{"id":22149,"date":"2021-08-25T04:40:00","date_gmt":"2021-08-25T03:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22149"},"modified":"2021-08-25T04:38:19","modified_gmt":"2021-08-25T03:38:19","slug":"liberdade-e-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=22149","title":{"rendered":"Liberdade e censura"},"content":{"rendered":"\n<p>A confus\u00e3o que reina sobre duas no\u00e7\u00f5es essenciais \u00e9 claramente nefasta para a credibilidade do jornalismo e o futuro dos jornais\u2026 <em>(Nobre-Correia)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Em muitos aspetos, Portugal sofre as consequ\u00eancias da sua hist\u00f3ria. E isso \u00e9 evidente no que diz respeito ao jornalismo que se pratica. E nas rela\u00e7\u00f5es que os cidad\u00e3os reclamam ter com os jornais e que estes procuram manter com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Comparados com os de boa parte dos pa\u00edses da Europa ocidental, o aparecimento e o desenvolvimento da imprensa em Portugal s\u00e3o tardios. Que se trate da instala\u00e7\u00e3o do primeiro prelo, como dos lan\u00e7amentos do primeiro seman\u00e1rio ou do primeiro di\u00e1rio. At\u00e9 porque em termos de geografia f\u00edsica como de geopol\u00edtica, Portugal viveu longe da Europa onde se operavam as grandes iniciativas na mat\u00e9ria. Mas tamb\u00e9m porque a Igreja Cat\u00f3lica tudo fez, aqui como noutros pa\u00edses de influ\u00eancia cat\u00f3lica, para manter \u201co povo de Deus\u201d no analfabetismo (ao contr\u00e1rio do protestantismo que quis que ele pudesse ter diretamente acesso \u00e0 B\u00edblia e demais \u201ctextos sagrados\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Consequ\u00eancia deste vasto analfabetismo, quando a imprensa dita popular surge, os grandes t\u00edtulos como o <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em> (em 1865) e <em>O S\u00e9culo<\/em> (em 1881) nunca atingem tiragens de di\u00e1rios de pa\u00edses europeus com demografias compar\u00e1veis. A instabilidade pol\u00edtica e social da Primeira Rep\u00fablica, e a repress\u00e3o permanente do Estado Novo em nada contribu\u00edram para a afirma\u00e7\u00e3o de uma imprensa e de um jornalismo fortes. E Portugal chega ao 25 de Abril com uma taxa de analfabetismo elevada e sendo um dos rar\u00edssimos pa\u00edses da Europa ocidental a n\u00e3o dispor de uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica em jornalismo. At\u00e9 mesmo os comparsas fascista, nazi e franquista do salazarismo tinham criado escolas nesta \u00e1rea profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Portugal pode enfim viver em liberdade e democracia, condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis a uma pr\u00e1tica jornal\u00edstica no sentido forte do termo, o pa\u00eds encontra-se com uma \u201cclasse\u201d desprovida de s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o profissional e geralmente mesmo de forma\u00e7\u00e3o superior em qualquer outra \u00e1rea. \u201cClasse\u201d que se manter\u00e1 aterrada pela dolorosa lembran\u00e7a da Censura e da autocensura. Enquanto jornalistas e leitores, \u00e0 imagem da eclos\u00e3o social a que o 25 Abril abriu portas, passam a adotar uma conce\u00e7\u00e3o desabrida da liberdade, marcada pelo ferrete do individualismo. O que leva jornais e jornalistas a pr\u00e1ticas insustent\u00e1veis e de certo modo suicid\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque um jornal \u00e9 uma entidade com personalidade pr\u00f3pria, necessariamente dotada de sensibilidade, de coluna vertebral, em conformidade com um projeto societal inicial. Condi\u00e7\u00f5es essenciais para tornar poss\u00edvel a proximidade e a identifica\u00e7\u00e3o com o seu p\u00fablico. Pelo que n\u00e3o pode ser uma manta de retalhos de conte\u00fados heterocl\u00edticos em termos de <em>d\u00e9marche <\/em>intelectual e de pr\u00e1tica profissional. Muito menos uma esp\u00e9cie de painel de afixa\u00e7\u00e3o onde qualquer colaborador exterior ou simples leitor pode publicar aquilo que lhe d\u00e1 na real gana, \u00e0 revelia dos princ\u00edpios editoriais que norteiam o jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>A paisagem jornal\u00edstica escrita portuguesa \u00e9 terrivelmente pobre em termos de diversidade: os pretensos di\u00e1rios \u201cnacionais\u201d generalistas impressos n\u00e3o s\u00e3o mais de cinco, a que vem juntar-se um digital mais ideol\u00f3gico do que informativo. O que explica que os editores (no sentido original da palavra) fa\u00e7am estranhos c\u00e1lculos de base: o jornal n\u00e3o deve tomar posi\u00e7\u00e3o nos grandes debates de sociedade e tem que ser aberto \u00e0s posi\u00e7\u00f5es mais contrastadas e at\u00e9 contradit\u00f3rias, em nome de um extravagante pluralismo. Pensam assim ser capazes de acolher toda a esp\u00e9cie de p\u00fablicos, quando de facto fazem afastar muitos dos que foram fi\u00e9is leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a sele\u00e7\u00e3o de \u201cpe\u00e7as\u201d que correspondem ao projeto editorial, \u00e0 qualidade de escrita e de argumenta\u00e7\u00e3o do jornal, os autores (internos e externos) cujas produ\u00e7\u00e3o \u00e9 exclu\u00edda rotulam isso de \u201ccensura\u201d. Quando se trata quase sempre de simples aplica\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios editoriais previamente definidos e consignados por vezes num \u201clivro de estilo\u201d cuja preocupa\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria \u00e9 a qualidade do conte\u00fado proposto aos leitores. Uma s\u00e9ria aplica\u00e7\u00e3o destes crit\u00e9rios e uma exigente produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica sup\u00f5e, por\u00e9m, uma equipa de reda\u00e7\u00e3o qualificada numerosa. Como implica uma forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica pr\u00e9via que n\u00e3o parece ser o que prop\u00f5em as escolas de (ci\u00eancias da) comunica\u00e7\u00e3o bem pouco jornal\u00edsticas que proliferam pelo pa\u00eds fora\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><em>J-M Nobre-Correia &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 24 agosto 2021<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/08\/24\/opiniao\/opiniao\/liberdade-censura-1974982\">https:\/\/www.publico.pt\/2021\/08\/24\/opiniao\/opiniao\/liberdade-censura-1974982<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A confus\u00e3o que reina sobre duas no\u00e7\u00f5es essenciais \u00e9 claramente nefasta para a credibilidade do jornalismo e o futuro dos jornais\u2026 (Nobre-Correia)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-22149","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22149\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}