{"id":20166,"date":"2021-01-14T03:00:00","date_gmt":"2021-01-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20166"},"modified":"2021-01-13T14:09:10","modified_gmt":"2021-01-13T14:09:10","slug":"o-odio-e-a-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=20166","title":{"rendered":"O \u00f3dio e a Internet"},"content":{"rendered":"\n<p>A Internet tem amplificado e normalizado o \u00f3dio. Este \u00e9 um fen\u00f3meno que afecta toda a sociedade e a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 a express\u00e3o e discuss\u00e3o de opini\u00f5es s\u00e3o pretextos para ofender e diminuir, como o <em>online <\/em>contamina muitas vezes o <em>offline <\/em>, com graves consequ\u00eancias para a democracia. <em>(Susana Salgado)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9s atrasado mental, ou qu\u00ea? N\u00e3o queremos esse absurdo que \u00e9 o euro\u201d; \u201c\u00c9s est\u00fapida de mais para perceber as leis deste pa\u00eds\u201d; \u201cN\u00e3o queremos estes governantes canalhas, mentirosos e traidores\u201d; \u201cAcabaste de chamar \u2018excremento importado\u2019 aos imigrantes?\u201d; \u201cOs <em>media <\/em>s\u00f3 servem para alimentar os idiotas com informa\u00e7\u00e3o in\u00fatil\u201d. Estes coment\u00e1rios ilustram o tipo de mensagens com \u00f3dio que se encontram com alguma frequ\u00eancia em discuss\u00f5es nas redes sociais. O tom, a negatividade e, claro, o seu teor contaminam o debate pol\u00edtico, e a Internet \u00e9 determinante a espalhar este tipo de narrativas e a normalizar o \u00f3dio, porque aumenta exponencialmente o alcance de coment\u00e1rios que at\u00e9 h\u00e1 algum tempo s\u00f3 seriam tolerados em conversas privadas entre alguns grupos de amigos ou conhecidos. O projecto <a href=\"http:\/\/hate.ics.ulisboa.pt\/\">Hate<\/a> (<a href=\"http:\/\/hate.ics.ulisboa.pt\/\">hate.ics.ulisboa.pt<\/a>), que coordeno, financiado pela Funda\u00e7\u00e3o para a Ci\u00eancia e Tecnologia, estuda este fen\u00f3meno e as suas causas e consequ\u00eancias na pol\u00edtica e na participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando o impacto que mensagens de \u00f3dio j\u00e1 t\u00eam na pol\u00edtica e na sociedade, \u00e9 f\u00e1cil antever que as aplica\u00e7\u00f5es e os usos da Internet hoje influenciem tamb\u00e9m de forma decisiva os debates pol\u00edticos e as formas de governa\u00e7\u00e3o do futuro. A investiga\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais \u00e9 essencial para documentar e explicar como a realidade est\u00e1 agora a ser moldada pela tecnologia e como este impacto poder\u00e1 evoluir no futuro e, mais importante, como podemos n\u00e3o s\u00f3 corrigir a normaliza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o do \u00f3dio na Internet, mas sobretudo prevenir outras consequ\u00eancias t\u00e3o ou mais nocivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, os <em>media<\/em> t\u00eam sido determinantes para a literacia e para as atitudes pol\u00edticas. Seria imposs\u00edvel pensar a constru\u00e7\u00e3o da democracia liberal e a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos cidad\u00e3os, tal como as concebemos, sem o desenvolvimento, primeiro, da imprensa escrita, depois, dos meios audiovisuais e, por fim, da Internet. Mas como o ritmo das mudan\u00e7as tem sido cada vez mais r\u00e1pido, tornou-se mais dif\u00edcil acompanhar e dar resposta atempada aos problemas. \u00c9 assim essencial compreender as potencialidades das v\u00e1rias tecnologias que usamos no dia-a-dia e como estas t\u00eam influenciado (e mudado de forma decisiva em alguns casos) a forma como as pessoas pensam, processam e seleccionam a informa\u00e7\u00e3o, reagem e interagem, como se comportam e como se expressam.