{"id":5214,"date":"2012-01-03T05:25:20","date_gmt":"2012-01-03T05:25:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=5214"},"modified":"2012-01-03T05:41:05","modified_gmt":"2012-01-03T05:41:05","slug":"retrato-de-grupo-com-o-pais-ao-fundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=5214","title":{"rendered":"Retrato de grupo com o pa\u00eds ao fundo"},"content":{"rendered":"<p>Mas n\u00e3o, ainda n\u00e3o \u00e9 tudo. H\u00e1 ainda uma m\u00e1quina Multibanco assaltada com recurso a uma escavadora. Numa demonstra\u00e7\u00e3o de grande per\u00edcia os assaltantes conseguiram extrair o cofre com um dano m\u00ednimo no cub\u00edculo que o albergava. A c\u00e2mara mostra a marca deixada pelos dentes da retroescavadora na parede do edif\u00edcio. Podemos ver em detalhe cada marca de cada dente na parede e ainda temos tempo para chamar a fam\u00edlia. &#8220;\u00d3 Guida, vem c\u00e1 ver o que eles agora fazem com uma retroescavadora!&#8230;&#8221; Mas n\u00e3o \u00e9 tudo, h\u00e1 tamb\u00e9m uma ourivesaria assaltada. A c\u00e2mara mostra a vitrine partida, uns ferros torcidos, entrevista a dona da loja, o pol\u00edcia, a senhora que viu, o homem que ouviu, outro que n\u00e3o deu por nada, outro que n\u00e3o viu mas foi por pouco porque se tivesse passado uns minutos antes ou depois, outro que comenta estes assaltos que h\u00e1 agora, outro que diz que n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edcia que chegue, outro que diz que n\u00e3o h\u00e1 suficientes c\u00e2maras de videovigil\u00e2ncia, porque se houvesse uma c\u00e2mara a espreitar pelo rabo de cada cidad\u00e3o em tempo real poderiam evitar-se todos os crimes e fazer a despistagem do cancro do c\u00f3lon ao mesmo tempo. <em>(Jos\u00e9 Vitor Malheiros)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h2>Retrato de grupo com o pa\u00eds ao fundo<\/h2>\n<p><strong>Ser\u00e1 que os jornalistas da televis\u00e3o se d\u00e3o conta do pa\u00eds que \u00e9 desenhado pelas suas reportagens?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"ngg-singlepic ngg-right aligncenter\" src=\"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/wp-content\/gallery\/slideshow\/daryl-cagle-02.jpg\" alt=\"daryl-cagle-02\" width=\"672\" height=\"399\" \/>Um acidente de autom\u00f3vel numa estrada qualquer. Um despiste, o carro ca\u00eddo na valeta. A televis\u00e3o mostra o carro acidentado, o carro da pol\u00edcia, a ambul\u00e2ncia, a curva da estrada, os bombeiros, entrevista o pol\u00edcia, o bombeiro, o condutor que ia a passar, a senhora que ouviu o barulho, o homem que viu uma pessoa a sair do carro, a c\u00e2mara mostra vidros no ch\u00e3o, a casca arrancada da \u00e1rvore, a veda\u00e7\u00e3o destru\u00edda, a mancha de sangue se houver. O rep\u00f3rter faz o directo indirecto: &#8220;Foi aqui que, h\u00e1 precisamente seis horas&#8230;&#8221; Foi pena n\u00e3o ter sido preciso desencarcerar ningu\u00e9m, porque se a equipa de reportagem tivesse chegado seis horas antes e tivesse filmado o desencarceramento isso \u00e9 que era televis\u00e3o, mas pronto. Mudan\u00e7a de plano para o parque de estacionamento do hospital onde uma m\u00e9dica fala, grave, do acidentado grave, &#8220;est\u00e1vel mas com progn\u00f3stico muito reservado&#8221;. Por acaso n\u00e3o foi preciso helitransportar ningu\u00e9m porque isso \u00e9 que era televis\u00e3o, mas o INEM est\u00e1 preparado para helitransportar. Cinco ou seis minutos de informa\u00e7\u00f5es in\u00fateis mas dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mas aconteceram outras coisas no mundo: no Algarve, um bando n\u00e3o identificado assaltou durante a noite uma m\u00e1quina de tabaco, no interior de um estabelecimento comercial. A c\u00e2mara mostra a vitrine, os ferros torcidos, vidros partidos no ch\u00e3o, entrevista a empregada da loja, a pol\u00edcia, torna a mostrar as mesmas imagens da vitrine, dos ferros torcidos. H\u00e1 imagens captadas pelas c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia, a preto e branco, que mostram homens encapuzados aos saltinhos na filmagem sincopada.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, ainda n\u00e3o \u00e9 tudo. H\u00e1 ainda uma m\u00e1quina Multibanco assaltada com recurso a uma escavadora. Numa demonstra\u00e7\u00e3o de grande per\u00edcia os assaltantes conseguiram extrair o cofre com um dano m\u00ednimo no cub\u00edculo que o albergava. A c\u00e2mara mostra a marca deixada pelos dentes da retroescavadora na parede do edif\u00edcio. Podemos ver em detalhe cada marca de cada dente na parede e ainda temos tempo para chamar a fam\u00edlia. &#8220;\u00d3 Guida, vem c\u00e1 ver o que eles agora fazem com uma retroescavadora!