{"id":15693,"date":"2018-12-10T18:49:11","date_gmt":"2018-12-10T18:49:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15693"},"modified":"2018-12-10T18:49:11","modified_gmt":"2018-12-10T18:49:11","slug":"algumas-notas-mais-serias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15693","title":{"rendered":"Algumas notas mais s\u00e9rias"},"content":{"rendered":"<p>Dada a situa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds est\u00e1 a viver &#8211; n\u00e3o \u00e9 &#8220;mais uma&#8221; onda de greves pr\u00e9-eleitoral, nem nos m\u00e9todos nem na direc\u00e7\u00e3o tradicional &#8211; imp\u00f5em-se algumas notas mais s\u00e9rias.<\/p>\n<p>Sobre os enfermeiros. A greve \u00e9 muito grave. \u00c9 mesmo. E t\u00e3o grave quanto a situa\u00e7\u00e3o laboral dos enfermeiros que amea\u00e7a a sua vida. Est\u00e3o no limite das suas for\u00e7as f\u00edsicas e emocionais, por isso a greve tem o apoio que tem. Ao Governo cabe, em nome deles e nosso, e do nosso SNS, negociar condi\u00e7\u00f5es decentes e p\u00f4r termo \u00e0 greve. N\u00e3o pode levar as cirurgias para o privado porque isso seria &#8211; aten\u00e7\u00e3o, muita aten\u00e7\u00e3o &#8211; furar a greve com substitui\u00e7\u00e3o de trabalhadores. \u00c9 ilegal, e imoral. A greve n\u00e3o afecta urg\u00eancias, porque o que \u00e9 urgente, mesmo opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o urgentes, est\u00e3o a ser realizadas. Mas \u00e9 evidente que o Governo tem que actuar r\u00e1pido &#8211; sem furar greves, sem requisi\u00e7\u00e3o civil, dando pelo menos o m\u00ednimo de vida decente a estes profissionais. O aumento das transfer\u00eancias do Or\u00e7amento para o SNS em 2019 \u00e9 apenas de 262 milh\u00f5es \u20ac e n\u00e3o de 612 milh\u00f5es \u20ac como diz o Governo. M\u00e1rio Centeno ministro tem que comunicar a M\u00e1rio Centeno na Europa que a vida das pessoas n\u00e3o pode ser cativada.<\/p>\n<p>Muitos alegam que a extrema direita ganhar\u00e1 votos por causa de greves e protestos. \u00c9 errado. A extrema-direita na Europa n\u00e3o tem ganho votos \u00e0 esquerda, mas pela falta de esquerda. Os votos saem da esquerda para a absten\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br \/>\nNa verdade n\u00e3o sei se repararam que quando os coletes amarelos sa\u00edram \u00e0 rua a falar de pre\u00e7o de bens de primeira necessidade a principal actividade marcada da esquerda era uma marcha sobre o clima&#8230; J\u00e1 l\u00e1 irei, ao pap\u00e3o do fim do mundo e \u00e0s pol\u00edticas &#8211; realmente ecol\u00f3gicas &#8211; que s\u00e3o urgentes. O que importa agora salientar \u00e9 o seguinte &#8211; na Andaluzia os votos da extrema direita s\u00e3o transfer\u00eancias do PP. Os que eram do PSOE e ele perdeu foram para a absten\u00e7\u00e3o. A taxa de absten\u00e7\u00e3o cresceu 19% em 20 anos. 1% ao ano. Ou seja, parte da direita liberal, vendo os seus interesses amea\u00e7ados, est\u00e1 a migrar para o apoio \u00e0 extrema-direita. E na esquerda n\u00e3o h\u00e1 nenhum programa que reflicta os interesses do mundo do trabalho &#8211; desde logo, mas n\u00e3o s\u00f3, porque h\u00e1 poucos trabalhadores nos partidos de esquerda e muitos funcion\u00e1rios. E falta de estrutura te\u00f3rica.<\/p>\n<p>Veja-se o exemplo do clima. A revolta em Fran\u00e7a come\u00e7a porque Macr\u00f3n decide, depois de acabar com o imposto sobre as grandes fortunas, aumentar o pre\u00e7o dos combust\u00edveis e chamou a isso &#8220;salvar o planeta&#8221;, economia &#8220;verde&#8221;. Ou seja, substituir impostos justos sobre a riqueza por impostos sobre o consumo, que afectam o custo de vida. Nas cidades pequenas \u00e9 imposs\u00edvel viver sem carro, at\u00e9 para comprar comida. \u00c9 evidente que uma pol\u00edtica ecol\u00f3gica constr\u00f3i transportes p\u00fablicos, n\u00e3o patrocina mais carros, el\u00e9ctricos ou n\u00e3o. Como \u00e9 evidente que uma politica ecol\u00f3gica n\u00e3o taxa a entrada de carros nas grandes cidades, pro\u00edbe-os. Se taxar est\u00e1 a dizer que s\u00f3 os ricos entram. Se