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00eanfase deve ser colocada na <em>forma<\/em> como a tecnologia \u00e9 utilizada, porque a Internet, por exemplo, pode ser um instrumento valioso para consolidar a democracia ou as autocracias mais variadas. Por isso, quanto mais soubermos hoje sobre os usos da Internet, mais condi\u00e7\u00f5es teremos para influenciar o futuro, por exemplo, atrav\u00e9s de propostas de pol\u00edticas que reforcem os usos positivos da Internet com vista a fortalecer a democracia. Tomando os dias de hoje como refer\u00eancia, por\u00e9m, as perspectivas n\u00e3o parecem ser as mais animadoras, quer para a qualidade da informa\u00e7\u00e3o que circula, quer para a toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a opini\u00f5es diferentes, elementos fundamentais em democracia e sem os quais esta n\u00e3o se concebe.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Sendo que esta \u00e9 conhecida como a \u201cidade da informa\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 caso para perguntar sobre o que \u00e9 que, exactamente, estamos assim t\u00e3o informados? A Internet provocou o que se pode designar como <em>overload<\/em> ou excesso de informa\u00e7\u00e3o: tanto permitiu um maior n\u00famero de fontes de informa\u00e7\u00e3o como consequentemente potenciou uma maior quantidade de informa\u00e7\u00e3o que circula agora com poucos ou nenhuns filtros e barreiras. Para al\u00e9m de ser humanamente imposs\u00edvel tratar toda a informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 agora dispon\u00edvel, o incremento na quantidade, em muitos casos, n\u00e3o se reflecte na qualidade da informa\u00e7\u00e3o a que estamos expostos. Nunca como hoje circulou tanta informa\u00e7\u00e3o falsa e tendenciosa entre um n\u00famero t\u00e3o elevado de pessoas e t\u00e3o facilmente. Nunca como hoje os conte\u00fados pol\u00edticos inclu\u00edram tanto antagonismo e \u00f3dio, o que polariza mais as posi\u00e7\u00f5es e os debates e torna os compromissos mais dif\u00edceis de atingir.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, este problema n\u00e3o se coloca apenas no debate pol\u00edtico. Estudos realizados noutros contextos (religi\u00e3o, por exemplo) t\u00eam demonstrado como a Internet (inadvertidamente) prejudica a qualidade da interac\u00e7\u00e3o humana em geral, porque permite o que \u00e9 denominado como \u201cciberdesinibi\u00e7\u00e3o\u201d. Existe uma desconex\u00e3o entre a forma como os nossos c\u00e9rebros est\u00e3o preparados para se conectar (com os outros em conversas e debates) e o tipo de <em>interface <\/em>que \u00e9 usado nas interac\u00e7\u00f5es <em>online<\/em>. Esta falha permite, por exemplo, que a inibi\u00e7\u00e3o que existe quando estamos face a face desapare\u00e7a se estivermos <em>online <\/em>e que todo o tipo de emo\u00e7\u00f5es negativas e agressivas sejam manifestadas com muito mais facilidade. O facto de serem permitidas interac\u00e7\u00f5es an\u00f3nimas agudiza, ainda mais, o problema.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Na pol\u00edtica, estas condi\u00e7\u00f5es refor\u00e7am as manifesta\u00e7\u00f5es de populismo. O populismo assenta precisamente no ressentimento e no \u00f3dio do \u201coutro\u201d, do que \u00e9 diferente, e numa necessidade de prevalecer sobre o outro. Esta divis\u00e3o entre o \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d encoraja frequentemente a demonstra\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do \u00f3dio e favorece a polariza\u00e7\u00e3o. Alguns autores referem mesmo que vivemos hoje numa \u00e9poca de tribos, mais do que de ideologias, por causa das lealdades acr\u00edticas e das interven\u00e7\u00f5es polarizadas de um cada vez maior n\u00famero de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom exemplo desta descri\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u201cBrexit\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Em v\u00e1rios momentos e debates pol\u00edticos, muitas das