{"id":15501,"date":"2018-10-17T04:42:09","date_gmt":"2018-10-17T03:42:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15501"},"modified":"2018-10-17T04:42:09","modified_gmt":"2018-10-17T03:42:09","slug":"e-urgente-repensar-o-telejornal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15501","title":{"rendered":"\u00c9 urgente repensar o telejornal"},"content":{"rendered":"<p>Os telejornais da RTP1 s\u00e3o exageradamente longos, duas a tr\u00eas vezes mais do que os das cong\u00e9neres europeias. N\u00e3o porque os assuntos sejam abordados de maneira mais aprofundada. Antes pelo contr\u00e1rio: \u00e9 a superficialidade que os carateriza. Tanto pela hierarquiza\u00e7\u00e3o adotada como pela diversidade tem\u00e1tica limitada, como ainda pelo tratamento jornal\u00edstico elementar praticado.<br \/>\nA hierarquiza\u00e7\u00e3o dos factos \u00e9 geralmente chocante. \u00c9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia exata nenhuma nesta mat\u00e9ria e que posicionamentos editoriais diferentes explicam op\u00e7\u00f5es diferentes. Mas na RTP1 as grandes constantes s\u00e3o: a atualidade sensacional (crime, acidente, calamidade natural, decis\u00e3o com repercuss\u00f5es negativas na vida dos cidad\u00e3os&#8230;), a politiquice partid\u00e1ria (seguimento reverente das desloca\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es \u2014 quantas vezes desprovidas de interesse \u2014 de l\u00edderes pol\u00edticos) e a atualidade futebol\u00edstica (com um desfile di\u00e1rio obrigat\u00f3rio de treinadores, jogadores ou presidentes, quando n\u00e3o de adeptos). Tr\u00eas mat\u00e9rias intercambi\u00e1veis no sum\u00e1rio como no alinhamento do telejornal. <em>(J.M. Nobre-Correia)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3 class=\"headline story__headline\">\u00c9 urgente repensar o telejornal<\/h3>\n<p>Enquanto dura a truanice em torno da dire\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, seria bom que nos interrog\u00e1ssemos sobre o jornalismo que a RTP pratica nos seus telejornais. E sobre a qualidade da informa\u00e7\u00e3o a que dever\u00edamos ter direito, de modo a justificar a exist\u00eancia de uma televis\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<div class=\"supplemental-slot supplemental-slot--margin supplemental-slot--margin-thinner show-for-large\">\n<p>&nbsp;Os telejornais da RTP1 s\u00e3o exageradamente longos, duas a tr\u00eas vezes mais do que os das cong\u00e9neres europeias. N\u00e3o porque os assuntos sejam abordados de maneira mais aprofundada. Antes pelo contr\u00e1rio: \u00e9 a superficialidade que os carateriza. Tanto pela hierarquiza\u00e7\u00e3o adotada como pela diversidade tem\u00e1tica limitada, como ainda pelo tratamento jornal\u00edstico elementar praticado.<\/p>\n<p>A hierarquiza\u00e7\u00e3o dos factos \u00e9 geralmente chocante. \u00c9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia exata nenhuma nesta mat\u00e9ria e que posicionamentos editoriais diferentes explicam op\u00e7\u00f5es diferentes. Mas na RTP1 as grandes constantes s\u00e3o: a atualidade sensacional (crime, acidente, calamidade natural, decis\u00e3o com repercuss\u00f5es negativas na vida dos cidad\u00e3os&#8230;), a politiquice partid\u00e1ria (seguimento reverente das desloca\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es \u2014 quantas vezes desprovidas de interesse \u2014 de l\u00edderes pol\u00edticos) e a atualidade futebol\u00edstica (com um desfile di\u00e1rio obrigat\u00f3rio de treinadores, jogadores ou presidentes, quando n\u00e3o de adeptos). Tr\u00eas mat\u00e9rias intercambi\u00e1veis no sum\u00e1rio como no alinhamento do telejornal.<\/p>\n<p>Outra grande carater\u00edstica dos telejornais s\u00e3o \u201cdiretos\u201d raramente justific\u00e1veis, simples liga\u00e7\u00f5es com \u201crep\u00f3rteres\u201d que a maior parte das vezes nada viram, nada filmaram e, evidentemente, nada montaram. A \u201creportagem\u201d \u00e9 constitu\u00edda pela imagem deles, mais, boa parte das vezes, a entrevista do presidente da junta ou c\u00e2mara municipal, do chefe dos bombeiros, da PSP ou da GNR, dos advogados do \u201ccaso\u201d, e por vezes uns \u201cpopulares\u201d de prefer\u00eancia chor\u00f5es ou berr\u00f5es!