{"id":22466,"date":"2021-09-24T02:00:00","date_gmt":"2021-09-24T01:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22466"},"modified":"2021-09-23T22:26:48","modified_gmt":"2021-09-23T21:26:48","slug":"manifesto-em-defesa-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22466","title":{"rendered":"Manifesto em defesa do jornalismo"},"content":{"rendered":"\n<p>O ju\u00edzo das nossas escolhas editoriais n\u00e3o cede a manifestos intimidat\u00f3rios: obedece apenas \u00e0 lei, ao bem comum, \u00e0 nossa consci\u00eancia e \u00e0s necessidades e apoio dos nossos leitores. <em>(Manuel Carvalho, director do &#8220;P\u00fablico&#8221;)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Circula por a\u00ed um manifesto pela liberdade de express\u00e3o que avan\u00e7ou sob a \u00e9gide de princ\u00edpios iluminados e recolheu certamente o apoio de muitos cidad\u00e3os de boa-f\u00e9. Mas, como tantas vezes acontece, sob a capa de bons princ\u00edpios podem esconder-se estrat\u00e9gias s\u00f3rdidas e objectivos grotescos. No caso, o que na verdade se pretende n\u00e3o \u00e9 combater a censura: \u00e9 derrubar a media\u00e7\u00e3o do jornalismo. O que o manifesto quer n\u00e3o \u00e9 a liberdade de express\u00e3o: \u00e9 conseguir que jornais como o P\u00daBLICO se transformem num vazadouro semelhante \u00e0s redes sociais onde grassa a supersti\u00e7\u00e3o, o <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/08\/20\/politica\/opiniao\/virus-negacionismo-1974621\">negacionismo<\/a>, as teorias da conspira\u00e7\u00e3o ou as indigna\u00e7\u00f5es do dia temperadas com o habitual insulto. O manifesto inspira-se em Rosa Luxemburgo e o P\u00daBLICO responde com <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/11\/11\/politica\/opiniao\/os-anjos-e-os-demonios-que-a-revolucao-de-outubro-de-1917-solta-no-portugal-anacronico-de-2017-1792117\">Dolores Ib\u00e1rruri<\/a>, \u201cLa Pasion\u00e1ria\u201d, outra lumin\u00e1ria do radicalismo iliberal: \u201cNo pasar\u00e1n!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como come\u00e7o, vale a pena perguntar por que raz\u00e3o o P\u00daBLICO \u00e9 o alvo desta sanha intimidat\u00f3ria feita em nome da liberdade de express\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e1 por contar no seu painel de colunistas regulares com pessoas de todas as orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas. N\u00e3o ser\u00e1 por ter <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/12\/14\/opiniao\/noticia\/pandemia-onde-vamos-1942028\">publicado artigos de Raquel Varela<\/a> a defender que os confinamentos nos levaram ao \u201climiar do totalitarismo\u201d. Nem por ter acolhido <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/05\/26\/opiniao\/noticia\/pobre-pais-rico-1917971\">textos de Paulo de Morais<\/a>, outro subscritor, a descrever o pa\u00eds como um p\u00e2ntano de corrup\u00e7\u00e3o sem nunca ter divulgado um s\u00f3 caso em concreto. N\u00e3o, o pretexto formal foi a publica\u00e7\u00e3o e posterior despublica\u00e7\u00e3o de um artigo do m\u00e9dico Pedro Gir\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Peguemos, ent\u00e3o, nesse caso. Certo: a publica\u00e7\u00e3o foi um erro, ocorrido em tempo de f\u00e9rias e despublicado por ferir as normas do nosso Livro de Estilo. <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/08\/19\/sociedade\/opiniao\/erro-pedido-desculpa-1974641\">Pedimos desculpa por esse erro<\/a> e discutimos as nossas raz\u00f5es com os leitores e com o autor <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/09\/06\/opiniao\/opiniao\/unanimismo-produto-toxico-1976500\">num texto de cr\u00edtica e resposta franco e aberto<\/a>. Pedro Gir\u00e3o voltou, entretanto, a escrever no jornal, mantendo as suas cr\u00edticas ao \u201cpensamento \u00fanico\u201d, as suas reflex\u00f5es sobre o car\u00e1cter transit\u00f3rio das verdades da ci\u00eancia e as suas ideias (erradas, na nossa opini\u00e3o, mas leg\u00edtimas) sobre a gest\u00e3o da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, o manifesto insiste em acusar o P\u00daBLICO de censura, pelo que conv\u00e9m p\u00f4r as coisas no devido lugar. Primeiro, recordando que o P\u00daBLICO n\u00e3o \u00e9 um jornal de parede nem um albergue onde cabem todas as opini\u00f5es. Os seus leitores sabem bem qual \u00e9 a sua natureza, o seu prop\u00f3sito e os seus valores. Sabem que nos regemos por um estatuto editorial e por <a href=\"http:\/\/static.publico.pt\/nos\/livro_estilo\/\">um Livro de Estilo<\/a> que, em mat\u00e9ria de opini\u00e3o, obriga, por exemplo, \u201cao respeito pela linguagem n\u00e3o insultuosa e n\u00e3o panflet\u00e1ria\u201d ou exige que \u201ca opini\u00e3o dever\u00e1 ser sempre devidamente fundamentada\u201d. Sabem que somos o \u00fanico jornal do