{"id":19211,"date":"2020-09-28T04:38:43","date_gmt":"2020-09-28T03:38:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=19211"},"modified":"2020-09-28T04:49:13","modified_gmt":"2020-09-28T03:49:13","slug":"os-dois-prec-de-1974-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=19211","title":{"rendered":"Os dois PREC de 1974\/75"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"200\" height=\"247\" src=\"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/28set.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19213\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 recorrente nos media portugueses a associa\u00e7\u00e3o do per\u00edodo entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro ao chamado PREC (Processo revolucion\u00e1rio em curso), com v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es negativas que me dispenso de repetir. Jornalistas e comentadores mal informados ou mal formados omitem, convenientemente, que entre aquelas duas datas houve dois PREC simult\u00e2neos: o Processo Revolucion\u00e1rio e o Processo Reaccion\u00e1rio, sendo conhecido o facto de o segundo ter come\u00e7ado antes do primeiro. Passam hoje, 28 de setembro, 46 anos sobre uma das tentativas de pronunciamento do general Sp\u00ednola e considero importante reproduzir o relato desses acontecimentos feito por Marques Pinto, vogal da direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o. Para que, como diz o movimento c\u00edvico, n\u00e3o apaguem a mem\u00f3ria! <em><strong>(Jo\u00e3o Alferes Gon\u00e7alves)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O \u201c28 de Setembro\u201d ou o Golpe reacion\u00e1rio da Maioria Silenciosa de Sp\u00edno<\/strong>la<\/h3>\n\n\n\n<p>Passam hoje 46 anos sobre a data que todos os que viveram o 25 de Abril de 1974 recordam como o primeiro sobressalto s\u00e9rio para a rec\u00e9m-nascida democracia com apenas 5 meses de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, para quem tinha maior conhecimento e alguma experiencia politica, sabia que a Revolu\u00e7\u00e3o nascida do golpe de estado militar, tinha criado logo no dia 26 de Abril, quer internamente quer no exterior algumas frentes de resist\u00eancia, de caracter\u00edsticas diversas consoante as \u00e1reas politicas e financeiras que se sentiram mais amea\u00e7adas pela queda do regime ditatorial fascista ou simplesmente por convic\u00e7\u00f5es pessoais de caracter e da forma\u00e7\u00e3o fascizante que um regime de 48 anos necessariamente havia criado, alimentado e imposto tanto na Metr\u00f3pole como nas Col\u00f3nias Portuguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos nem devemos minimizar o papel e atitude do General Sp\u00ednola, que desde as v\u00e9speras do golpe \u2013 antes da madrugada libertadora &#8211; havia preparado e encenado com a colabora\u00e7\u00e3o de elementos civis (1) a&nbsp;&nbsp;sua teatral apari\u00e7\u00e3o no Quartel do Carmo para \u201creceber\u201d o \u201cpoder\u201d de quem j\u00e1 estava preso mas aguardava a j\u00e1&nbsp;&nbsp;prometida \u201cvisita de rendi\u00e7\u00e3o\u201d do t\u00e3o considerado chefe militar que menos de 10 meses antes havia abandonado a Guin\u00e9 por considerar uma guerra perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade a \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o ainda bem disfar\u00e7ada\u201d instalou-se em Bel\u00e9m em 28 de Abril de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o cabe aqui enumerar as diversas tentativas e manobras pol\u00edticas e de muitos militares de altas patentes que das maneiras mais diversas e encapotadas iam tentando minar e destruir a jovem revolu\u00e7\u00e3o. Basta ler os jornais da \u00e9poca \u2013 manif preparada para o 10 de Junho, \u201coferta\u201d de aumentos salariais por algumas grandes empresas &#8211; e sobretudo os \u201cartigos de opini\u00e3o\u201d nos pequenos e in\u00fameros pasquins que floresceram nessa \u00e9poca apoiados por fundos das mais diversas origens.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que quando em Agosto surge um 2\u00ba Governo Provis\u00f3rio que pela primeira vez ao fim de 4 meses de revolu\u00e7\u00e3o merece o cr\u00e9dito do MFA e da popula\u00e7\u00e3o progressista, a contesta\u00e7\u00e3o dos contra-revolucion\u00e1rios surge com mais viol\u00eancia quer em termos de panfletos quer em termos de ac\u00e7\u00f5es violentas como os ataques a locais de encontro de progressistas e mesmo a sedes partid\u00e1rias e ataques individuais violentos e at\u00e9 agress\u00f5es com arma branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente o PR Sp\u00ednola n\u00e3o critica nem condena formalmente tais actos de puro banditismo e quando interrogado chegou a dizer que a popula\u00e7\u00e3o tem o direito a manifestar-se pois \u201cestamos agora em democracia\u201d como se a viol\u00eancia fosse um tipo de manifesta\u00e7\u00e3o a tolerar.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que este tipo de permissividade n\u00e3o \u00e9 mais que um incentivo aos contrarrevolucion\u00e1rios que depois de uma reuni\u00e3o em Lisboa com o pr\u00f3prio Presidente,&nbsp;&nbsp;fazem o seu primeiro grande ensaio em Mo\u00e7ambique&nbsp;&nbsp;&#8211; 8 de Setembro 74 &#8211; onde se tivessem sa\u00eddo vitoriosos permitiriam ao PR Spinola parar todas as conversa\u00e7\u00f5es com vista ao fim da guerra nas col\u00f3nias.