{"id":19809,"date":"2020-11-26T11:50:58","date_gmt":"2020-11-26T11:50:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=19809"},"modified":"2020-11-26T11:51:00","modified_gmt":"2020-11-26T11:51:00","slug":"eu-eu-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=19809","title":{"rendered":"Eu! Eu! Eu!"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00abComo disse n\u00e3o sei quem, s\u00f3 h\u00e1 duas coisas certas na vida: a morte e as reportagens da RTP sobre os livros de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos (JRS). Todos os anos, quase sempre em Outubro, os jornalistas da televis\u00e3o p\u00fablica fazem o frete de promover os neg\u00f3cios particulares de JRS, o rosto de cimento do Telejornal da RTP, casa onde j\u00e1 foi por duas vezes director de Informa\u00e7\u00e3o. <em>(Jo\u00e3o Pedro George)<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>H\u00e1 muito tempo que a RTP serve de suporte e de conte\u00fado para JRS incrementar as vendas dos seus romances (cuja leitura n\u00e3o recomendo, pois al\u00e9m de maus s\u00e3o demasiado longos e a vida \u00e9 demasiado curta).<\/p>\n\n\n\n<p>Os exemplos n\u00e3o faltam. A\u00ed v\u00e3o alguns: a 26 de Setembro \u00faltimo, o Telejornal passou uma reportagem a prop\u00f3sito de O M\u00e1gico de Auschwitz, um tema (o Holocausto) que \u201cn\u00e3o tem sido abordado pelos escritores portugueses\u201d (JRS). Em seguida, a 8 de Outubro do mesmo ano, JRS foi um dos convidados de A Nossa Tarde, programa apresentado por T\u00e2nia Ribas de Oliveira, onde conversaram sobre o novo livro do jornalista que pisca o olho no fim do telejornal das 20h. Semanas depois, a 13 de Novembro, o Telejornal transmitiu uma pe\u00e7a sobre &#8220;O Manuscrito de Birkenau&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana passada, a 18 de Novembro, JRS foi o convidado da Grande Entrevista, com V\u00edtor Gon\u00e7alves, para falar durante meia hora daqueles dois livros. Por certo, era a terceira vez que JRS pisava o est\u00fadio da RTP3 para ser entrevistado por Gon\u00e7alves: em 27 de Novembro de 2013, para difundir O Milion\u00e1rio de Lisboa, e a 30 de Outubro de 2014, para falar de &#8220;A Chave de Salom\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Como v\u00eaem, JRS aproveita-se impudicamente dos recursos p\u00fablicos da RTP para estimular (rendibilizar) os seus interesses particulares, dilatando os proventos dos direitos de autor. Dito de forma mais crua, JRS vale-se do seu cargo numa empresa paga por todos n\u00f3s \u2013 estatal e dispendiosa \u2013, e do trabalho dos seus companheiros, muitos dos quais numa posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica inferior \u00e0 sua, para divulgar (de borla!) os livros que publica na editora Gradiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Querem mais exemplos? Ei-los, sem demasiada preocupa\u00e7\u00e3o de ordem: o Telejornal de 26 de Outubro de 2019 noticiou a publica\u00e7\u00e3o de Imortal, mais um romance escrito (para nosso deleite) pelo \u201cescritor favorito dos portugueses, no apogeu do seu imenso talento\u201d, e protagonizado pelo \u201cgrande her\u00f3i das modernas letras portuguesas\u201d (Tom\u00e1s Noronha).<\/p>\n\n\n\n<p>A 4 de Julho do mesmo ano, foi entrevistado pelo jornalista Carlos Daniel, tendo discorrido, durante 45 minutos, sobre os seus processos de produ\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de livros (e respectivas estrat\u00e9gias de embrutecimento met\u00f3dico dos leitores). No dia 5 de Outubro de 2020, o Jornal da Tarde anunciou o lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o francesa de Imortal, e a 27 de Outubro de 2018, o Telejornal informava-nos que tinha acabado de sair A Amante do Governador, e no dia seguinte, no Jornal da Manh\u00e3, o fen\u00f3meno repetiu-se (a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 a arte das ind\u00fastrias culturais). Pouco depois, a 4 de Dezembro, JRS esteve no programa matinal Pra\u00e7a da Alegria a vender o seu peixe (e a imagem alucinante de si pr\u00f3prio).<\/p>\n\n\n\n<p>A 17 de Setembro de 2017, no programa vespertino Agora N\u00f3s, JRS foi entrevistado por T\u00e2nia Ribas de Oliveira e Jos\u00e9 Pedro Vasconcelos, sob o fastidioso pretexto do lan\u00e7amento de&#8221;O Reino do Meio&#8221;, livro que o confirmava como \u201co mestre dos grandes temas contempor\u00e2neos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 8 de Outubro de 2016, ainda o romance &#8220;Vaticanum&#8221; mal tinha acabado de sair do forno \u2014 livro em que JRS mostrava \u201cuma vez mais por que raz\u00e3o \u00e9 considerado o mestre do mist\u00e9rio real\u201d \u2014, j\u00e1 o Telejornal se transformava num instrumento de tortura e entrava na casa de milh\u00f5es de portugueses para lhes impingir os produtos do g\u00e9nio da Avenida Marechal Gomes da Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>A 25 de Outubro de 2015, a mesma coisa, mas agora com &#8220;Flor de L\u00f3tus&#8221;, livro \u201cde um g\u00e9nero inexistente em Portugal, mas c\u00e1 estou eu, nem que seja para inovar\u201d (JRS). Em 2012, uma das emiss\u00f5es do programa Portugal Aqui T\u00e3o Perto foi dedicada, durante 55 minutos, ao livro &#8220;A M\u00e3o do Diabo&#8221; e ao percurso de vida de JRS. Em 2016, por causa de &#8220;Vaticanum&#8221;, foi o convidado principal do programa Cinco para a Meia-Noite, com Filomena Cautela.