{"id":20376,"date":"2021-02-06T18:15:14","date_gmt":"2021-02-06T18:15:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20376"},"modified":"2021-02-06T18:15:16","modified_gmt":"2021-02-06T18:15:16","slug":"a-mentira-no-pequeno-ecra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20376","title":{"rendered":"A mentira no pequeno ecr\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p>Sem negar a gravidade da pandemia, devemos perceber que quanto mais o jornalismo obeso e com a cegueira da enumera\u00e7\u00e3o se aplica a mostrar menos d\u00e1 a ver, quanto mais imagens nos fornece mais vis\u00e3o nos confisca, quanto mais nos quer convencer de que toca a realidade e a verdade mais produz fic\u00e7\u00e3o e mentira. <em>(Ant\u00f3nio Guerreiro)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A quem se disp\u00f5e a ver e ouvir os principais notici\u00e1rios televisivos, \u00e0 noite, pelas 20h, em qualquer um dos principais canais (RTP1 \u2014 salva-se a RTP2 \u2014 SIC e TVI) \u00e9-lhe infligida uma dose superlativa e alongada de not\u00edcias e reportagens sobre a covid-19 que s\u00e3o exactamente iguais \u00e0s not\u00edcias e reportagens do dia anterior, quase iguais \u00e0s da semana anterior e horizontalmente encadeadas, sem picos nem descontinuidades, nas do m\u00eas anterior. A \u00fanica coisa que difere \u00e9 o teor de dramatismo, a acentua\u00e7\u00e3o, a m\u00edmica dos jornalistas (categoria na qual o vencedor absoluto \u00e9 o clown Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos).<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias, o empenho destes jornalistas em nos fazer imergir na pe\u00e7a que eles interpretam em v\u00e1rios andamentos (perigo, desastre, trag\u00e9dia apocalipse) deixa-nos obtusos, anestesiados, irritados ou aterrorizados, conforme o nosso grau de permeabilidade e de \u201cliteracia medi\u00e1tica\u201d, como se diz hoje. Sem negar a gravidade da pandemia, devemos perceber que quanto mais este jornalismo obeso e com a cegueira da enumera\u00e7\u00e3o se aplica a mostrar menos d\u00e1 a ver, quanto mais imagens nos fornece mais vis\u00e3o nos confisca, quanto mais nos quer convencer de que toca a realidade e a verdade mais produz fic\u00e7\u00e3o e mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>Este jornalismo da mesmice \u2014 dos mesmos factos, das mesmas pessoas e do mesmo tom \u2014 que encena pela redund\u00e2ncia uma ilus\u00e3o de totalidade (e que, por isso, precisa sempre de muito tempo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de roman-fleuve di\u00e1rio) coloca-nos perante um enigma: os jornalistas fazem-no por genu\u00edna convic\u00e7\u00e3o, por convic\u00e7\u00e3o induzida atrav\u00e9s de um mecanismo coercivo, ou sem nenhuma convic\u00e7\u00e3o, mas enquanto funcion\u00e1rios pragm\u00e1ticos? Ficar\u00edamos a saber alguma coisa de \u00fatil e mais aprofundada se eles se dispusessem a falar da sua profiss\u00e3o e das circunst\u00e2ncias em que trabalham sem ser para cantar hinos e celebrar os sucessos da institui\u00e7\u00e3o que lhes d\u00e1 emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>John Maynard Keynes disse uma vez dos seus pares: \u201cOs economistas est\u00e3o ao volante da nossa sociedade, mas deviam estar no banco de tr\u00e1s\u201d. \u00c9 justo e razo\u00e1vel achar que Keynes tinha raz\u00e3o em 1946, quando fez essa afirma\u00e7\u00e3o, e continua a t\u00ea-la hoje. V\u00e3o para ele os cr\u00e9ditos se dissermos mais ou menos o mesmo de quem vai ao volante deste jornalismo que nos \u00e9 servido diariamente na televis\u00e3o (n\u00e3o falo agora dos jornais porque a\u00ed, apesar de tudo, a paisagem \u00e9 menos mon\u00f3tona e mais plural).<\/p>\n\n\n\n<p>Atentemos no seguinte: o canal de televis\u00e3o que \u00e0 segunda-feira, num programa de fact-checking chamado Pol\u00edgrafo, tra\u00e7a \u201cuma linha em nome dos factos\u201d, dizendo-nos \u201conde acaba a verdade e come\u00e7a a mentira\u201d, \u00e9 o mesmo que levou uma hora e meia a mentir-nos no Jornal da Noite que antecede esse programa. N\u00e3o mente por dizer mentiras ou falsear imagens, n\u00e3o \u00e9 a actual quest\u00e3o das fake news e da p\u00f3s-verdade que aqui surge como pertinente ou a solicitar an\u00e1lise. Mente pelo encadeamento de palavras e de imagens, pela polui\u00e7\u00e3o discursiva e visual que produz, pelo tom adoptado (a dimens\u00e3o pros\u00f3dica do discurso, digamos assim), arrastando-nos para uma das regi\u00f5es mais polu\u00eddas do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, nem palavras nem imagens s\u00e3o zonas a defender. Cumpre-se um formul\u00e1rio que encontrou uma representa\u00e7\u00e3o eloquente no mais repetido estribilho dos \u00faltimos meses: \u201cHoje h\u00e1 X mortes a lamentar\u201d. Temos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o outras maneiras de dizer, de fazer, de dar a ver (mesmo na televis\u00e3o em Portugal: \u00e9 preciso dizer que nem tudo se equivale, n\u00e3o h\u00e1 apenas os jornais televisivos das 20h, nem todos praticam o mesmo tipo de jornalismo) que, sem a pretens\u00e3o de um pol\u00edgrafo, nos facultam elementos suficientes para percebermos onde est\u00e1 a mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma cena do filme Palombella Rossa em que o protagonista, um deputado comunista interpretado pelo pr\u00f3prio realizador, Nanni Moretti, entrevistado por uma jornalista, come\u00e7a a fazer um relato de lutas ecol\u00f3gicas e pol\u00edticas travadas por comunidades ind\u00edgenas do Peru. A entrevistadora, achando o assunto pouco interessante, interrompe-o e faz-lhe perguntas sobre o seu div\u00f3rcio e o seu estilo de vida. Atingindo o extremo da impaci\u00eancia, o entrevistado d\u00e1 uma bofetada \u00e0 jornalista e grita-lhe: \u201cMa come parla? Come parla?\u201d, como quem diz: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel falar dessa maneira? Como posso eu continuar a falar consigo?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ant\u00f3nio Guerreiro &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 5 fevereiro 2021<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/02\/05\/culturaipsilon\/cronica\/mentira-ecra-1949079\">https:\/\/www.publico.pt\/2021\/02\/05\/culturaipsilon\/cronica\/mentira-ecra-1949079<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem negar a gravidade da pandemia, devemos perceber que quanto mais o jornalismo obeso e com a cegueira da enumera\u00e7\u00e3o se aplica a mostrar menos d\u00e1 a ver, quanto mais imagens nos fornece mais vis\u00e3o nos confisca, quanto mais nos quer convencer de que toca a realidade e a verdade mais produz fic\u00e7\u00e3o e mentira. 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