{"id":434,"date":"2009-09-18T08:32:30","date_gmt":"2009-09-18T07:32:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=434"},"modified":"2009-09-18T08:32:30","modified_gmt":"2009-09-18T07:32:30","slug":"intervencao-de-jose-carlos-de-vasconcelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=434","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 com um misto de satisfa\u00e7\u00e3o, honra e melancolia que recebo este pr\u00e9mio, t\u00e3o prestigioso e significativo pela qualidade de quem o outorga e de quem o entrega. A satisfa\u00e7\u00e3o e a honra n\u00e3o preciso de as explicar. A melancolia, deriva do facto de este Gazeta M\u00e9rito se acrescentar a todos os outros pr\u00e9mios de carreira que antes me foram atribu\u00eddos &#8211; o que, se aumenta a satisfa\u00e7\u00e3o e a honra, tamb\u00e9m acentua um certo sentimento de aproxima\u00e7\u00e3o do fim da caminhada de quem h\u00e1 mais de 50 anos teve a sua primeira coluna jornal\u00edstica e hoje se mant\u00e9m, e deseja manter, no activo, com o empenhamento de sempre.<\/p>\n<p>Um longo percurso, em variados meios, desde os tempo da ditadura aos da fant\u00e1stica revolu\u00e7\u00e3o libertadora, em per\u00edodos entusiasmantes e conturbados, em que a comunica\u00e7\u00e3o social teve a maior import\u00e2ncia, e depois na chamada \u00abnormaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u00bb. O que, na constante fidelidade aos mesmos valores e princ\u00edpios, e assumindo desde o 25 de Abril cargos de direc\u00e7\u00e3o, me proporcionou inesquec\u00edveis viv\u00eancias e experi\u00eancias. Entre as quais a de criar com outros camaradas, e por eles ser unanimemente eleito para dirigir, um jornal propriedade dos pr\u00f3prios jornalistas, base de uma empresa tamb\u00e9m de jornalistas, que foi durante anos a mais din\u00e2mica do pa\u00eds, lan\u00e7ou iniciativas e t\u00edtulos pioneiros, e co-lan\u00e7ou uma importante r\u00e1dio, a TSF.<\/p>\n<p>A liberdade e a independ\u00eancia perante quaisquer poderes, em particular o econ\u00f3mico e o pol\u00edtico, s\u00e3o as primeiras condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para um aut\u00eantico jornalismo de qualidade. E, sendo hoje ut\u00f3pica a repeti\u00e7\u00e3o de projectos como esse, de O Jornal, n\u00e3o vejo melhor forma de \u00e0 partida as garantir do que serem os jornalistas, com provas dadas, a ter participa\u00e7\u00e3o activa nos seus conte\u00fados e interven\u00e7\u00e3o determinante na escolha de quem editorialmente os dirige.<\/p>\n<p>Por outro lado, um projecto jornal\u00edstico de qualidade \u00e9 tamb\u00e9m, nessa medida, necessariamente um projecto c\u00edvico e cultural, no sentido mais amplo e mais nobre. E se o melhor jornalismo exige do jornalista muito trabalho, compet\u00eancia, talento, seriedade, criatividade &#8211; n\u00e3o menos exige integridade, rigor, rectid\u00e3o, car\u00e1cter. Exige saber ouvir e tentar compreender, compreender mais do que \u00abjulgar\u00bb. O que n\u00e3o significa qualquer complac\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o dos factos, na qual se deve ser incans\u00e1vel e pertinaz, mas pressup\u00f5e um respeito sem m\u00e1cula pelas pessoas e seus Direitos Fundamentais, no integral cumprimento das normas deontol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Devemos ter orgulho na nossa profiss\u00e3o e de todas as formas lutar pela sua dignifica\u00e7\u00e3o, mas ser humildes no seu exerc\u00edcio. Na reportagem, na entrevista, na not\u00edcia, o jornalista n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o pode desejar ser, o \u00absujeito\u00bb. O \u00abvedetismo\u00bb, a espectacularidade injustificada, a \u00e2nsia de protagonismo e poder, n\u00e3o t\u00eam a ver com jornalismo e est\u00e3o na base de equ\u00edvocos para os quais \u00e0s vezes contribu\u00edmos pelo sil\u00eancio e pela passividade. Se n\u00e3o por um certo esp\u00edrito corporativo, ant\u00edtese da indispens\u00e1vel defesa vigorosa dos direitos e leg\u00edtimos interesses dos jornalistas e da classe, pelos quais a v\u00e1rios t\u00edtulos, incluindo os de dirigente sindical e advogado, sempre me bati.<\/p>\n<p>Neste tempo que nos coube viver, \u00e9 um duro mas exaltante e altamente responsabilizante of\u00edcio, o de jornalista. Mais do que ser o poder ou \u00abcontra-poder\u00bb que alguns tantos gostam de afirmar ou mesmo ostentar, entendo que o jornalismo \u00e9 responsabilidade. S\u00f3 a responsabilidade e uma aguda consci\u00eancia dela no exerc\u00edcio da nossa actividade legitimam, ali\u00e1s, aquele poder e a utiliza\u00e7\u00e3o, sem outros t\u00edtulos, de uma arma t\u00e3o poderosa e por vezes mort\u00edfera.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima nota: um dos combates em que, na medida do poss\u00edvel, me empenhei, em particular nestes quase 29 anos que leva de exist\u00eancia e resist\u00eancia o Jornal de Letras, foi o da cultura portuguesa e em l\u00edngua portuguesa, o da nossa l\u00edngua e sua presen\u00e7a no mundo, o da lusofonia, o da comunidade, ou, como gostaria, da fraternidade, entre pa\u00edses, povos, gente espalhada por todas as latitudes em di\u00e1sporas v\u00e1rias. Numa altura em que no meios de tantos debates, e etc&#8230;., n\u00e3o se ouve falar da cultura nem sequer da l\u00edngua portuguesa, em meu ju\u00edzo o nosso mais extraordin\u00e1rio patrim\u00f3nio vivo &#8211; e para n\u00f3s, jornalistas, o nosso principal instrumento de trabalho -, deixo uma palavra de esperan\u00e7a em que a situa\u00e7\u00e3o se altere no bom sentido, porque sei tratar-se de um tema caro ao senhor Presidente da Rep\u00fablica e que lhe merece toda a aten\u00e7\u00e3o. E outra palavra de esperan\u00e7a em que a liberdade, a independ\u00eancia e a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o social cada vez mais se afirmem, indispens\u00e1veis que s\u00e3o para Portugal e para uma aut\u00eantica democracia. Muito obrigado.<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 com um misto de satisfa\u00e7\u00e3o, honra e melancolia que recebo este pr\u00e9mio, t\u00e3o prestigioso e significativo pela qualidade de quem o outorga e de quem o entrega. A satisfa\u00e7\u00e3o e a honra n\u00e3o preciso de as explicar. 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