{"id":4744,"date":"2011-10-12T06:37:23","date_gmt":"2011-10-12T05:37:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=4744"},"modified":"2011-10-12T06:38:11","modified_gmt":"2011-10-12T05:38:11","slug":"adelino-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=4744","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de Adelino Gomes na entrega dos Pr\u00e9mios Gazeta 2010"},"content":{"rendered":"<p>O que quero dizer-vos que considero importante, nos breves minutos que me cabem?<\/p>\n<p>Que nasci e cresci na fortaleza jornalismo. E que isso significa reconhecer ter exercido a maior parte da minha actividade profissional numa cultura de arrog\u00e2ncia, que tendia a subordinar os direitos de quem nos lia, nos ouvia, nos via \u00a0ao nosso direito a escrever, a dizer, a mostrar, da forma que entend\u00edamos ser a mais correcta.<\/p>\n<p>Mas quero dizer-vos tamb\u00e9m que n\u00e3o gostava de ver o jornalismo transformado numa ilus\u00f3ria torrente de informa\u00e7\u00e3o que toda a gente produz e em que tudo vale e tudo tem o mesmo valor: not\u00edcias e estados de alma; a disciplina de verifica\u00e7\u00e3o convivendo com o boato; a assinatura de par com o anonimato.<\/p>\n<p>Dizer-vos que n\u00e3o gostava de ver o marketing sentado na redac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o jornalismo transformado num imenso\u00a0 <em>News of the World<\/em> em que um empres\u00e1rio, um grupo de editores ou mesmo uma redac\u00e7\u00e3o se arrogam o direito de seleccionar, produzir, manipular e at\u00e9 inventar\u00a0 os factos que h\u00e3o-de relatar em fun\u00e7\u00e3o do impacto que ter\u00e3o junto da sua clientela, isto \u00e9, em fun\u00e7\u00e3o de proveitos comerciais, e\/ou de interesses governamentais,\u00a0 econ\u00f3micos ou outros quaisquer.<\/p>\n<p>Houve sempre (ainda que hoje talvez mais do que ontem) uma rela\u00e7\u00e3o tensa entre a raz\u00e3o editorial e a raz\u00e3o empresarial.<\/p>\n<p>Numa muito interessante reflex\u00e3o, vertida em livro recente, Jos\u00e9 Lu\u00eds Garcia v\u00ea os jornalistas na posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua de \u201cfuncion\u00e1rios de uma ind\u00fastria\u201d e de \u201cfuncion\u00e1rios da humanidade\u201d. No cumprimento do primeiro papel, buscam o lucro; no segundo, criam e transmitem \u201cinforma\u00e7\u00f5es e formas de conhecimento consideradas relevantes para a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da comunidade pol\u00edtica e do todo social\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se de um desafio tremendo a uma classe profissional e a cada um de n\u00f3s, individualmente.<\/p>\n<p>Por mim, nunca senti problemas em trabalhar numa ind\u00fastria e em ajud\u00e1-la a prosperar. Mas procurei nunca esquecer o vasto mundo que d\u00e1 sentido e \u00e9 raz\u00e3o de ser desta actividade; e que a primeira lealdade do jornalismo \u00e9 para com os cidad\u00e3os (como estabelecem os c\u00e9lebres princ\u00edpios do Comitee of Concerned Journalists, animado por Kovach e Rosenstiel).<\/p>\n<p>Concordo que \u00e9 importante, que \u00e9 did\u00e1ctico, que \u00e9 essencial meditarmos sobre o que foi bom e que hoje \u00e9 mau no jornalismo que fazemos. Preocupam-me muito, por exemplo, a precariedade laboral, por um lado, mas tamb\u00e9m o lugar secund\u00e1rio que a \u00e9tica e o inconformismo ocupam nas redac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas penso que \u00e9 justo atentarmos tamb\u00e9m no que foi mau e hoje \u00e9 bom no jornalismo. Por exemplo: todos os dias leio, ou\u00e7o, vejo pe\u00e7as de excelente jornalismo escritas, ditas, apresentadas por excelentes jornalistas das novas gera\u00e7\u00f5es. Os trabalhos distinguidos pelo Clube de Jornalistas nos \u00faltimos anos \u2013 e desta vez, outra vez &#8211; s\u00e3o disso prova.