<\/p>\n<p>Aproveitando esta estranha conce\u00e7\u00e3o dos \u201cdiretos\u201d (que s\u00e3o em muitos aspetos a ant\u00edtese mesmo do jornalismo), o telejornal \u00e9 invadido por uma s\u00e9rie de espertalh\u00f5es. Porque, como por acaso, t\u00eam declara\u00e7\u00f5es importantes a fazer precisamente durante o telejornal&#8230; evitando assim a natural sele\u00e7\u00e3o de passagens das ditas declara\u00e7\u00f5es por parte da reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reportagem quase n\u00e3o existe. Como quase n\u00e3o existe a mais elementar pedagogia para explicar, por exemplo, assuntos de car\u00e1ter econ\u00f3mico e financeiro. Para al\u00e9m da imagem do jornalista, mais as eternas imagens da entrada do Minist\u00e9rio da Finan\u00e7as e o n\u00e3o menos eterno plant\u00e3o \u00e0 porta do minist\u00e9rio, os grafismos e quadros adequados ao assunto s\u00e3o raros.<\/p>\n<p>Os&nbsp;<em>faits divers<\/em>&nbsp;constituem grande parte da atualidade estrangeira e tratam sobretudo dos EUA. Ali\u00e1s, as raras pe\u00e7as consagradas ao estrangeiro e ao internacional t\u00eam geralmente por origem ag\u00eancias de imagens estado-unidenses. E estas preocupam-se antes do mais com a clientela do mundo angl\u00f3fono e, desde logo, prop\u00f5em uma vis\u00e3o largamente anglo-americana da atualidade. Enquanto&nbsp;os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, de que fazemos parte, s\u00e3o manifestamente descurados. Como \u00e9 em geral negligenciado um elementar enquadramento de toda esta atualidade.<\/p>\n<p>As atualidades \u201csocietal\u201d e cultural s\u00e3o largamente ignoradas. Mas a futebol\u00edstica \u00e9 dada diariamente uma import\u00e2ncia descomedida. Com intermin\u00e1veis declara\u00e7\u00f5es nos dias antes, no pr\u00f3prio dia do encontro e nos dias que se seguem. Com enviados especiais para os mais long\u00ednquos pa\u00edses e encontros de somenos import\u00e2ncia. Com um acompanhamento do que se passa em pa\u00edses onde se encontram jogadores ou treinadores portugueses! Quando em televis\u00f5es p\u00fablicas europeias, durante dias a fio, a atualidade futebol\u00edstica nem sequer \u00e9 abordada&#8230;<\/p>\n<p>Espectadores benevolentes dir\u00e3o que o telejornal da RTP2 \u201c\u00e9 melhor\u201d, mais curto, melhor hierarquizado. Mas como justificar que numa televis\u00e3o \u201cculta e adulta\u201d se vejam sequ\u00eancias com a mesma montagem de imagens e o mesmo coment\u00e1rio \u201c<em>off<\/em>\u201d da RTP1? Que significa ent\u00e3o um posicionamento sociocultural diferente dos canais?<\/p>\n<p>Contrariamente ao que por a\u00ed se afirma muitas vezes, 40 anos depois da desmonopoliza\u00e7\u00e3o do sector na Europa, a exist\u00eancia de uma televis\u00e3o p\u00fablica continua a ter raz\u00e3o de ser. Partindo do princ\u00edpio que ela nos proponha uma programa\u00e7\u00e3o e uma informa\u00e7\u00e3o claramente distintas daquelas das televis\u00f5es privadas. N\u00e3o \u00e9 o caso da RTP. Conviria pois que parlamentares e Governo decidissem refletir sobre o assunto e impor-lhe um caderno de encargos indubitavelmente de servi\u00e7o p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p><em>Jos\u00e9-Manuel Nobre-Correia<\/em><br \/>\n<em> Professor em\u00e9rito de Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o da Universit\u00e9 Libre de Bruxelles,<\/em><br \/>\n<em> autor do livro Teoria da Informa\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica (Almedina)<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;P\u00f9blico&#8221; 16 outubro 2018<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os telejornais da RTP1 s\u00e3o exageradamente longos, duas a tr\u00eas vezes mais do que os das cong\u00e9neres europeias. N\u00e3o porque os assuntos sejam abordados de maneira mais aprofundada. Antes pelo contr\u00e1rio: \u00e9 a superficialidade que os carateriza. Tanto pela hierarquiza\u00e7\u00e3o adotada como pela diversidade tem\u00e1tica limitada, como ainda pelo tratamento jornal\u00edstico elementar praticado. 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