pa\u00eds com um <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/11\/11\/sociedade\/noticia\/jose-manuel-baratafeyo-novo-provedor-leitor-publico-1938696\">provedor do Leitor<\/a> e um Conselho de Leitores (desactivado desde o in\u00edcio da pandemia, \u00e9 certo). Internamente, temos o privil\u00e9gio de manter um Conselho de Redac\u00e7\u00e3o vigilante e cr\u00edtico. E, em decorr\u00eancia da Lei de Imprensa, sabem tamb\u00e9m que o P\u00daBLICO tem um director para \u201corientar, superintender e determinar o conte\u00fado da publica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Confundir \u201ccensura\u201d com media\u00e7\u00e3o e com a aplica\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios editoriais s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 sinal de ignor\u00e2ncia porque est\u00e1 fora de causa a craveira intelectual dos mentores do manifesto. Sobra ent\u00e3o o seu prop\u00f3sito essencial: a vontade de se ingerirem na liberdade editorial do jornal e o desejo incontido de abolirem as regras que garantem a sua identidade e credibilidade. Os manifestantes querem que o P\u00daBLICO, hoje, e outros jornais, amanh\u00e3, aceitem e publiquem sem reservas todos os seus devaneios, verdades retorcidas ou mundivis\u00f5es eivadas de ressentimento aprimoradas pela desinforma\u00e7\u00e3o. Querem, afinal, deslegitimar o <a href=\"https:\/\/static.publico.pt\/nos\/livro_estilo\/29-codigo-d.html\">jornalismo fundado na deontologia<\/a>, na lei e na responsabilidade perante a sociedade para o transformar numa cloaca onde, em nome da liberdade de express\u00e3o, a supersti\u00e7\u00e3o, a mentira ou os fantasmas da conspira\u00e7\u00e3o se instituam.<\/p>\n\n\n\n<p>Usar um manifesto como um ataque <em>ad hominem<\/em> com o prop\u00f3sito de for\u00e7ar o P\u00daBLICO a publicar o que n\u00e3o cabe na sua orienta\u00e7\u00e3o editorial \u00e9, por isso, uma tentativa de esvaziar os direitos dos jornalistas de decidir o que \u00e9 ou n\u00e3o not\u00edcia ou separar a opini\u00e3o relevante da opini\u00e3o manipuladora.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste vale-tudo, Raquel Varela tem at\u00e9 o descaramento de dizer que a assinatura do manifesto deu origem a uma \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d da parte do P\u00daBLICO a partir dos <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/09\/20\/sociedade\/noticia\/raquel-varela-perde-apoio-concurso-fct-devido-erros-curriculo-1978121\">erros do seu curr\u00edculo.<\/a> Uma mentira facilmente desmascarada pela sua conta no Facebook, na qual, a 27 de Julho, h\u00e1 dois meses, quando soube da nossa investiga\u00e7\u00e3o, prometeu levar o jornalista a tribunal se avan\u00e7asse com o seu dever profissional. Se h\u00e1 quem tenha argumentos para dizer que esta campanha \u00e9 uma \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9, portanto, o P\u00daBLICO. N\u00e3o vamos por a\u00ed, embora saibamos que h\u00e1 sempre um pre\u00e7o a pagar pelo dever de fazer jornalismo. Nada, portanto, a esconder: escrutinar um concurso com dinheiros p\u00fablicos no qual a historiadora apresentou um curr\u00edculo favorecido por v\u00e1rios erros \u00e9 jornalismo e nada mais do que jornalismo. Se a not\u00edcia surgiu agora, \u00e9 porque s\u00f3 agora o Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea, que lhe retirou o apoio, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/09\/21\/sociedade\/noticia\/raquel-varela-contabilizou-67-artigos-cientificos-so-metade-numero-1978291\">validou a nossa informa\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto dito, repita-se uma recomenda\u00e7\u00e3o aos mentores do manifesto (e s\u00f3 a esses, para evitar ferir a boa-f\u00e9 de muitos que o subscreveram em nome de altos princ\u00edpios): n\u00e3o nos intimidam. A l\u00f3gica irrespons\u00e1vel das redes sociais onde gostam de se banquetear n\u00e3o vai subverter o nosso jornalismo, os nossos valores nem os nossos deveres para com a sociedade. No P\u00daBLICO, quem determina o que se publica ou n\u00e3o publica s\u00e3o os seus jornalistas, os seus editores e os seus directores. O ju\u00edzo das nossas escolhas editoriais n\u00e3o cede\u00a0a manifestos intimidat\u00f3rios: obedece apenas \u00e0 lei, ao bem comum, \u00e0 nossa consci\u00eancia e \u00e0s necessidades e apoio dos nossos leitores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Manuel Carvalho \u2013 &#8220;P\u00fablico&#8221; 23 setembro 2021<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ju\u00edzo das nossas escolhas editoriais n\u00e3o cede a manifestos intimidat\u00f3rios: obedece apenas \u00e0 lei, ao bem comum, \u00e0 nossa consci\u00eancia e \u00e0s necessidades e apoio dos nossos leitores. 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