{"id":6527,"date":"2012-09-14T03:51:25","date_gmt":"2012-09-14T02:51:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=6527"},"modified":"2012-09-14T03:51:25","modified_gmt":"2012-09-14T02:51:25","slug":"carta-aberta-de-eugenio-lisboa-ao-primeiro-ministro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=6527","title":{"rendered":"Carta aberta de Eug\u00e9nio Lisboa ao primeiro-ministro"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 opini\u00f5es que circulam na Internet e nunca vemos publicadas em papel, embora o mere\u00e7am mais do que um substancial n\u00famero de outras, subscritas por comentadores residentes. \u00c9 o caso de esta carta aberta de Eug\u00e9nio Lisboa, cuja leitura se recomenda.<\/p>\n<p>\u00abUma grande contista da Nova Zel\u00e2ndia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter d\u00e9fice, observou, num dos contos singulares do seu bel\u00edssimo livro intituladoThe Garden Party: \u201cO velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.\u201d Ser velho \u00e9 tamb\u00e9m isto: acharmos que a primavera j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, que n\u00e3o temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela&#8230; J\u00e1 foi nossa, j\u00e1, de certo modo, nos definiu. Hoje, n\u00e3o. Hoje, sentimos que j\u00e1 n\u00e3o interessamos, que, at\u00e9, incomodamos. Todo o discurso pol\u00edtico de V. Exas., os do governo, todas as vossas decis\u00f5es apontam na mesma direc\u00e7\u00e3o: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, \u00e0 espera de que o urso lend\u00e1rio (ou o frio) venha tomar conta de n\u00f3s.\u00bb<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h2>Carta aberta ao primeiro-ministro<\/h2>\n<p><em>Exmo. Senhor Primeiro Ministro<\/em><\/p>\n<p><em>Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais n\u00e3o d\u00e3o do que uma p\u00e1lida ideia da onda de indigna\u00e7\u00e3o que varre o pa\u00eds, de norte a sul, e de leste a oeste. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o \u00e9 meu costume nem voca\u00e7\u00e3o escrever coisas de cariz pol\u00edtico, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas h\u00e1 momentos em que, mesmo que n\u00e3o vamos n\u00f3s ao encontro da pol\u00edtica, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 que fugir-lhe.<\/em><\/p>\n<p><em>Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, n\u00e3o tanto por acreditar que v\u00e1 ter em V. Exa. qualquer efeito\u00a0 \u2014\u00a0\u00a0<\/em><strong>todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, n\u00e3o convida \u00e0 esperan\u00e7a numa reviravolta!<\/strong><em>\u00a0\u2014 mas, antes, para ficar de bem com a minha consci\u00eancia. Tenho 82 anos e pouco me restar\u00e1 de vida, o que significa que, a mim, j\u00e1 pouco mal poder\u00e1 infligir V. Exa. e o algum que me inflija ser\u00e1 sempre de curta dura\u00e7\u00e3o. \u00c9 aquilo a que costumo chamar<\/em>\u201cas vantagens do t\u00famulo\u201d<em>\u00a0ou, se preferir, a coragem que d\u00e1 a proximidade do t\u00famulo. Tanto o que me d\u00ea como o que me tire ser\u00e1 sempre de curta dura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e1, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o\u00a0<\/em>\u201codioso eu\u201d<em>, a que aludia Pascal.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experi\u00eancia da velhice \u2014 a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice \u00e9 um pouco \u2014 ou \u00e9 muito \u2013 a experi\u00eancia de uma cont\u00ednua e ininterrupta perda de poderes.\u00a0<\/em>\u201cDesistir \u00e9 a derradeira trag\u00e9dia\u201d<em>, disse um escritor pouco conhecido. Desistir \u00e9 aquilo que v\u00e3o fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horr\u00edvel. Estamos no ver\u00e3o, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta ingl\u00eas do s\u00e9culo XX (Eliot):<\/em>\u201cUm velho, num m\u00eas de secura\u201d<em>&#8230; A velhice, encarquilhando-se, no meio da desola\u00e7\u00e3o e da secura. \u00c9 para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situa\u00e7\u00e3o, uma vis\u00e3o, uma emo\u00e7\u00e3o ou uma ideia.<\/em><\/p>\n<p><em>A velhice, Senhor Primeiro Ministro, \u00e9, com as dores que arrasta \u2014 as f\u00edsicas, as emotivas e as morais \u2014 um per\u00edodo bem dif\u00edcil de atravessar. J\u00e1 algu\u00e9m a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgat\u00f3rio. E uma grande contista da Nova Zel\u00e2ndia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter d\u00e9fice, observou, num dos contos singulares do seu bel\u00edssimo livro intitulado<\/em>The Garden Party<em>:\u00a0<\/em>\u201cO velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.\u201d<em>\u00a0Ser velho \u00e9 tamb\u00e9m isto: acharmos que a primavera j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s, que n\u00e3o temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela&#8230; J\u00e1 foi nossa, j\u00e1, de certo modo, nos definiu. Hoje, n\u00e3o. Hoje, sentimos que j\u00e1 n\u00e3o interessamos, que, at\u00e9, incomodamos. Todo o discurso pol\u00edtico de V. Exas., os do governo, todas as vossas decis\u00f5es apontam na mesma direc\u00e7\u00e3o: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, \u00e0 espera de que o urso lend\u00e1rio (ou o frio) venha tomar conta de n\u00f3s. