{"id":22467,"date":"2021-09-24T01:58:00","date_gmt":"2021-09-24T00:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22467"},"modified":"2021-09-23T22:37:47","modified_gmt":"2021-09-23T21:37:47","slug":"uma-incompreensivel-suscetibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22467","title":{"rendered":"\u00abUma incompreens\u00edvel suscetibilidade\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p>Poder\u00e3o os telejornais da RTP ser objeto de cr\u00edtica sem que o chav\u00e3o da \u201ccensura\u201d seja brandido para tentar intimidar os autores?\u2026 <em>(J-M Nobre-Correia)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que boa parte dos cidad\u00e3os n\u00e3o se d\u00e1 conta. At\u00e9 porque sempre conheceu esta maneira de funcionar. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m quem frequente r\u00e1dios e televis\u00f5es de outros pa\u00edses europeus. Ou que tenha vivido longos anos longe, sem contactos durante muito tempo com as esta\u00e7\u00f5es portuguesas. E que, por isso mesmo, saiba comparar com outras maneiras de produzir entretenimento como informa\u00e7\u00e3o. O que leva naturalmente a uma atitude cr\u00edtica para com o que r\u00e1dios e televis\u00f5es prop\u00f5em em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal atitude manifesta-se sobretudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 televis\u00e3o. At\u00e9 porque ela \u00e9, h\u00e1 longos anos, o ator dominante da paisagem medi\u00e1tica. E, claro est\u00e1, a cr\u00edtica endere\u00e7a-se a maior parte das vezes \u00e0 RTP. Porque \u00e9 ela que faz parte h\u00e1 mais tempo do patrim\u00f3nio cultural portugu\u00eas. Porque \u00e9 considerada como \u201cservi\u00e7o p\u00fablico\u201d e, por isso mesmo, paga naturalmente por todos n\u00f3s. Quando as privadas existem sobretudo como neg\u00f3cio ou como instrumentos de press\u00e3o social, cultural e pol\u00edtica. E quando estas mesmas televis\u00f5es podem mudar de propriet\u00e1rios, como ali\u00e1s se tem visto. Mas imagina-se dificilmente que a p\u00fablica possa mudar de propriet\u00e1rio(s) e daquilo que \u00e9 teoricamente o seu projeto cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, os respons\u00e1veis da RTP n\u00e3o gostam nada que os cidad\u00e3os-pagadores-da-contribui\u00e7\u00e3o-audiovisual fa\u00e7am uso do sentido cr\u00edtico. Recorrem assim ao velho ad\u00e1gio que estipula que a melhor defesa \u00e9 o ataque, desencadeando a \u201cbomba at\u00f3mica\u201d que consiste em acus\u00e1-los de \u201ccensura\u201d. Mesmo quando cr\u00edticos h\u00e1 que viveram e foram v\u00edtimas da censura, no que consumiam como no que produziam, quando a maior parte dos ditos respons\u00e1veis (se n\u00e3o todos) nunca souberam o que isso era.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, n\u00e3o ser\u00e1 salutar em democracia que, livremente, serenamente e sem demagogia, haja espectadores que se interroguem sobre a \u201csua\u201d televis\u00e3o? <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2005\/06\/26\/jornal\/rtp-quer-reduzir-duracao-dos-telejornais-27433\">Sobre a dura\u00e7\u00e3o dos telejornais<\/a> (duas a tr\u00eas vezes superior \u00e0 da maior parte dos <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2012\/09\/26\/jornal\/rtp1-reduz-telejornal-para-45-minutos-e-cria-programa-para-analisar-a-noticia-do-dia-25312724\">colegas europeus<\/a>)? Sobre o facto de que, no in\u00edcio dos jornais, quando h\u00e1 t\u00edtulos, sejam sempre tr\u00eas e que um deles seja obrigatoriamente sobre futebol? Sobre a sele\u00e7\u00e3o dos factos de atualidade praticada geralmente; dando demasiada aten\u00e7\u00e3o a crimes, acidentes e curiosidades sem relev\u00e2ncia social, e ao futebol (quotidianamente cuidado); esquecendo boa parte das vezes a atualidade internacional, societal, econ\u00f3mica e cultural, o estrangeiro sendo ami\u00fade tratado apenas a partir de <em>faits-divers<\/em>; transformando a \u201ccobertura\u201d da vida pol\u00edtica em simples seguidismo di\u00e1rio (ou quase) de l\u00edderes partid\u00e1rios e ao que foi \u201ccozinhado\u201d previamente pelas assessorias destes, n\u00e3o fazendo o jornalista um elementar relato de s\u00edntese?