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora com uma grande perda de vidas humanas, a tentativa de golpe de Mo\u00e7ambique em que Spinola acreditava, falhou e com isso em Angola a incipiente organiza\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria foi tamb\u00e9m rapidamente travada e o Alm. Rosa Coutinho convidou os 4&nbsp;&nbsp;principais organizadores para o seu gabinete onde lhes comunicou pessoalmente que conhecia todos os seus planos, bem como do \u201ccomplot\u201d arranjado entre Mobutu e Spinola no celebre encontro \u201csecreto\u201d em que Spinola dava carta branca para que as \u201ctropas da FNLA apoiadas pelo exercito Zairense\u201d pudessem invadir o norte de Angola e que as for\u00e7as militares Portuguesas sob o seu comando n\u00e3o permitiriam qualquer acto provocat\u00f3rio e violento \u00e1s popula\u00e7\u00f5es civis, vindo donde viesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo, na Guin\u00e9 que era considerado o territ\u00f3rio onde a guerrilha em Abril j\u00e1 dominava uma grande parte do terreno, o General Fabi\u00e3o nomeado em Maio de 74 e o seu gabinete constitu\u00eddo por militares progressistas e da sua confian\u00e7a j\u00e1 se tinha iniciado&nbsp;&nbsp;um \u201centendimento n\u00e3o oficializado\u201d respeitado pelos dois lados e as actividades b\u00e9licas haviam cessado por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal em que as organiza\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias de car\u00e1cter abertamente fascista ou filo-fascista tinham come\u00e7ado a proliferar, com o 2\u00ba Governo Provis\u00f3rio algumas delas s\u00e3o encerradas e outras convidadas a n\u00e3o se constitu\u00edrem oficialmente, mas os apoios nacionais e estrangeiros de toda a ordem e origens \u2013 at\u00e9 mesmo de organiza\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os de Governos estrangeiros &#8211;&nbsp;&nbsp;choviam e tal facto era um incentivo para muitos grupos continuarem, pois s\u00f3 assim&nbsp;&nbsp;justificavam as elevadas verbas recebidas em Dolares, Francos, Pesetas, Marcos, etc . e&#8230;que nem \u201crecibos\u201d se exigiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim e com o alto patroc\u00ednio de Sp\u00ednola e dos diversos grupos econ\u00f3micos, empresas e bancos nacionais e organiza\u00e7\u00f5es estrangeiras com quem mantinha liga\u00e7\u00f5es directas ou atrav\u00e9s de membros civis e militares da sua \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d, muitos deles seus servidores fieis desde a Guin\u00e9, chegou-se \u00e1 t\u00e3o esperada e anunciada Manifesta\u00e7\u00e3o da Maioria Silenciosa cujo patroc\u00ednio era mesmo anunciado publicamente como sendo o grande apoio que Spinola esperava para iniciar o desmantelamento do MFA e ainda ir a tempo de uma nova reuni\u00e3o com Mobutu para acertarem \u201cmelhor\u201d o problema de Angola, pois Mo\u00e7ambique seria mais f\u00e1cil com o celebre Acordo \u201cAlcora\u201d ainda em \u201cbanho Maria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem se a teatral assobiadela e gritaria encenada na Pra\u00e7a de touros do Campo Pequeno havia criado uma espectativa na burguesia e alta sociedade l\u00e1 presente, a desilus\u00e3o da \u201cderrota sofrida\u201d na noite e manh\u00e3 de 28 de Setembro foi a maior vergonha para Sp\u00ednola.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ver a maci\u00e7a presen\u00e7a popular nas ruas e estradas colaborando e ajudando as for\u00e7as militares na dete\u00e7\u00e3o e captura de armas que muitos carros civis estavam a tentar trazer para a tal manifesta\u00e7\u00e3o a realizar frente a Bel\u00e9m na Pra\u00e7a do Imp\u00e9rio e cujo vergonhoso falhan\u00e7o foi o que levou \u00e1 sua ren\u00fancia \u00e1 presid\u00eancia entregando o cargo ao General Costa Gomes<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo j\u00e1 no seu grupo se preparava a forma\u00e7\u00e3o, obten\u00e7\u00e3o de fundos e organiza\u00e7\u00e3o de outro tipo de actividade contrarrevolucion\u00e1ria que levaria ao golpe frustrado de 11 de Mar\u00e7o e tantos assass\u00ednios e actos de destrui\u00e7\u00e3o bombista que mesmo depois do golpe de 25 de Novembro de 75 se prolongaram durante dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>(<strong>nota<\/strong>\u00a01)<em>\u00a0\u2013 Soube-se mais tarde que dois elementos civis estiveram toda a manh\u00e3 e na tarde de 25 de Abril, no Gr\u00e9mio Liter\u00e1rio onde por via telef\u00f3nica iam mantendo Marcelo Caetano \u201cirredut\u00edvel\u201d na sua entrega e rendi\u00e7\u00e3o a Salgueiro Maia, esperando pela j\u00e1 prometida chegada em trajo de gala do General Sp\u00ednola&#8230;e assim garantindo que o ex-trabalhador \u201caven\u00e7ado\u201d por largos anos do Sr Champalimaud ficasse com os louros de surgir como 1\u00ba figura da Revolu\u00e7\u00e3o dos Capit\u00e3es, com um pequeno passeio de sua casa ao Quartel do Carmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Marques Pinto, vogal da direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 recorrente nos media portugueses a associa\u00e7\u00e3o do per\u00edodo entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro ao chamado PREC (Processo revolucion\u00e1rio em curso), com v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es negativas que me dispenso de repetir. 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