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, n\u00e3o digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utiliz\u00e1veis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas n\u00e3o. Pessoas, como eu, estiveram, at\u00e9 depois dos 65 anos, sem gastar um tost\u00e3o ao Estado, com a sua sa\u00fade ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu sal\u00e1rio, para uma ADSE, que talvez nos fosse \u00fatil, num per\u00edodo de necessidade, que se foi desejando long\u00ednquo. Chegado, j\u00e1 sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos \u00e9 retirado, sem uma aten\u00e7\u00e3o, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. \u00c9 quando mais necessitamos, para lutar contra a doen\u00e7a, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constitu\u00edmos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subs\u00eddios (que n\u00e3o passavam de uma forma de disfar\u00e7ar a incompet\u00eancia salarial), comparticipa\u00e7\u00f5es nos custos da sa\u00fade, actualiza\u00e7\u00f5es salariais \u2014\u00a0<\/em><strong>tudo pela borda fora. Incluindo, tamb\u00e9m, esse papel embara\u00e7oso que \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o, particularmente odiada por estes novos fundibul\u00e1rios.<\/strong><em>\u00a0O que \u00e9 preciso \u00e9 salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar \u00e0 Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubar\u00f5es, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que d\u00e1 o que n\u00e3o \u00e9 dele e paga o que diz n\u00e3o ter, para que eles enrique\u00e7am mais, passando a fruir o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 deles, porque at\u00e9 \u00e9 nosso.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 algu\u00e9m, aludindo \u00e0 mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. d\u00e1 provas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de prefer\u00eancia, em andares altos de pr\u00e9dios muito altos: de um 14\u00ba andar, explicava, a desola\u00e7\u00e3o que se comtempla at\u00e9 passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto.\u00a0<\/em><strong>V. Exas. transformam a velhice num crime pun\u00edvel pela medida grande.<\/strong><em>\u00a0As pol\u00edticas radicais de V. Exa, e do seu rob\u00f4tico Ministro das Finan\u00e7as \u2014\u00a0<\/em><strong>sim, porque a Troika informou que as pol\u00edticas s\u00e3o vossas e n\u00e3o deles&#8230;<\/strong><em>\u00a0\u2014 t\u00eam levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes pol\u00edticos e estadistas que a Hist\u00f3ria n\u00e3o confina a m\u00edseras notas de p\u00e9 de p\u00e1gina.<\/em><\/p>\n<p><em>Falei da velhice porque \u00e9 o pelouro que, de momento, tenho mais \u00e0 m\u00e3o.\u00a0<\/em><strong>Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideol\u00f3gico de V. Exa. est\u00e1 a desencadear pelo pa\u00eds fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro \u00e0 vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida \u2014 tudo \u00e9 queimado no altar ideol\u00f3gico onde arde a chama de um dogma cego \u00e0 fria realidade dos factos e dos resultados. <\/strong><em>Dizia Joan Ruddock n\u00e3o acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompat\u00edveis. V. Exa. e o seu governo provam que o s\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador ingl\u00eas, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes\u00a0 termos:\u00a0<\/em>\u201cExtremismo e conservantismo s\u00e3o termos contradit\u00f3rios\u201d<em>. Pym pagou, \u00e9 claro, a factura: se a mem\u00f3ria me n\u00e3o engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A\u00a0<\/em>\u201cconservadora\u201d<em>\u00a0Margaret Thatcher \u2014 como o\u00a0<\/em>\u201cconservador\u201d<em>\u00a0Passos Coelho \u2014 quis misturar \u00e1gua com azeite, isto \u00e9, conservantismo e extremismo. Claro que n\u00e3o d\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><em>Algu\u00e9m observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados.\u00a0<\/em><strong>\u00c9 poss\u00edvel que,<\/strong><em>\u00a0no governo e no partido a que V. Exa. preside,\u00a0<\/em><strong>a maior parte dos seus constituintes n\u00e3o se aperceba bem (ou, apercebendo-se, n\u00e3o compreenda), de que lavra, no pa\u00eds, um grande inc\u00eandio de ressentimento e \u00f3dio. <\/strong><em>Darei a V. Exa. \u2014 e com isto termino \u2014 uma pista para um bom entendimento do que se est\u00e1 a passar. Atribu\u00edram-se ao Papa Greg\u00f3rio VII estas palavras:\u00a0<\/em>\u201cEu amei a justi\u00e7a e odiei a iniquidade: por isso, morro no ex\u00edlio.\u201d<em>\u00a0<\/em><strong>Uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu pr\u00f3prio pa\u00eds, pelo delito de pedir mais justi\u00e7a e mais equidade.<\/strong><em>\u00a0Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invis\u00edveis. H\u00e1 nisto, \u00e9 claro, um perigo.<\/em><\/p>\n<p><em>De V. Exa., atentamente,<\/em><\/p>\n<p>Eug\u00e9nio Lisboa<\/p>\n<p>___________________________________________________________________________<br \/>\n[O autor foi presidente da Comiss\u00e3o Nacional da UNESCO,<br \/>\nconselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995<br \/>\nprofessor catedr\u00e1tico especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham<br \/>\nprofessor catedr\u00e1tico visitante da Universidade de Aveiro<br \/>\ne coordenador do ensino da l\u00edngua portuguesa na Su\u00e9cia.<br \/>\n\u00c9 Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro.<br \/>\nA C\u00e2mara de Cascais outorgou-lhe a medalha de M\u00e9rito Cultural.<br \/>\nEm Mo\u00e7ambique foi, sucessivamente, administrador e director das petrol\u00edferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 opini\u00f5es que circulam na Internet e nunca vemos publicadas em papel, embora o mere\u00e7am mais do que um substancial n\u00famero de outras, subscritas por comentadores residentes. \u00c9 o caso de esta carta aberta de Eug\u00e9nio Lisboa, cuja leitura se recomenda. \u00abUma grande contista da Nova Zel\u00e2ndia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-6527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-headline"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6527\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}