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 de facto saud\u00e1vel que haja espectadores que se interroguem sobre a hierarquiza\u00e7\u00e3o e o alinhamento dos temas tratados? Sobre a formula\u00e7\u00e3o dos textos, em termos sint\u00e1xicos como lexicogr\u00e1ficos (e at\u00e9 sobre os erros gramaticais regularmente cometidos na escrita como na pron\u00fancia)? Sobre a raridade das reportagens (no sentido forte do termo) e dos documentos, devidamente gravados, montados e acompanhados pela indispens\u00e1vel voz \u201c<em>off<\/em>\u201d? Sobre a presen\u00e7a exagerada de jornalistas que mais nada fazem do que mostrar-se e estender o microfone a quase sempre o mesmo tipo de testemunhas, transformando at\u00e9 bastantes vezes a dita presen\u00e7a do\/da jornalista numa entrada pela esquerda (ou direita) do ecr\u00e3 e uma sa\u00edda pela direita (ou esquerda), com ares por vezes de ris\u00edvel passagem de modelos?https:\/\/e9a6df2a072e4e58439b7bea2ddb7b97.safeframe.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o ser\u00e1 ainda normal que haja espectadores que se interroguem sobre a not\u00f3ria aus\u00eancia de especialistas da reda\u00e7\u00e3o nas principais \u00e1reas do conhecimento, capazes de p\u00f4r em perspetiva e analisar factos importantes da atualidade? E que achem pouco desej\u00e1vel que se recorra a \u201ccomentadores\u201d que j\u00e1 fazem isso mesmo noutros jornais (impressos, radiof\u00f3nicos, televisivos ou digitais), provocando uma lament\u00e1vel concentra\u00e7\u00e3o da \u201copini\u00e3o\u201d muito pouco pluralista?<\/p>\n\n\n\n<p>Pa\u00edses h\u00e1 nesta nossa Europa em que a cr\u00edtica dos <em>media <\/em>\u00e9 uma atividade permanente de s\u00edtios em linha, rubricas regulares na imprensa di\u00e1ria e publica\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas especializadas. Por vezes mesmo com cr\u00edticas ferozes aos programas de entretimento como de informa\u00e7\u00e3o. Sem que isso provoque a suscetibilidade e muito menos a agressividade a que a dire\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o da RTP Televis\u00e3o nos tem habituado nestes \u00faltimos tempos. At\u00e9 porque as cong\u00e9neres europeias t\u00eam consci\u00eancia que os cidad\u00e3os mais n\u00e3o fazem do que usufruir de um elementar direito constitucional em democracia. E porque tais cr\u00edticas os levam a reconsiderar o seu pr\u00f3prio trabalho e a procurar tom\u00e1-las em considera\u00e7\u00e3o em realiza\u00e7\u00f5es ulteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Habituada a imperar num panorama medi\u00e1tico nacional demasiado reduzido, a dire\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o da RTP Televis\u00e3o n\u00e3o suporta reparos e muito menos cr\u00edticas, estimando-se detentora de pr\u00e1ticas profissionais inquestion\u00e1veis. Um pouco de autocr\u00edtica e de mod\u00e9stia n\u00e3o lhe faria nada mal. Para bem de todos n\u00f3s\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><em>J-M Nobre-Correia \u2013 &#8220;P\u00fablico&#8221; 23 setembro 2021<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poder\u00e3o os telejornais da RTP ser objeto de cr\u00edtica sem que o chav\u00e3o da \u201ccensura\u201d seja brandido para tentar intimidar os autores?\u2026 (J-M Nobre-Correia)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-22467","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22467"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22467\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}