{"id":20249,"date":"2021-01-22T12:17:21","date_gmt":"2021-01-22T12:17:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20249"},"modified":"2021-01-22T12:17:23","modified_gmt":"2021-01-22T12:17:23","slug":"da-responsabilidade-dos-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20249","title":{"rendered":"Da responsabilidade dos media"},"content":{"rendered":"\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da pandemia como da vida pol\u00edtica p\u00f5em seriamente em quest\u00e3o a qualidade do jornalismo de que dispomos\u2026 <em>(Nobre-Correia)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Os jornalistas formam um meio profissional singular. E uma das carater\u00edsticas do meio \u00e9 sentir-se autorizado a falar de tudo e todos (felizmente) e a criticar tudo e todos (embora desprovido por vezes de pertin\u00eancia). Outra, \u00e9 detestar que haja quem, no exterior, se permita falar do jornalismo praticado e ouse critic\u00e1-lo. E, como s\u00e3o os jornalistas que fazem os m\u00e9dia, a cr\u00edtica tem pouco acesso a estes. Acrescente-se o facto de \u201ca classe\u201d gostar pouco que exerc\u00edcios internos de cr\u00edtica sejam levados ao conhecimento de leitores, ouvintes ou espectadores. Por\u00e9m, nos dias de horror que vivemos, h\u00e1 raz\u00f5es sobejas para nos interrogarmos sobre o jornalismo em mat\u00e9ria de pandemia e de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a covid-19 atacou Portugal, diversas agremia\u00e7\u00f5es e personagens do mundo m\u00e9dico-sanit\u00e1rio tomaram de assalto os m\u00e9dia. Assalto tanto mais facilitado que se pratica cada vez mais nas reda\u00e7\u00f5es um jornalismo sentado, de computador e telem\u00f3vel, longe do \u201cterreno\u201d e da vida quotidiana dos cidad\u00e3os. Uma pr\u00e1tica largamente refor\u00e7ada pelo confinamento e as \u201cvideochamadas\u201d, e ainda pelo facto de que, contrariamente ao que acontece noutros m\u00e9dia europeus, as reda\u00e7\u00f5es portuguesas, que se saiba, n\u00e3o contam com m\u00e9dicos-jornalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, nada mais f\u00e1cil do que estender um micro e uma c\u00e2mara (de prefer\u00eancia em \u201cdireto\u201d) a um titular ou representante de agremia\u00e7\u00e3o: presidente de conselho de administra\u00e7\u00e3o de hospital, diretor cl\u00ednico, chefe de servi\u00e7o, enfermeiro chefe e demais gente de ordens, associa\u00e7\u00f5es profissionais e sindicatos, presidentes e diretores de lares, presidentes de c\u00e2maras e chefes de bombeiros\u2026 Pass\u00e1mos assim a ser informados algumas vezes com rigor e serenidade. Mas a maior parte das vezes fomos massacrados por personagens sem escr\u00fapulos, preocupados com promo\u00e7\u00e3o pessoal, corporativa ou partid\u00e1ria. Ou por institui\u00e7\u00f5es dotadas de assessorias que instrumentalizam os m\u00e9dia e p\u00f5em em valor quem lhes paga. E isto perante jornalistas satisfeitos com declara\u00e7\u00f5es mais ou menos estrondosas, incapazes de sentido cr\u00edtico e de poder de s\u00edntese, divulgadores do sentimento de caos e de d\u00favida permanente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s decis\u00f5es administrativas. Sem se preocuparem com iniciativas criativas e positivas, nem com pedagogia elementar perante a pandemia. Refor\u00e7ando um clima geral ansiog\u00e9nico, depressivo, mas tamb\u00e9m uma clara desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve, no entanto, at\u00e9 agora uma reflex\u00e3o de fundo da \u201cclasse\u201d sobre a \u201ccobertura\u201d da pandemia, nem como \u00e9 tratada uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, ali\u00e1s, contribuiu a criar. Onde se viu, com efeito, em pa\u00edses de velha democracia, os m\u00e9dia praticarem este pluralismo pervertido, extraviado, em que \u00e9 dada a mesma import\u00e2ncia a eleitos \u00fanicos de forma\u00e7\u00f5es <em>de facto<\/em> inexistentes antes da pr\u00f3pria elei\u00e7\u00e3o? Ora, como, num dos casos, o eleito conhece manifestamente os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o dos factos de atualidade pelos m\u00e9dia, ei-lo fazendo declara\u00e7\u00f5es o mais provocadoras e radicais poss\u00edvel, dentro e fora do parlamento, de modo a levar os jornalistas a darem-lhe a aten\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia que deseja.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdendo de vista a fun\u00e7\u00e3o social e a responsabilidade pol\u00edtica que \u00e9 a sua, os m\u00e9dia, e sobretudo a televis\u00e3o, adoram este g\u00e9nero de personagem desbocado, <em>augusto<\/em> de circo e <em>superman<\/em> de feira. E n\u00e3o se privam de reter uma declara\u00e7\u00e3o ou um gesto forte para ilustrar uma sequ\u00eancia e instigar um t\u00edtulo apelativo. Dando-lhe assim impunemente palco, fazendo-o conhecer e divulgando as suas op\u00e7\u00f5es, bem mais do que seria de esperar numa pr\u00e1tica de jornalismo ponderado e sereno. Ao mesmo tempo que jornalistas e m\u00e9dia v\u00e3o assim perdendo estima e respeito de leitores, ouvintes e espectadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jornalistas pretendem viver demasiadas vezes numa esp\u00e9cie de extraterritorialidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s conting\u00eancias da vida social e da sociedade democr\u00e1tica. Esquecendo que eles tamb\u00e9m, pela maneira como levam a atualidade ao conhecimento dos cidad\u00e3os e como a interpretam, s\u00e3o um vetor determinante no combate \u00e0 pandemia. Como o s\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vaga de fundo que alastra pela Europa (e n\u00e3o s\u00f3): a tenta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, xen\u00f3foba, racista\u2026 que sempre, absolutamente sempre, come\u00e7ou por castrar a informa\u00e7\u00e3o, os jornalistas e os m\u00e9dia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><em>J.-M. Nobre-Correia \u2013 &#8220;P\u00fablico&#8221; 22 janeiro 2021<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A evolu\u00e7\u00e3o da pandemia como da vida pol\u00edtica p\u00f5em seriamente em quest\u00e3o a qualidade do jornalismo de que dispomos\u2026 (Nobre-Correia)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-20249","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20249\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}