u00e3o de Opini\u00e3o e dedica a estes textos um tempo muito superior ao que dedica aos textos noticiosos. O \u00eaxito dos blogs na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo ou das redes sociais nesta d\u00e9cada \u00e9 ali\u00e1s um reflexo desta valoriza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o, ainda que produzida por autores muitas vezes comprometidos ou mesmo fortemente sect\u00e1rios. Porque \u00e9 que essa parcialidade dos pontos de vista n\u00e3o reduz de forma dram\u00e1tica a audi\u00eancia e a credibilidade dos opinadores? Porque a parcialidade \u00e9 compensada pela enorme riqueza e variedade de pontos de vista dispon\u00edvel na Internet e pelo controlo que o sistema de coment\u00e1rios consegue fazer, corrigindo erros e compensando exageros.<\/p>\n<p>Nada disto seria um problema se n\u00e3o se desse o facto de que estes cidad\u00e3os procuram cada vez mais as cr\u00f3nicas humor\u00edsticas e os artigos de Opini\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 para saber o que os seus autores pensam mas principalmente para \u201csaber o que aconteceu\u201d, ou \u201co que aconteceu de importante\u201d ou \u201co que quer dizer aquilo que aconteceu\u201d &#8211; num cen\u00e1rio onde essa informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode, ou quase n\u00e3o pode, ser extra\u00edda da actividade jornal\u00edstica e das not\u00edcias em particular.<\/p>\n<p>De facto, assistimos nos \u00faltimos trinta anos (desde o consulado de Margaret Thatcher, tamb\u00e9m conhecida pelo <em>petit nom<\/em> \u201cTINA\u201d, de \u201cThere Is No Alternative\u201d) a uma investida da agenda neoliberal que se tem traduzido n\u00e3o s\u00f3 na imposi\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es ideol\u00f3gicas da extrema-direita econ\u00f3mica pela propaganda partid\u00e1ria mas tamb\u00e9m numa captura da actividade jornal\u00edstica, de forma a censurar de facto qualquer veleidade de discurso independente. Este cerco e subsequente conquista do jornalismo (com raras excep\u00e7\u00f5es pontuais) foi poss\u00edvel devido ao uso combinado de diferentes armas e ao concurso de algumas circunst\u00e2ncias fortuitas, mas hoje est\u00e1 quase completamente conclu\u00eddo. Quem quiser saber o que se passa de facto na pol\u00edtica portuguesa ou europeia, quais ser\u00e3o os impactos desta ou daquela pol\u00edtica, tem hoje de dedicar um tempo insano \u00e0 leitura de blogs de especialistas e comentadores independentes, de textos de organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e profissionais, de estudos acad\u00e9micos. O jornalismo costumava fazer-nos poupar tempo mas deixou de o fazer. O que o grosso do jornalismo hoje nos oferece (e a televis\u00e3o tem aqui o principal papel) n\u00e3o \u00e9 mais do que a repeti\u00e7\u00e3o de um discurso hegem\u00f3nico, de car\u00e1cter propagand\u00edstico, de direita (defensor da desigualdade), que nos repete que n\u00e3o h\u00e1 alternativa (TINA) ao crescimento da pobreza, \u00e0 desigualdade, ao enriquecimento dos mais ricos, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do estado social, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do trabalho, \u00e0 exclus\u00e3o dos pobres.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que a fun\u00e7\u00e3o de <em>fact checking <\/em>do discurso do poder n\u00e3o seja feita (esporadicamente) por alguns jornalistas e \u00f3rg\u00e3os de imprensa, mas significa que essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 silenciada por uma enxurrada de propaganda, que os media repetem, com a desculpa de que est\u00e3o \u201ca citar o primeiro-ministro\u201d ou outra semelhante e com o argumento (verdadeiro) de que n\u00e3o possuem meios para verificar tudo o que o homem diz.<\/p>\n<p>Veja-se o que se passa com a inven\u00e7\u00e3o do \u201caumento do emprego\u201d do discurso de Passos Coelho, ou com a aldrabice da \u201cretoma econ\u00f3mica\u201d que o Governo tem vindo a repetir, ou com a fic\u00e7\u00e3o do \u201cprograma cautelar\u201d delicodoce que Cavaco Silva elogia ou com a abjec\u00e7\u00e3o da \u201cinsustentabilidade das pens\u00f5es\u201d que PSD e CDS apregoam. N\u00e3o h\u00e1 pessoas a denunciar estas e outras aldrabices? H\u00e1, e h\u00e1-as da esquerda radical \u00e0 direita democrata-crist\u00e3 (a s\u00e9rio) e as vozes que o dizem s\u00e3o reconhecidamente competentes e respeitadas. Mas s\u00e3o vozes singulares num mar de discurso propagand\u00edstico avassalador que repete a voz do dono e onde as televis\u00f5es ocupam a parte de le\u00e3o. Este \u00e9 o cancro que se encontra no centro do problema pol\u00edtico das sociedades actuais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se trata s\u00f3 dos humoristas. Uma das grandes altera\u00e7\u00f5es do panorama medi\u00e1tico dos \u00faltimos anos, em