{"id":15432,"date":"2018-09-29T01:39:37","date_gmt":"2018-09-29T00:39:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15432"},"modified":"2018-09-29T01:39:37","modified_gmt":"2018-09-29T00:39:37","slug":"o-populismo-jornalistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=15432","title":{"rendered":"O populismo jornal\u00edstico"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;O editorialismo difuso e prim\u00e1rio deste \u201c<em>building journalism<\/em>\u201d, que \u00e9 um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornal\u00edstica. E \u00e9 f\u00e1cil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo ret\u00f3rico e teatral das redes. N\u00e3o se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornal\u00edstica (compreendo, com esta designa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m as sec\u00e7\u00f5es de opini\u00e3o) deveria ser outra coisa diferente. N\u00e3o deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatraliza\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica que emergem constantemente no espa\u00e7o p\u00fablico. Essa escrita est\u00e1 destinada a falar apenas para o p\u00fablico que ela cria. \u00c9 suicid\u00e1ria. <em>(Ant\u00f3nio Guerreiro)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3>O populismo jornal\u00edstico<\/h3>\n<p>S\u00e3o demasiado optimistas as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de regozijo por Portugal permanecer at\u00e9 agora imperme\u00e1vel ao populismo. H\u00e1 um ambiente populista na nossa sociedade, alimentado e amplificado pelos actuais dispositivos desenvolvidos pelos media televisivos, radiof\u00f3nicos e, cada vez mais, tamb\u00e9m pela imprensa escrita (um populismo onde os pol\u00edticos se sentem investidos na condi\u00e7\u00e3o de jornalistas e os jornalistas assumem a condi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos).<\/p>\n<p>H\u00e1 um clima delet\u00e9rio que os media ati\u00e7am sempre que h\u00e1 uma ocasi\u00e3o favor\u00e1vel, recorrendo \u00e0 teatraliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 dramatiza\u00e7\u00e3o que solicitam os afectos e criam clivagens irracionais, pessoaliza\u00e7\u00f5es passionais, dilata\u00e7\u00f5es demag\u00f3gicas. O \u00faltimo pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substitui\u00e7\u00e3o da Procuradora Geral de Rep\u00fablica, Joana Marques Vidal. Como pudemos verificar, o resultado do processo, como \u00e9 pr\u00f3prio do populismo, acaba por ser a despolitiza\u00e7\u00e3o \u2014 a despolitiza\u00e7\u00e3o generalizada da mat\u00e9ria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quem tomar aten\u00e7\u00e3o aos pequenos e grande sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornal\u00edstica, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como \u201cde refer\u00eancia\u201d (algo hoje t\u00e3o inexistente como o unic\u00f3rnio), se inclina cada vez mais \u2014 num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mim\u00e9tico \u2014 perante este ambiente, induzindo uma audi\u00eancia e afastando progressivamente o p\u00fablico mais exigente.<\/p>\n<p>Experimentemos olhar para tr\u00eas t\u00edtulos de artigos recentes: \u201cOh Joana, pensar que estivemos t\u00e3o perto\u201d (Pedro Candeias,&nbsp;<em>Expresso<\/em>), \u201cAprende, Joana: em Portugal quem manda \u00e9 o PS\u201d (Jo\u00e3o Miguel Tavares, P\u00daBLICO), \u201cJoana e Luc\u00edlia\u201d (editorial do P\u00daBLICO, por Ana S\u00e1 Lopes,).<\/p>\n<p>Quem \u00e9 esta Joana, nomeada com a mesma familiaridade (pelo menos nos dois primeiros artigos, o de Ana S\u00e1 Lopes \u00e9, quanto a este aspecto, de mais baixa intensidade) com que se nomeia a colega de turma? \u00c9 a PGR. De repente, passa-se da fun\u00e7\u00e3o-PGR para a pessoa que a exerce, na sua identidade civil. Ou seja, passa-se da entidade p\u00fablica para a pessoa privada. O jornalista exp\u00f5e a pessoa enquanto tal, na sua nudez, como se tivesse a prerrogativa da objectiva\u00e7\u00e3o e do tu c\u00e1, tu l\u00e1, criando uma proximidade artificial e arrogante que, na sua l\u00f3gica extrema, vai dar ao \u201coh palha\u00e7o!\u201d da invectiva popular.<\/p>\n<p>Se verificarmos com aten\u00e7\u00e3o, este tipo de t\u00edtulos est\u00e1 hoje disseminado na nossa imprensa, mesmo quando depois nem correspondem ao tom mais s\u00f3brio dos artigos. Mas n\u00e3o s\u00e3o apenas os t\u00edtulos \u201c<em>sexy<\/em>\u201d que caracterizam este regime populista da escrita jornal\u00edstica. Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornal\u00edstica recorre ao artif\u00edcio da teatralidade, da tirada l\u00fadica ou humor\u00edstica: o jornalista ocupa o lugar da \u201c<em>vox doxa<\/em>\u201d, faz falar uma improv\u00e1vel \u201csociedade civil\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 servido por uma linguagem simples, por um vocabul\u00e1rio e uma sintaxe que s\u00e3o a forma necess\u00e1ria e consubstancial dos conte\u00fados simples, das ideias elementares.<\/p>\n<p>O editorialismo difuso e prim\u00e1rio deste \u201c<em>building journalism<\/em>\u201d, que \u00e9 um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornal\u00edstica. E \u00e9 f\u00e1cil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo ret\u00f3rico e teatral das redes.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornal\u00edstica (compreendo, com esta designa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m as sec\u00e7\u00f5es de opini\u00e3o) deveria ser outra coisa diferente. N\u00e3o deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatraliza\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica que emergem constantemente no espa\u00e7o p\u00fablico. Essa escrita est\u00e1 destinada a falar apenas para o p\u00fablico que ela cria. \u00c9 suicid\u00e1ria.<\/p>\n<p><em>Ant\u00f3nio Guerreiro &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 28 setembro 2018<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;O editorialismo difuso e prim\u00e1rio deste \u201cbuilding journalism\u201d, que \u00e9 um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornal\u00edstica. E \u00e9 f\u00e1cil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo ret\u00f3rico e teatral das redes. 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