fizer transportes p\u00fablicos e proibir a circula\u00e7\u00e3o est\u00e1 a dizer todos entram. E, como dizem e bem os coletes amarelos, at\u00e9 que nos d\u00eaem solu\u00e7\u00f5es alternativas reais queremos o carro, a gasolina e entrar nas cidades. T\u00eam toda a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos exemplos em que &#8211; a reboque do Partido Democrata norte-americano &#8211; a esquerda no mundo vai abra\u00e7ando causas que na apar\u00eancia s\u00e3o muito bonitas mas na ess\u00eancia destroem a vida de quem trabalha. Podia dizer o mesmo face \u00e0s quest\u00f5es de g\u00e9nero, drogas e muitos outros temas. Fica para outro dia. A mais escancaradamente errada por\u00e9m \u00e9 a luta pelo subs\u00eddio de desemprego e assistencialismo em vez de luta pelo emprego.&nbsp;<br \/>\nFoi bonito ver estas pessoas nas ruas de Fran\u00e7a exigir trabalho e n\u00e3o rendimento m\u00ednimo, um engenheiro da minha idade dizia &#8220;estou aqui porque o meu pai e a minha m\u00e3e trabalharam a vida toda e quando o meu pai morreu ela ligou-me em prantos porque n\u00e3o tinha dinheiro para o funeral, como \u00e9 poss\u00edvel trabalharmos e sermos pobres?&#8221; Sim, os coletes amarelos colocaram a quest\u00e3o do trabalho com direitos &#8211; e n\u00e3o do viver da assist\u00eancia social &#8211; como modo de vida.<\/p>\n<p>Tenho visto estes dias a ver a tese dos &#8220;brandos costumes&#8221; cair &#8211; numa semana. Na mesma semana, coincid\u00eancia, em que cai a tese dos Europeus &#8220;aristocr\u00e1ticos e colonialistas&#8221;, de onde teria desaparecido a classe trabalhadora. Junto a isto, a centralidade das ideias de esquerda dos coletes amarelos, ultrapassando a bolha identit\u00e1ria e ambientalista, como um furac\u00e3o de bom senso &#8211; &#8220;eles est\u00e3o preocupados com o fim do mundo, n\u00f3s com o fim do m\u00eas&#8221; &#8211; \u00e9 palavra chave dos protestos em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>T\u00eam que compreender o meu entusiasmo e perceber que \u00e9 como um m\u00e9dico verificar que tinha raz\u00e3o numa dada experi\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 que ele goste do doente e da doen\u00e7a, mas gosta de ver aquilo que era uma abstrac\u00e7\u00e3o, um conjunto de ideias, que &#8211; \u00e9 preciso diz\u00ea-lo, eram defendidas por uma escassa minoria de pessoas, onde tamb\u00e9m me encontro -, ganharem vida aos olhos de milhares. Escrevemos sobre queda da taxa de lucro, revolu\u00e7\u00f5es, oper\u00e1rios e fordismo quando a ampla maioria andava submerso na ecologia, feminismo e p\u00f3s-fordismo. Basicamente n\u00f3s detectamos &#8211; \u00e9 preciso celebr\u00e1-lo sem falsas mod\u00e9stias &#8211; a pneumonia. Quando a ampla maioria andava a medir a febre, convencido que a febre era a doen\u00e7a e n\u00e3o apenas um sintoma. N\u00e3o curamos o mal social com paracetamol porque enfrentamos uma doen\u00e7a generalizada, hiper resistente, que amea\u00e7a a vida civilizada.<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 um dos pa\u00edses da Europa com mais alta conflitualidade social. E vai ser, mais. A exist\u00eancia de uma ditadura por 48 anos, que muitos pensam que \u00e9 o exemplo dos brandos costumes, \u00e9 justamente a demonstra\u00e7\u00e3o da intensa conflitualidade do pa\u00eds. Quer isto dizer &#8211; vou simplificar &#8211; o seguinte. Portugal viveu o seu XIX no meio de guerras civis e confrontos amplos, a burguesia apoiou-se no movimento oper\u00e1rio para fazer o seu \u00faltimo acto da sua revolu\u00e7\u00e3o francesa, a revolu\u00e7\u00e3o republicana. Para o fazer, contra a nobreza, apoiou-se no movimento oper\u00e1rio mas n\u00e3o quis dar-lhe nada em troca. N\u00e3o quis e n\u00e3o havia muito, porque as suas taxas est\u00e3o em concorr\u00eancia com a Inglaterra &#8211; chama-se imperialismo. O papel subalterno do pa\u00eds. Por isso a Republica \u00e9 marcada pelo ataque aos sindicalistas.