Portugal e n\u00e3o s\u00f3, foi a relev\u00e2ncia conquistada pelos artigos de opini\u00e3o. Hoje em dia, uma percentagem elevada de leitores de jornais e sites come\u00e7a a sua leitura di\u00e1ria pela sec\u00e7\u00e3o de Opini\u00e3o e dedica a estes textos um tempo muito superior ao que dedica aos textos noticiosos. O \u00eaxito dos blogs na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo ou das redes sociais nesta d\u00e9cada \u00e9 ali\u00e1s um reflexo desta valoriza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o, ainda que produzida por autores muitas vezes comprometidos ou mesmo fortemente sect\u00e1rios. Porque \u00e9 que essa parcialidade dos pontos de vista n\u00e3o reduz de forma dram\u00e1tica a audi\u00eancia e a credibilidade dos opinadores? Porque a parcialidade \u00e9 compensada pela enorme riqueza e variedade de pontos de vista dispon\u00edvel na Internet e pelo controlo que o sistema de coment\u00e1rios consegue fazer, corrigindo erros e compensando exageros.<\/p>\n<p>Nada disto seria um problema se n\u00e3o se desse o facto de que estes cidad\u00e3os procuram cada vez mais as cr\u00f3nicas humor\u00edsticas e os artigos de Opini\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 para saber o que os seus autores pensam mas principalmente para \u201csaber o que aconteceu\u201d, ou \u201co que aconteceu de importante\u201d ou \u201co que quer dizer aquilo que aconteceu\u201d &#8211; num cen\u00e1rio onde essa informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode, ou quase n\u00e3o pode, ser extra\u00edda da actividade jornal\u00edstica e das not\u00edcias em particular.<\/p>\n<p>De facto, assistimos nos \u00faltimos trinta anos (desde o consulado de Margaret Thatcher, tamb\u00e9m conhecida pelo <em>petit nom<\/em> \u201cTINA\u201d, de \u201cThere Is No Alternative\u201d) a uma investida da agenda neoliberal que se tem traduzido n\u00e3o s\u00f3 na imposi\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es ideol\u00f3gicas da extrema-direita econ\u00f3mica pela propaganda partid\u00e1ria mas tamb\u00e9m numa captura da actividade jornal\u00edstica, de forma a censurar de facto qualquer veleidade de discurso independente. Este cerco e subsequente conquista do jornalismo (com raras excep\u00e7\u00f5es pontuais) foi poss\u00edvel devido ao uso combinado de diferentes armas e ao concurso de algumas circunst\u00e2ncias fortuitas, mas hoje est\u00e1 quase completamente conclu\u00eddo. Quem quiser saber o que se passa de facto na pol\u00edtica portuguesa ou europeia, quais ser\u00e3o os impactos desta ou daquela pol\u00edtica, tem hoje de dedicar um tempo insano \u00e0 leitura de blogs de especialistas e comentadores independentes, de textos de organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e profissionais, de estudos acad\u00e9micos. O jornalismo costumava fazer-nos poupar tempo mas deixou de o fazer. O que o grosso do jornalismo hoje nos oferece (e a televis\u00e3o tem aqui o principal papel) n\u00e3o \u00e9 mais do que a repeti\u00e7\u00e3o de um discurso hegem\u00f3nico, de car\u00e1cter propagand\u00edstico, de direita (defensor da desigualdade), que nos repete que n\u00e3o h\u00e1 alternativa (TINA) ao crescimento da pobreza, \u00e0 desigualdade, ao enriquecimento dos mais ricos, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do estado social, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do trabalho, \u00e0 exclus\u00e3o dos pobres.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que a fun\u00e7\u00e3o de <em>fact checking <\/em>do discurso do poder n\u00e3o seja feita (esporadicamente) por alguns jornalistas e \u00f3rg\u00e3os de imprensa, mas significa que essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 silenciada por uma enxurrada de propaganda, que os media repetem, com a desculpa de que est\u00e3o \u201ca citar o primeiro-ministro\u201d ou outra semelhante e com o argumento (verdadeiro) de que n\u00e3o possuem meios para verificar tudo o que o homem diz.<\/p>\n<p>Veja-se o que se passa com a inven\u00e7\u00e3o do \u201caumento do emprego\u201d do discurso de Passos Coelho, ou com a aldrabice da \u201cretoma econ\u00f3mica\u201d que o Governo tem vindo a repetir, ou com a fic\u00e7\u00e3o do \u201cprograma cautelar\u201d delicodoce que Cavaco Silva elogia ou com a abjec\u00e7\u00e3o da \u201cinsustentabilidade das pens\u00f5es\u201d que PSD e CDS apregoam. N\u00e3o h\u00e1 pessoas a denunciar estas e outras aldrabices? H\u00e1, e h\u00e1-as da esquerda radical \u00e0 direita democrata-crist\u00e3 (a s\u00e9rio) e as vozes que o dizem s\u00e3o reconhecidamente competentes e respeitadas. Mas s\u00e3o vozes singulares num mar de discurso propagand\u00edstico avassalador que repete a voz do dono e onde as televis\u00f5es ocupam a parte de le\u00e3o. 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