<\/p>\n<p>Quero dizer-vos, com a autoridade (et\u00e1ria) de quem come\u00e7ou a trabalhar num tempo em que v\u00e1rios escreviam ainda \u00e0 m\u00e3o, nas redac\u00e7\u00f5es; em que o gravador port\u00e1til era ainda um tijolo roufenho cujos sons os t\u00e9cnicos resistiam em passar para fita e em que as imagens n\u00e3o conheciam ainda a cor; em que n\u00e3o havia nem computadores, nem telefones port\u00e1teis, nem internet, nem YouTube, nem Facebook nem Twitter,<\/p>\n<p>[quero dizer-vos] que\u00a0 acredito que\u00a0 os novos media \u00a0representam uma oportunidade e uma responsabilidade\u00a0 extraordin\u00e1rias para a cidadania e para o jornalismo.<\/p>\n<p>A oportunidade de assistirmos \u00e0 emerg\u00eancia de uma linguagem de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o universal sem precedentes, na qual todos somos\/seremos, simultaneamente, produtores e destinat\u00e1rios de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E a responsabilidade de preservarmos,\u00a0 nesse novo bazar comunicacional, a componente de servi\u00e7o p\u00fablico da produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica enquanto tal: o que implica apostar na qualidade, servida por uma curadoria efectiva que contextualize e forne\u00e7a sentido \u00e0s escolhas informativas.<\/p>\n<p>Porque, como dizia recentemente um cr\u00edtico de media norte-americano, Jonathan Alter, s\u00f3 com conte\u00fados de qualidade a cidadania pode tomar decis\u00f5es racionais\u2026<\/p>\n<p>Com informa\u00e7\u00e3o de qualidade \u2013 \u00a0interessante mas tamb\u00e9m relevante.<\/p>\n<p>N\u00e3o com a preval\u00eancia daquilo a que Carl Bernstein, um dos dois jornalistas do caso Watergate, designava\u00a0 muito recentemente, por \u201cespect\u00e1culo e triunfo da\u00a0 cultura da idiotia\u201d, express\u00e3o em que abarcava\u00a0 <em>talk-shows<\/em> e \u00a0not\u00edcias sobre celebridades.<\/p>\n<p>45 anos depois, continuo orgulhoso e agradecido \u00e0 sociedade por me ter deixado entrar e permanecer nesta profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>E continuo a acreditar num conjunto de direitos\/deveres que, para mim, para l\u00e1 de todas as evolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, continuam a defini-la e devem ser preservadas:<\/p>\n<p>A liberdade e a independ\u00eancia cr\u00edtica<\/p>\n<p>A credibilidade<\/p>\n<p>E aquilo a que chamarei a dec\u00eancia (que implica um profundo sentido de responsabilidade e de respeito pelo interesse p\u00fablico e pelos direitos do outro \u2013 seja ele um cidad\u00e3o, uma comunidade, uma cultura, outro g\u00e9nero, outras ra\u00e7as, outros povos).<\/p>\n<p>A terminar:<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o ao j\u00fari esta distin\u00e7\u00e3o &#8211; a que n\u00e3o se concorre, como sabem.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que, por raz\u00f5es compreens\u00edveis, os j\u00faris tendem a atribu\u00ed-la a gente em final de carreira.<\/p>\n<p>N\u00e3o me ofendo por me estarem a lembrar assim, publicamente, a minha idade profissional. E a sugerirem \u2013 ainda que delicada e t\u00e3o simpaticamente \u2013 que ser\u00e1 hora de partir.<\/p>\n<p>Partir dos pr\u00e9mios, concordo.<\/p>\n<p>Da interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica, se n\u00e3o se importam, n\u00e3o.<\/p>\n<p>E por interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica quero significar: o direito \u00e0 opini\u00e3o e outras formas de contribuir para melhorar o estado da nossa profiss\u00e3o \u2013 que constitui, como sabem, na melhor da sua tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, uma forma inestim\u00e1vel de contribuir para melhorar, escrutinando-o, o estado da cidade e do mundo.<\/p>\n<p><em>Adelino Gomes<\/em><br \/>\n<em>11 Outubro 2011<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que quero dizer-vos que considero importante, nos breves minutos que me cabem? Que nasci e cresci na fortaleza jornalismo. 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