{"id":20952,"date":"2021-04-03T00:38:47","date_gmt":"2021-04-02T23:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20952"},"modified":"2021-04-03T00:38:47","modified_gmt":"2021-04-02T23:38:47","slug":"uma-dominacao-tematica-simplista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20952","title":{"rendered":"Uma domina\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica simplista"},"content":{"rendered":"\n<p>A pandemia torna tudo cinzento e assaz aborrecido. N\u00e3o havia necessidade. Eu sei que esta compara\u00e7\u00e3o de meios e recursos, prepara\u00e7\u00e3o e qualidade, \u00e9 injusta, mas leia-se o New York Times, ou o Guardian, ou o Financial Times e veja-se como nenhum deles tem esta domina\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica simplista, mesmo quando tratam da pandemia e da gravidade nos seus pa\u00edses como os EUA ou o Reino Unido. <em>(Jos\u00e9 Pacheco Pereira)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab\u00c9 preciso muita paci\u00eancia para ler, ver e ouvir grande parte da comunica\u00e7\u00e3o social portuguesa. Bem sei que os tempos n\u00e3o est\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 variedade, ao pluralismo e \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, mas sempre podia haver um esfor\u00e7o. A pandemia ocupa tudo, o que seria compreens\u00edvel se os olhares sobre o que se est\u00e1 passar fossem diferentes, mas \u00e9 tudo igual. H\u00e1 uma nova not\u00edcia todos os dias, os n\u00fameros de infectados, mortos, recuperados, o que \u00e9 sempre uma not\u00edcia. Mas depois s\u00e3o p\u00e1ginas e p\u00e1ginas de textos que poderiam ser escritos h\u00e1 meio ano, no m\u00eas passado, a semana passada, e consideravelmente repetitivos, seja pelo tema, seja pela abordagem de \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o A para o B, o C, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia torna tudo cinzento e assaz aborrecido. N\u00e3o havia necessidade. Eu sei que esta compara\u00e7\u00e3o de meios e recursos, prepara\u00e7\u00e3o e qualidade, \u00e9 injusta, mas leia-se o New York Times, ou o Guardian, ou o Financial Times e veja-se como nenhum deles tem esta domina\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica simplista, mesmo quando tratam da pandemia e da gravidade nos seus pa\u00edses como os EUA ou o Reino Unido. (As televis\u00f5es s\u00e3o mais monoc\u00f3rdicas.) Estes grandes jornais l\u00eaem-se com curiosidade e demoram tempo a chegar ao fim, o meu crit\u00e9rio sempre para medir o interesse de um jornal. E s\u00e3o variados, muito variados nas suas edi\u00e7\u00f5es com raros casos de parecen\u00e7as, fora de eventos que se imp\u00f5em a qualquer \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o social. Foi o caso do cargueiro encalhado no canal do Suez que causou perturba\u00e7\u00f5es no com\u00e9rcio mundial. Um navio apenas, e tinha tudo para ser not\u00edcia, imagens e v\u00eddeos, drones e rebocadores e filas e filas de engarrafamento. Mas, mesmo assim, passado o n\u00facleo duro da not\u00edcia, os artigos, as opini\u00f5es, os pareceres de economistas, variavam e podiam-se ler v\u00e1rios jornais sem fastio nem repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto p\u00e9ssimo da pandemia foi exacerbar a praga do politicamente correcto. Algu\u00e9m percebeu o que se passou em Corroios? Li praticamente todas as not\u00edcias e n\u00e3o se percebe nada. Havia um gangue ou era uma rixa entre fam\u00edlias? Rixas entre fam\u00edlias com armas de fogo costumam passar-se entre ciganos. Foi assim ou n\u00e3o? Se calhar n\u00e3o foi e a suspeita fica no ar, porque uma interpreta\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica do C\u00f3digo Deontol\u00f3gico impede os jornalistas de nos explicarem o que se passou. E esta \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o relevante. Se foi um gangue, que gangue? \u00c9 suposto a pol\u00edcia conhecer os gangues que actuam nos bairros degradados da Margem Sul e Norte do Tejo. Barricaram-se num armaz\u00e9m disparando contra a pol\u00edcia ou n\u00e3o? Era um ou dois ou 10, e escaparam, como parece escaparem-se sempre. O que foi preso, por que raz\u00e3o \u00e9 que foi preso, para a seguir ser libertado? Quando a pol\u00edcia anunciou negocia\u00e7\u00f5es era para falar com um armaz\u00e9m vazio ou havia gente l\u00e1 dentro? Repito, n\u00e3o se percebe nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito que isto escandalize muita gente, vale mais ler o Correio da Manh\u00e3, com o seu alinhamento de not\u00edcias, com o futebol no corpo habitual da pol\u00edtica, o crime a seguir e, no fim, as hist\u00f3rias das vedetazinhas do nosso triste jet set. Muitas cr\u00edticas podem ser feitas ao modo como o jornal trata os seus conte\u00fados, como sejam as ilustra\u00e7\u00f5es de mulheres atacadas e violadas, sempre com ar sexy e desnudas. Mas no meio h\u00e1 not\u00edcias diferentes, muitas vezes tratadas de forma tabl\u00f3ide e sensacionalista, mas nem por isso deixam de ser not\u00edcias, h\u00e1 uma p\u00e1gina para os media com informa\u00e7\u00e3o relevante, quando n\u00e3o se fica apenas pela guerra Cofina-TVI, h\u00e1 um tratamento da pandemia assente em gr\u00e1ficos actualizados todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por boas e m\u00e1s raz\u00f5es poupam-nos as p\u00e1ginas excessivas sobre a &#8220;cultura&#8221;, muitas vezes resultado de l\u00f3bis culturais que t\u00eam acesso aos jornalistas. J\u00e1 disse mais do que uma vez que valia a pena deixar passar um ou dois anos e rever a &#8220;obra&#8221; de muitas revela\u00e7\u00f5es art\u00edsticas com direito a p\u00e1ginas de texto e que depois d\u00e3o em nada. O mesmo para as start-ups anunciadas como grandes sucessos tecnol\u00f3gicos e empresariais, e que tamb\u00e9m n\u00e3o duram um ou dois anos e depois v\u00e3o para o cemit\u00e9rio das fal\u00eancias. O que isto significa \u00e9 que o fundamento inicial das not\u00edcias era muito pouco consistente, n\u00e3o incorporava nem um julgamento independente sobre a qualidade do trabalho art\u00edstico, nem a solidez empresarial m\u00ednima ou o valor da ideia original das start-ups. S\u00e3o artistas e \u00e9 o que conta, s\u00e3o start-ups e \u00e9 isso que conta, ou seja, a moda, as amizades, os conhecimentos e os neg\u00f3cios sem escrut\u00ednio nem julgamento \u00e9 que contam.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p><em>(Jos\u00e9 Pacheco Pereira \u2013 &#8220;S\u00e1bado&#8221;, 31 mar\u00e7o 2021. Texto escrito conforme a norma ortogr\u00e1fica de 1945.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia torna tudo cinzento e assaz aborrecido. N\u00e3o havia necessidade. 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