{"id":20259,"date":"2021-01-26T00:35:00","date_gmt":"2021-01-26T00:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20259"},"modified":"2021-01-26T00:32:49","modified_gmt":"2021-01-26T00:32:49","slug":"relatorio-de-primeiras-impressoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20259","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio de Primeiras Impress\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>Assim se designa, na g\u00edria castrense, um relat\u00f3rio sum\u00e1rio, feito ap\u00f3s algo de significativo, como uma opera\u00e7\u00e3o militar. Em cima dos resultados das recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais, s\u00f3 podem ser feitos relat\u00f3rios deste tipo. Longos meses decorrer\u00e3o at\u00e9 que os resultados das elei\u00e7\u00f5es se traduzam em t\u00e1ticas, e sobretudo estrat\u00e9gias, baseadas na consulta popular. <em>(Nuno Santa Clara)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No nosso folclore pol\u00edtico, \u00e9 raro haver perdedores. Por estranho que pare\u00e7a, todos ganharam, o que, do lado da experi\u00eancia, \u00e9 verdadeiro. Quanto ao resto\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Uma leitura imediata foi j\u00e1 proposta: a Direita ganhou. Ponto.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, tudo indica que sim: a Esquerda, sempre dividida, n\u00e3o apresentou um candidato cred\u00edvel. Ana Gomes surgiu como <em>outsider<\/em>, porta-voz dos descontentes do PS, misturada com um projeto pessoal e com uma reivindica\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, fora de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, constata-se que a T\u00e1tica pode ser inimiga da Estrat\u00e9gia: ganhar a curto prazo pode custar caro no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande inova\u00e7\u00e3o foi o Chega!, sob a batuta (vis\u00edvel) de Andr\u00e9 Ventura. Alarmam-se as gentes, mobilizam-se as hostes, mas o fen\u00f3meno est\u00e1 a\u00ed: foi o terceiro mais votado, embora aqu\u00e9m da solene promessa de ultrapassar Ana Gomes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 mesmo que a Esquerda foi derrotada?<\/p>\n\n\n\n<p>Na confus\u00e3o das coliga\u00e7\u00f5es, t\u00e1citas ou expressas, fica a quest\u00e3o da divis\u00e3o dos votos. Tanto se pode argumentar que a Direita levou tudo, como que, sem parte do PS (pelo menos), Marcelo Rebelo de Sousa n\u00e3o teria sido eleito, pelo menos \u00e0 primeira volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds estranho. Para quem viveu o 25 de Abril, e o que de imediato se seguiu com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o, ficou sempre uma quest\u00e3o em aberto: afinal, onde est\u00e3o \u201celes\u201d? Parece que ningu\u00e9m se preocupou com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordemos Alphonse Daudet, o romancista franc\u00eas de fino humor, apaixonado pelo seu Languedoc natal, que n\u00e3o deixou de caricaturar, no seu excelente <em>Tartarin de Tarascon<\/em>. O anti-her\u00f3i teme uns inimigos obscuros, considerados terr\u00edveis, pelo que se arma at\u00e9 aos dentes, \u00e0 espera que \u201celes\u201d venham. Nunca vieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Como t\u00e3o bem definiu Fernando Pessoa, no seu poema \u201cLiberdade\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2026 Quanto \u00e9 melhor, quanto h\u00e1 bruma,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esperar por D. Sebasti\u00e3o,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quer venha ou n\u00e3o!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Mas \u201celes\u201d afinal, sempre apareceram, ao fim de duas gera\u00e7\u00f5es. Integrados numa corrente, multifacetada na Europa, recentemente derrotada na Am\u00e9rica, mas resiliente. Ou seja, est\u00e3o para ficar \u2013 no lugar onde sempre estiveram, com mais ou menos visibilidade. No caso portugu\u00eas, envoltos nas brumas, n\u00e3o \u201cas da mem\u00f3ria\u201d, de sabor republicano, mas as do Reino da Traulit\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa primeira impress\u00e3o, o que se pode dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Gomes teve um papel positivo: ficou \u00e0 frente \u201cdeles\u201d, lan\u00e7ando a confus\u00e3o nas hostes, e demonstrando que, mesmo dividido, o Partido Socialista mant\u00e9m a capacidade de orienta\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a \u201celes\u201d, se se fizer uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica distrito a distrito, ou mesmo concelho a concelho, est\u00e3o onde sempre estiveram. Tal como cris\u00e1lidas, metamorfosearam-se em insetos perfeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>As metamorfoses decorrem de ciclos, normalmente anuais, de modo a ocorrerem na \u00e9poca ideal.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso, em tempo de pandemia, de interven\u00e7\u00e3o dos Estados na Economia, do relan\u00e7amento dos Servi\u00e7os Nacionais de Sa\u00fade, multilateralismo, da abertura ao Mundo, do abrandar das tens\u00f5es, parece que estas cris\u00e1lidas despertaram fora de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a Vida!<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nuno Santa Clara<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim se designa, na g\u00edria castrense, um relat\u00f3rio sum\u00e1rio, feito ap\u00f3s algo de significativo, como uma opera\u00e7\u00e3o militar. Em cima dos resultados das recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais, s\u00f3 podem ser feitos relat\u00f3rios deste tipo. 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