&#8230;&#8221; Mas n\u00e3o \u00e9 tudo, h\u00e1 tamb\u00e9m uma ourivesaria assaltada. A c\u00e2mara mostra a vitrine partida, uns ferros torcidos, entrevista a dona da loja, o pol\u00edcia, a senhora que viu, o homem que ouviu, outro que n\u00e3o deu por nada, outro que n\u00e3o viu mas foi por pouco porque se tivesse passado uns minutos antes ou depois, outro que comenta estes assaltos que h\u00e1 agora, outro que diz que n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edcia que chegue, outro que diz que n\u00e3o h\u00e1 suficientes c\u00e2maras de videovigil\u00e2ncia, porque se houvesse uma c\u00e2mara a espreitar pelo rabo de cada cidad\u00e3o em tempo real poderiam evitar-se todos os crimes e fazer a despistagem do cancro do c\u00f3lon ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 tudo. Finalmente uma not\u00edcia, sobre uma coisa que interessa a todos: os aumentos em 2012, os aumentos da electricidade, da sa\u00fade, dos impostos, dos restaurantes, dos transportes, de tudo. A not\u00edcia fala dos aumentos e entrevista &#8220;populares&#8221;. H\u00e1 reac\u00e7\u00f5es resignadas, sarc\u00e1sticas e discordantes. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m indignado, nem sequer contestat\u00e1rio e muito menos agressivo. A sociedade portuguesa est\u00e1 resignada. Porque \u00e9 que s\u00e3o os aumentos? Bom, a pe\u00e7a n\u00e3o diz mas percebe-se que \u00e9 porque tem de ser. H\u00e1 quem n\u00e3o concorda, mas s\u00e3o aqueles que s\u00e3o sempre do contra. Noutro programa, numa mesa-redonda, o moderador olha com indisfar\u00e7ado ar de nojo para um sindicalista a quem pergunta com enfado: &#8220;Mas n\u00e3o h\u00e1 nestas medidas anunciadas pelo Governo nenhuma com que concorde?&#8221; O subtexto \u00e9 claro: se concordasse com metade das medidas e discordasse da outra metade, ainda v\u00e1 l\u00e1! Mas assim&#8230; s\u00f3 pode ser porque \u00e9 um ressabiado de maus f\u00edgados.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 boas not\u00edcias! Nem tudo \u00e9 mau. Uns volunt\u00e1rios distribuem sopa e bolo-rei a sem-abrigo durante a noite. Pessoas abnegadas e bondosas, que prescindem do conforto do lar para ajudar o pr\u00f3ximo. A apresentadora do notici\u00e1rio exulta, de sorriso rasgado, est\u00e1 feliz, \u00e9 Natal! \u00c9 Natal! A volunt\u00e1ria entrevistada pela rep\u00f3rter que acompanhou os volunt\u00e1rios exulta por esta experi\u00eancia de solidariedade que teve oportunidade de viver. Que bom que \u00e9 haver pobrezinhos que nos d\u00e3o oportunidade de sermos solid\u00e1rios. Que bom que \u00e9 ver a sociedade civil a ocupar o lugar que o Estado n\u00e3o pode ocupar. &#8220;O Estado n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para gerir institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social&#8221;, diz o bem-aventurado ministro Pedro Mota Soares, com a boa consci\u00eancia a transbordar fatias de bolo-rei. Os sem-abrigo aceitam a sopa, o bolo-rei, quase nenhum aceita ser filmado, s\u00f3 do pesco\u00e7o para baixo. \u00c9 natural. T\u00eam vergonha. S\u00e3o os \u00fanicos que n\u00e3o s\u00e3o volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Passei uma boa parte da vida a dizer que as manipula\u00e7\u00f5es da informa\u00e7\u00e3o a que assistimos na imprensa &#8211; e, com maioria de raz\u00e3o, na televis\u00e3o &#8211; eram na sua maioria acidentais, fruto de incompet\u00eancias, desleixos. Seria demasiado complicado orquestrar tudo isso.<\/p>\n<p>Mas, seja qual for a raz\u00e3o, ser\u00e1 que os jornalistas da televis\u00e3o se d\u00e3o conta do retrato que fazem do pa\u00eds? Um pa\u00eds resignado, onde o \u00fanico discurso pertence ao Governo, onde n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, reais discord\u00e2ncias, debates em p\u00e9 de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde h\u00e1 apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes t\u00e3o generosos que d\u00e3o sete euros por m\u00eas aos mais pobres e que nos explicam que n\u00e3o sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das d\u00edvidas que meteram nos bolsos dos seus amigos?<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 V\u00edtor Malheiros &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 3 Jan 2012<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas n\u00e3o, ainda n\u00e3o \u00e9 tudo. H\u00e1 ainda uma m\u00e1quina Multibanco assaltada com recurso a uma escavadora. Numa demonstra\u00e7\u00e3o de grande per\u00edcia os assaltantes conseguiram extrair o cofre com um dano m\u00ednimo no cub\u00edculo que o albergava. A c\u00e2mara mostra a marca deixada pelos dentes da retroescavadora na parede do edif\u00edcio. 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