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 25 de Outubro de 2014, o Jornal da Tarde p\u00f4s no ar uma pe\u00e7a sobre &#8220;A Chave de Salom\u00e3o&#8221;, um livro modest\u00edssimo que nos desvenda (o sonho \u00e9 livre, sonhemos) as \u201cespantosas liga\u00e7\u00f5es entre a mente, a mat\u00e9ria e o enigma da exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A 3 de Mar\u00e7o de 2008, a presen\u00e7a dos livros de JRS fez-se notar, durante mais de meia hora, no programa Sexta \u00e0 Noite (RTP1), conduzido por Jos\u00e9 Carlos Malato. Meses depois, a 25 de Outubro, as antenas da RTP transmitiram a not\u00edcia do lan\u00e7amento de &#8220;A Vida num Sopro&#8221;, a obra de JRS que trouxe \u201co grande romance de volta \u00e0s letras portuguesas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2010, a jornalista Cec\u00edlia Carmo cavaqueou (aviso de alitera\u00e7\u00e3o) com JRS, na RTP2, sobre a obra &#8220;Conversas de Escritores&#8221;, compila\u00e7\u00e3o das entrevistas realizadas para a RTP N (\u201ca grande entrevista liter\u00e1ria est\u00e1 de volta\u201d, garante-nos a Gradiva).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 21 de Outubro de 2011, o Telejornal fazia eco de &#8220;O \u00daltimo Segredo&#8221;, o livro em que JRS voltava \u201ca afirmar-se como o grande mestre do mist\u00e9rio\u201d (e ele a dar-lhe, aqui tudo \u00e9 \u201cgrande\u201d ou vai ficar \u201cmaior\u201d). Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, poderia acumular mais exemplos, mas seria abusivo estender muito mais a lista\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que a RTP oferece aos outros escritores as mesmas oportunidades de divulga\u00e7\u00e3o? Quantos escritores conseguiram ir tr\u00eas vezes \u2013 quanto mais uma! \u2013 ao programa Grande Entrevista?<\/p>\n\n\n\n<p>Convenhamos: com o tuf\u00e3o de publicidade que rodeia JRS, \u00e9 f\u00e1cil compreender o \u00eaxito destes livros. Se \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o das not\u00edcias em hor\u00e1rio nobre juntarmos a exposi\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica que a RTP, permanente e sistematicamente, faz das suas obras, levando-as ao colo, percebe-se que os tijolos de JRS vendam aos milhares.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa \u00e9poca em que as coisas se dividem entre quem est\u00e1 muito cotado e quem est\u00e1 pouco ou nada cotado no mercado de valores medi\u00e1ticos, entre quem aparece muito e quem aparece pouco nos ecr\u00e3s de televis\u00e3o, escusado \u00e9 dizer que o af\u00e3 de JRS para se impor aos leitores e se autopromover (\u00e0 boleia da RTP) tem dado excelentes resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ter\u00e1 o provedor da RTP a dizer sobre esta utiliza\u00e7\u00e3o descarada dos servi\u00e7os da televis\u00e3o p\u00fablica por parte de um dos seus funcion\u00e1rios mais conhecidos (e um dos seus quadros mais bem pagos)? Estatuto esse que s\u00f3 acentua as responsabilidades que impendem sobre um jornalista que tanto se gaba de ter trabalhado na BBC\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>JRS devia ser um dos primeiros, na RTP, a dar o exemplo. Ou n\u00e3o consta do C\u00f3digo de \u00c9tica e Conduta da RTP \u2014 que JRS deveria conhecer a fundo \u2014 uma norma que considera \u201cinadmiss\u00edvel a manuten\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es irregulares ou de favor\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, JRS ignora uma lei essencial da f\u00edsica liter\u00e1ria: os livros n\u00e3o precisam, para serem bons, que o seu autor ande sempre em bicos de p\u00e9s, a procurar promo\u00e7\u00e3o, a dar ordens aos colegas de redac\u00e7\u00e3o ou a pedinchar-lhes favores (que comprometem quem os faz e envergonham quem os aceita). Resumindo, que a quantidade n\u00e3o produz, por pura acumula\u00e7\u00e3o, qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A triste figura a que desce uma pessoa s\u00f3 para dizer: Eu! Eu! Eu!\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p><em>Jo\u00e3o Pedro George, &#8220;S\u00e1bado&#8221;, 25 novembro 2020<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abComo disse n\u00e3o sei quem, s\u00f3 h\u00e1 duas coisas certas na vida: a morte e as reportagens da RTP sobre os livros de Jos\u00e9 Rodrigues dos Santos (JRS). 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