{"id":22759,"date":"2021-12-17T10:02:06","date_gmt":"2021-12-17T10:02:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22759"},"modified":"2021-12-19T01:19:52","modified_gmt":"2021-12-19T01:19:52","slug":"homenagem-a-max-stahl-no-cemiterio-de-santa-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22759","title":{"rendered":"Homenagem a Max Stahl no cemit\u00e9rio de Santa Cruz"},"content":{"rendered":"\n<p>Decorreram esta sexta-feira, 17 de dezembro, em Timor-Leste, as cerim\u00f3nias f\u00fanebres do jornalista Max Stahl. As suas cinzas ficam agora entre as campas das v\u00edtimas que revelou ao mundo, numa reportagem que viria a ser determinante para a independ\u00eancia daquele pa\u00eds. Ant\u00f3nio Sampaio, da Ag\u00eancia Lusa, leu nesta cerim\u00f3nia o texto que aqui reproduzimos, em homenagem ao jornalista que nasceu brit\u00e2nico mas morreu timorense:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Timor-Leste homenageia hoje um homem maior, um jornalista, um humanista, um pilar de determina\u00e7\u00e3o que num dos momentos mais dif\u00edceis da hist\u00f3ria do pa\u00eds, e com a sua c\u00e2mara e a sua coragem mostrou ao mundo o drama da ocupa\u00e7\u00e3o indon\u00e9sia.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>E como os homens maiores e os her\u00f3is verdadeiros, a sua aclama\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas dos l\u00edderes nacionais, ou de personalidades relevantes em v\u00e1rios pa\u00edses. A sua aclama\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pela alma de todo o povo timorense que hoje, como o fez quando a sua morte foi conhecida a 28 de outubro, chora a perda de Max Stahl.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornalista e realizador morreu praticamente 30 anos depois de recolher aqui, em Santa Cruz, as imagens do massacre que contribuiriam para mudar para sempre o percurso da luta pela independ\u00eancia do pa\u00eds. Por triste coincid\u00eancia, faleceu no mesmo dia em que morreu, em 1991, Sebasti\u00e3o Gomes, o jovem que veio a enterrar em Santa Cruz e cuja morte suscitou o protesto que acabaria por terminar no agora conhecido Massacre de Santa Cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>As suas cinzas v\u00e3o ficar aqui, neste local de trag\u00e9dia, mas que foi tamb\u00e9m de esperan\u00e7a, no fecho de um ciclo, continuando vivo nos cora\u00e7\u00f5es e mentes de muitos, e vincadamente na hist\u00f3ria de Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido a 06 de dezembro de 1954 no Reino Unido e cidad\u00e3o timorense desde 2019, o jornalista regressa para perto das campas onde, escondido, filmou o massacre. Condecorado com o Colar da Ordem de Timor-Leste, a mais alta condecora\u00e7\u00e3o dada a cidad\u00e3os estrangeiros no pa\u00eds, com o Pr\u00e9mio Rory Peck e v\u00e1rios outros galard\u00f5es, Max Stahl deixa como legado um dos principais arquivos de imagens dos \u00faltimos anos da ocupa\u00e7\u00e3o indon\u00e9sia do pa\u00eds e do per\u00edodo imediatamente antes e depois do referendo de independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Centro Audiovisual Max Stahl em Timor-Leste (CAMSTL) cont\u00e9m milhares de horas de v\u00eddeo, incluindo entrevistas alargadas com os principais atores da luta timorense pela independ\u00eancia. Stahl criou o arquivo para, nas suas palavras, contar a hist\u00f3ria do nascimento da na\u00e7\u00e3o, incluindo imagens hist\u00f3ricas e material filmado. J\u00e1 foi reconhecido pela UNESCO como Registo da Mem\u00f3ria do Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Descendente de uma fam\u00edlia de diplomatas, rep\u00f3rter de guerra \u2013 chegou a ser ferido nos Balc\u00e3s \u2013 Max estudou literatura na Universidade de Oxford e era um poliglota, dominando v\u00e1rias l\u00ednguas, incluindo as duas oficiais de Timor-Leste, o portugu\u00eas e o t\u00e9tum.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda antes de adotar o nome com que hoje todos hoje o conhecem, Christopher Wenner chegou mesmo a apresentar um programa de televis\u00e3o para crian\u00e7as, o Blue Peter da BBC, na altura o mais famoso dos programas infantis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi em campos de batalha, em palcos de caos e de drama humano que o maior contributo de Stahl, o seu legado, se construiu. Ajudando a mostrar ao mundo conflitos ou dramas esquecidos e longe dos olhares da comunidade internacional. As primeiras reportagens vieram da sua experi\u00eancia de vida, no estrangeiro, com a fam\u00edlia, em concreto em El Salvador (onde o pai era embaixador) e de onde enviou reportagens durante a guerra civil entre 1979 e 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outros conflitos acompanhou os da Ge\u00f3rgia, do Kosovo e da Chechnya e, a partir de 30 de agosto 1991, de Timor-Leste, onde chegou, como \u201cturista\u201d, a convite de quadros da resist\u00eancia. Fazia parte de uma equipa de reportagem da televis\u00e3o brit\u00e2nica, \u2018escondida\u2019 como turistas para n\u00e3o revelar o seu verdadeiro objetivo: documentar a ocupa\u00e7\u00e3o indon\u00e9sia. Ao longo da sua longa liga\u00e7\u00e3o a Timor-Leste, onde vivia at\u00e9 ter que viajar para a Austr\u00e1lia para tratamento m\u00e9dico, entrevistou algum dos l\u00edderes hist\u00f3ricos da resist\u00eancia como Nino Konis Santana, David Alex e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria Santa Cruz, e o massacre de 12 de novembro de 1991 que tornaria o nome de Max Stahl conhecido internacionalmente, com as imagens a serem das primeiras a atestar a barb\u00e1rie da ocupa\u00e7\u00e3o indon\u00e9sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal as imagens acabaram por ter um impacto especial, tanto pela dureza da viol\u00eancia como pelo facto dos sobreviventes se terem reunido na pequena capela de Santa Cruz a rezar, em portugu\u00eas, enquanto se ouviam as balas dos militares e policias indon\u00e9sios. Regressaria ao pa\u00eds alguns anos depois, para recolher mais entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O referendo de 1999 levou Max Stahl a regressar a Timor-Leste, onde acompanhou quer a viol\u00eancia antes do referendo quer depois do an\u00fancio da vit\u00f3ria da independ\u00eancia, tendo acompanhado fam\u00edlias em fuga para as montanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Max Stahl \u00e9 sobrevivido pela sua mulher, Ingrid, pelos dois filhos do casal, Leo e Malin, e por dois filhos, mais velhos, do primeiro casamento, Ben e Barnaby.<\/p>\n\n\n\n<p>E ser\u00e1 lembrado por todos os outros irm\u00e3os timorenses que hoje o abra\u00e7am e homenageiam, honrando a mem\u00f3ria de quem dedicou uma parte importante da sua vida ao pa\u00eds onde n\u00e3o nasceu, mas que para sempre ser\u00e1 seu.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decorreram esta sexta-feira, 17 de dezembro, em Timor-Leste, as cerim\u00f3nias f\u00fanebres do jornalista Max Stahl. 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