<\/p>\n<p>Mas como pa\u00eds pobre na Europa a burguesia sabe que a taxa de lucro n\u00e3o \u00e9 alta pelo que n\u00e3o h\u00e1 grande espa\u00e7o para migalhas &#8211; n\u00e3o foi poss\u00edvel conciliar lucros e sal\u00e1rios e a \u00fanica forma de o fazer foi impor uma ditadura que, por proibir sindicatos e partidos, consegui regular o sal\u00e1rio para baixo. Mas isso foi poss\u00edvel num pais rural por 48 anos, em que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabia o que era a ditadura, s\u00f3 a pobreza &#8211; viviam apartados do Estado, para o bem e para o mal. A ditadura era de vi\u00e9s urbano e sobre uma pequena vanguarda oper\u00e1ria. Num pa\u00eds urbano \u00e9 imposs\u00edvel um regime ditatorial sobreviver por largos per\u00edodos &#8211; revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Portugal s\u00f3 pode ter paz social com direitos sociais, sem eles a conflitualidade vai crescer exponencialmente. Quem tiver paci\u00eancia e quiser poder\u00e1 ler esta tese que desenvolvi no livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? e no ensaio Para onde vai Portugal?, ambos publicados pela Bertrand.<\/p>\n<p>O meu optimismo hist\u00f3rico vem justamente n\u00e3o desta constata\u00e7\u00e3o de que vamos ter conflitos s\u00e9rios e crescentes &#8211; j\u00e1 que gosto de paz e descanso, gosto de me deitar \u00e0s 10 da noite e fazer piqueniques na montanha -, mas do facto de considerar que eles, os conflitos, s\u00e3o inevit\u00e1veis, mas&#8230;Mas que dada a import\u00e2ncia crescente que hoje a classe trabalhadora tem no pa\u00eds (e na Europa ainda mais), e que mesmo sem o saber representa &#8211; esta classe &#8211; mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o, e sendo muito mais qualificada enfrentar\u00e1 com mais for\u00e7a e mais civilidade a barb\u00e1rie de atitudes que vir\u00e3o da direita quando virem o seu quinh\u00e3o de lucros &#8211; constru\u00eddos em s\u00e9culos de trabalho barato -amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 liberais com amor genu\u00edno \u00e0 democracia, na Europa h\u00e1 mesmo. N\u00e3o vacilam. E h\u00e1 gente de esquerda que perde o p\u00e9 facilmente e come\u00e7a a exigir &#8220;medidas de excep\u00e7\u00e3o&#8221; quando entra em luta &#8211; o Metoo j\u00e1 \u00e9 um cheirinho disso. A liberdade tem que ser defendida sem &#8220;mas&#8221; e vir\u00e3o de muitos lados distintos os que est\u00e3o dispostos a sacrific\u00e1-la.<\/p>\n<p>Mas a ess\u00eancia da barb\u00e1rie, n\u00e3o tenham d\u00favidas, vir\u00e1 de um lado &#8211; das classes grande-propriet\u00e1rias.&nbsp;<br \/>\nN\u00e3o imaginam como no passado educados liberais de direita se transformaram em monstros fascistas, bonapartistas, quando viram a sua conta banc\u00e1ria em perigo. E financiaram pela porta do cavalo mil\u00edcias para perseguir dirigentes sindicais e democratas. Por isso \u00e9 urgente que o mundo do trabalho deixe de pensar que a pol\u00edtica \u00e9 uma tarefa de uns tipos no Parlamento e passe a ter uma ac\u00e7\u00e3o social c\u00edvica empenhada.&nbsp;<br \/>\nPorque s\u00f3 isso &#8211; e n\u00e3o votar no mal menor &#8211; nos livrar\u00e1 da ira de quem est\u00e1 amea\u00e7ado de perder o poder. Poder que, com excep\u00e7\u00e3o dos anos de Abril 74-74 e alguns posteriores, foi sempre baseado no medo &#8211; medo da PIDE, medo da pobreza, medo do desemprego, medo da imigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que os portugueses (e ainda mais os franceses) perderam nestes dias. Perderam algum medo. Felizmente.<\/p>\n<p><em>Raquel Varela &#8211; Facebook<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dada a situa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds est\u00e1 a viver &#8211; n\u00e3o \u00e9 &#8220;mais uma&#8221; onda de greves pr\u00e9-eleitoral, nem nos m\u00e9todos nem na direc\u00e7\u00e3o tradicional &#8211; imp\u00f5em-se algumas notas mais s\u00e9rias. Sobre os enfermeiros. A greve \u00e9 muito grave. \u00c9 mesmo. E t\u00e3o grave quanto a situa\u00e7\u00e3o laboral dos enfermeiros que amea\u00e7a a sua vida. 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