pessoas que consideravam as ideias radicais absurdas e perigosas acabaram, elas pr\u00f3prias, por se radicalizar, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/02\/tecnologia\/noticia\/youtube-transforma-moderados-radicais-1902314\">por exemplo<\/a>. O seu mundo passa assim a dividir-se entre aliados e inimigos, o que torna a pol\u00edtica tribal e especialmente confrontacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, a Internet n\u00e3o criou este estado de coisas, mas deu visibilidade a tend\u00eancias j\u00e1 existentes e acabou por amplific\u00e1-las. Existem estudos sobre a propaga\u00e7\u00e3o do \u00f3dio em pol\u00edtica muito antes da Internet, e o \u00f3dio tem sido, ao longo da hist\u00f3ria, uma arma, uma t\u00e1ctica para atingir objectivos. As pr\u00f3prias elei\u00e7\u00f5es em regimes democr\u00e1ticos s\u00e3o momentos particularmente prop\u00edcios para potenciar \u00f3dios latentes ou desencadear novos. Mas a Internet democratizou o acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico e com isso amplificou os discursos alternativos, normalizando-os, em formas e a um ritmo nunca antes vistos.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque h\u00e1 menos filtros, a Internet aumentou assim a visibilidade, mas tamb\u00e9m as formas de manifesta\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o de todo o tipo de ideias e sentimentos, \u00f3dio inclu\u00eddo. Ao analisar as mensagens que circulam <em>online <\/em>em v\u00e1rias plataformas \u00e9 poss\u00edvel comprovar que vivemos num tempo em que as emo\u00e7\u00f5es, e em particular as que chocam e provocam reac\u00e7\u00f5es, s\u00e3o mais importantes que os factos. Para al\u00e9m disso, a Internet tamb\u00e9m forneceu mais espa\u00e7os para a mobiliza\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias e propaga\u00e7\u00e3o de mensagens de \u00f3dio. Ou seja, democratizou-se a produ\u00e7\u00e3o de mensagens de \u00f3dio, incluindo com intuito comercial e de entretenimento, banalizando a exposi\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio e facilitando o seu consumo intencional. Esta tend\u00eancia estava presente mesmo antes das redes sociais, como demonstra um <em>site <\/em>com o nome de Martin Luther King que foi lan\u00e7ado em 1999 n\u00e3o por apoiantes, mas pelo fundador do movimento Stormfront, que \u00e9 conhecido por ser neonazi e por defender a supremacia branca.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os meios<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O que torna estes processos mais complexos \u00e9 a interac\u00e7\u00e3o entre os diferentes tipos de <em>media<\/em>. A publica\u00e7\u00e3o livre na Internet significa um enfraquecimento das estruturas que costumavam filtrar a informa\u00e7\u00e3o disponibilizada e assim contribu\u00edam para silenciar discursos alternativos t\u00f3xicos (\u00f3dio, <em>fake news<\/em>, etc.). Este processo, denominado \u201clavagem da informa\u00e7\u00e3o\u201d por alguns autores (ver, por exemplo, o livro de A. Klein intitulado <a href=\"https:\/\/www.palgrave.com\/gp\/book\/9783319514239\"><em>Fanaticism, Racism, and Rage Online: Corrupting the Digital Sphere<\/em><\/a>, publicado em 2017 pela editora Palgrave), significa que todos os tipos de informa\u00e7\u00e3o coexistem num mesmo ecossistema, tornando por vezes imposs\u00edvel a destrin\u00e7a entre o que \u00e9 verdadeiro, falso, ou um h\u00edbrido dos dois.