{"id":3078,"date":"2010-08-19T08:00:27","date_gmt":"2010-08-19T07:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=3078"},"modified":"2010-08-19T06:44:17","modified_gmt":"2010-08-19T05:44:17","slug":"contra-o-jornalismo-de-matilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=3078","title":{"rendered":"Contra o &#8220;jornalismo de matilha&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Vai-se assistindo cada vez mais ao fen\u00f3meno do chamado &#8220;jornalismo de matilha&#8221; (<em>pack journalism<\/em>) na sociedade portuguesa. Os acontecimentos seleccionados como not\u00edcias s\u00e3o alvo de uma cobertura maci\u00e7a por parte dos v\u00e1rios e distintos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Os jornalistas, em bando (ou seja, em matilha&#8230;) juntam-se nos mesmos s\u00edtios, \u00e0s mesmas horas e para os mesmos acontecimentos marcados pelas mesmas agendas oficiais, entrevistam as mesmas pessoas e destacam os mesmos assuntos.<br \/>\nSem esp\u00edrito cr\u00edtico, sem um olhar pr\u00f3prio, copiam-se uns aos outros e escolhem o mesmo \u00e2ngulo das not\u00edcias. N\u00e3o \u00e9 mesmo raro que as combinem. &#8220;Vais puxar por onde? Qual \u00e9 o<em> lead<\/em> por que optaste?&#8221;, perguntam uns aos outros, seja na Assembleia da Rep\u00fablica onde terminou uma audi\u00eancia parlamentar, seja no tribunal, a seguir a um julgamento, ou num qualquer minist\u00e9rio, ap\u00f3s uma qualquer confer\u00eancia de imprensa.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 uma falsa concorr\u00eancia esta. A principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 dar mais depressa e n\u00e3o de forma diferente. Ali\u00e1s, torna-se mesmo dif\u00edcil contrariar esse esp\u00edrito de &#8220;matilha&#8221;, face \u00e0 frequente resist\u00eancia e desconfian\u00e7a por parte das chefias, nada sens\u00edveis a qualquer sugest\u00e3o de se dar relevo a uma perspectiva diferente da que os outros media escolheram e j\u00e1 difundiram antes. O resultado \u00e9 um produto final id\u00eantico e uniforme para consumo de leitores de jornais, telespectadores e ouvintes de r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pr\u00e1tica frequente de &#8220;se copiarem&#8221; as vers\u00f5es de quem cabe noticiar os acontecimentos imediatamente ou em directo: a ag\u00eancia de not\u00edcias Lusa e as r\u00e1dios e as televis\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesta &#8220;correria&#8221; imposta pelo imediatismo e pela tirania do tempo, n\u00e3o se perde apenas a originalidade e o esp\u00edrito cr\u00edtico. V\u00e3o-se atropelando as mais elementares regras \u00e9ticas e deontol\u00f3gicas do jornalismo. Na pressa de se noticiar &#8211; e de se noticiar primeiro -, n\u00e3o se confirmam as informa\u00e7\u00f5es recolhidas quantas vezes por-esp\u00edrito-santo-de-orelha, n\u00e3o se aprofunda, n\u00e3o se ouvem todas as partes envolvidas. Todos os dias se divulgam not\u00edcias falsas ou incompletas que, com uma velocidade espantosa, ganham cr\u00e9dito e influenciam a opini\u00e3o p\u00fablica. Criam-se convic\u00e7\u00f5es baseadas em mentiras por via desta pr\u00e1tica generalizada hoje na imprensa portuguesa. \u00c9 uma din\u00e2mica perigosa e grav\u00edssima. Perigosa, porque os jornalistas, com o poder de assegurarem os direitos constitucionalmente consagrados de informar e de ser informado, tornam-se eles pr\u00f3prios instrumentos de interesses e de poderes estabelecidos. Grave, porque durante a correria, a &#8220;matilha&#8221; arrasta o bom nome das pessoas para a lama, n\u00e3o respeita a presun\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia e, sobretudo, n\u00e3o noticia a verdade. Diz-se que a verdade \u00e9 relativa. Mas tamb\u00e9m se sabe &#8211; ou devia saber-se&#8230; &#8211; que o que um jornalista noticia \u00e9 o que ele filtra atrav\u00e9s dos &#8220;\u00f3culos&#8221; com que constr\u00f3i a realidade, como notava o soci\u00f3logo franc\u00eas Pierre Bourdieu. Existe, por\u00e9m, um valor para lidar com essa subjectividade: a honestidade intelectual. Um jornalismo s\u00e9rio e honesto distingue a informa\u00e7\u00e3o da propaganda e da contra-informa\u00e7\u00e3o, respeita o direito ao bom nome e \u00e0 reserva da vida privada alheia, n\u00e3o toma partido e ouve sempre as partes em causa (e em p\u00e9 de igualdade, que s\u00f3 o exerc\u00edcio permanente da equidist\u00e2ncia o permite).<\/p>\n<p>\u00c9 sem d\u00favida um exerc\u00edcio dif\u00edcil lutar contra a tirania do tempo nestes tempos dominados pela velocidade com que circula a informa\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 que fazer escolhas nesta guerra em que o jornalismo anda t\u00e3o mal ferido pelo que a\u00ed se vai publicando em seu nome: ou se sobrevaloriza o sensacionalismo e a mentira, ou se opta por um jornalismo c\u00edvico e respons\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>Paula Torres de Carvalho, Jornalista &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 14 Ago 2010<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vai-se assistindo cada vez mais ao fen\u00f3meno do chamado &#8220;jornalismo de matilha&#8221; (pack journalism) na sociedade portuguesa. Os acontecimentos seleccionados como not\u00edcias s\u00e3o alvo de uma cobertura maci\u00e7a por parte dos v\u00e1rios e distintos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. 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