<\/p>\n\n\n\n<p>A normaliza\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e de ret\u00f3ricas extremistas ocorre de duas formas: directamente, atrav\u00e9s da sua banaliza\u00e7\u00e3o na Internet e nas redes sociais, e indirectamente, atrav\u00e9s da subsequente cobertura jornal\u00edstica. Os activistas norte-americanos que compraram espa\u00e7o publicit\u00e1rio no metro para afixar propaganda antimu\u00e7ulmana sabiam de antem\u00e3o que iam ser censurados, mas tamb\u00e9m sabiam que podiam invocar a Primeira Emenda da Constitui\u00e7\u00e3o Norte-Americana e usar as redes sociais para disseminar a mensagem e que tudo isso despertaria o interesse da cobertura jornal\u00edstica. Na Europa, as tentativas de alguns Governos e plataformas de redes sociais para travar o discurso de \u00f3dio contra os imigrantes t\u00eam sido exploradas pelos nativistas de extrema-direita para comprovar o seu argumento de que existe uma conspira\u00e7\u00e3o levada a cabo pelas elites multiculturalistas para calar os receios do povo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>E agora?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que o \u00f3dio que j\u00e1 existia antes da Internet encontrou novas formas de express\u00e3o no <em>online<\/em>, existe tamb\u00e9m uma grande probabilidade de as manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio <em>online<\/em>, por serem amplificadas e potenciadas, ocuparem novos espa\u00e7os <em>offline<\/em>, com graves consequ\u00eancias para a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o estamos perante p\u00fablicos passivos, o estudo do \u00f3dio nos debates <em>online <\/em>n\u00e3o pode limitar-se \u00e0s mensagens, \u00e9 essencial compreender como as pessoas reagem a essas mensagens, porque umas s\u00e3o mais suscept\u00edveis do que outras. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m identificar e compreender as causas subjacentes, porque relacionados com os surtos de \u00f3dio <em>online <\/em>poder\u00e3o estar (e est\u00e3o, muitas vezes) ressentimentos estruturais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como a pol\u00edtica tem sido conduzida, ou reac\u00e7\u00f5es contra injusti\u00e7as e desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de simplesmente reagir aos malef\u00edcios causados pela Internet, devemos pensar o que torna a democracia mais saud\u00e1vel e como pode a Internet ser usada para esse fim.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Susana Salgado \u2013<\/em> <em>Investigadora de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; ICS-ULisboa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;P\u00fablico&#8221; &#8211; 10 janeiro 2021<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/01\/10\/sociedade\/noticia\/odio-internet-1945053\">https:\/\/www.publico.pt\/2021\/01\/10\/sociedade\/noticia\/odio-internet-1945053<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"has-cyan-bluish-gray-background-color has-background wp-block-heading\">Ci\u00eancias Sociais em P\u00fablico<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-cyan-bluish-gray-background-color has-text-color has-background\"><strong>O Instituto de Ci\u00eancias Sociais (ICS) \u00e9 uma escola da Universidade de Lisboa e um Laborat\u00f3rio Associado do Sistema Cient\u00edfico Nacional dedicado \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o, aos estudos p\u00f3s-graduados e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia nas \u00e1reas de Antropologia, Ci\u00eancia Pol\u00edtica, Economia, Geografia, Hist\u00f3ria, Psicologia Social e Sociologia (<a href=\"http:\/\/www.ics.ulisboa.pt\">www.ics.ulisboa.pt<\/a>). Durante um ano, todos os domingos, investigadoras e investigadores com diferentes forma\u00e7\u00f5es, idades e percursos acad\u00e9micos partilham o seu trabalho com os leitores do P2.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Internet tem amplificado e normalizado o \u00f3dio. Este \u00e9 um fen\u00f3meno que afecta toda a sociedade e a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 a express\u00e3o e discuss\u00e3o de opini\u00f5es s\u00e3o pretextos para ofender e diminuir, como o online contamina muitas vezes o offline , com graves consequ\u00eancias para a democracia. 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