{"id":14878,"date":"2018-04-25T19:02:32","date_gmt":"2018-04-25T18:02:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=14878"},"modified":"2018-04-25T19:02:32","modified_gmt":"2018-04-25T18:02:32","slug":"a25a-referencial-e-almocos-com-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=14878","title":{"rendered":"A25A, Referencial e Almo\u00e7os com Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>A <strong>\u2018Associa\u00e7\u00e3o 25 de Abril\u2019<\/strong>, presidida desde o in\u00edcio pelo coronel Vasco Louren\u00e7o, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o peculiar com uma actividade e um historial \u00fanicos a que os media, lamentavelmente, n\u00e3o prestam a aten\u00e7\u00e3o devida. N\u00e3o sabendo o que perdem \u2013 em conhecimento da nossa Hist\u00f3ria recente e em hist\u00f3rias de vida de militares a quem todos n\u00f3s, individualmente e o Pa\u00eds no seu todo, muito devemos.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 aqui o local para se fazer a hist\u00f3ria da <strong>A25A<\/strong>. Mas hoje, dia em que se comemora o 44\u00ba anivers\u00e1rio da data libertadora, \u00e9 seguramente o tempo de para a A25A se chamar p\u00fablica aten\u00e7\u00e3o recorrendo apenas a duas das suas m\u00faltiplas actividades: a revista trimestral <strong>\u201cO Referencial\u201d<\/strong> e os <strong>\u201cAlmo\u00e7os com Hist\u00f3ria\u201d.<\/strong> <em><strong>(RC)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>No que \u00e0 revista respeita, h\u00e1 um pormenor que \u00e9 obrigat\u00f3rio referir e destacar: com 26 anos de vida e 128 n\u00fameros publicados, <strong>\u2018O Referencial\u2019<\/strong> teve at\u00e9 hoje apenas dois directores: o general Pezarat Correia, que se manteve no cargo, do qual saiu a seu pedido, durante 24 anos; e o almirante Martins Guerreiro desde Abril de 2016. De sublinhar igualmente que a revista tem melhorado continuamente de qualidade, quer no conte\u00fado, quer no grafismo. Factor a que n\u00e3o \u00e9 alheio, seguramente, o editor Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Santos, experiente e competente jornalista, j\u00e1 retirado das lides, mas sempre pronto para ajudar causas justas.<\/p>\n<p>No que toca aos <strong>Almo\u00e7os com Hist\u00f3ria<\/strong>: rubrica relativamente recente, consiste num almo\u00e7o na sede da A25A onde, no final, h\u00e1 sempre um militar de Abril que conta a sua vida e depois responde \u00e0s perguntas que a assist\u00eancia, composta por camaradas de armas e civis que por norma enchem o restaurante da Associa\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o raro a discuss\u00e3o \u00e9 quente, por vezes a escaldar\u2026 e onde, com regularidade, se ouvem hist\u00f3rias que nunca tinham sido contadas.<\/p>\n<p>Escolhi, neste Abril de 2018, o texto que, sobre o almo\u00e7o que se realizou em Novembro de 2017 tendo como orador o coronel Diamantino Gertrudes da Silva, escrevi e intitulei:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>\u201cS\u00f3 quero ser um cidad\u00e3o livre<\/strong>. <strong>SEMPRE\u201d<\/strong><\/h3>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>Foi um sentido e extraordin\u00e1rio <strong>Almo\u00e7o com Hist\u00f3ria<\/strong>. Sala cheia a deitar por fora, ambiente prenhe de calor humano, camaradagem exemplar no ar, participa\u00e7\u00e3o quente no final, com os presentes \u2013 muitos dos quais figuras p\u00fablicas que desempenharam papel cimeiro na Revolu\u00e7\u00e3o de Abril \u2013 a fazerem quest\u00e3o de dar o seu testemunho.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><em>Vindo de Viseu, onde reside, o coronel Diamantino Gertrudes da Silva, homem de origem humilde que quando menino andou a pastorear vacas pelos campos, cabelo branco, olhar sereno e frontal, voz suave mas firme, anunciou que tinha escrito um texto para ali o ler \u2013 mas \u00e0 \u00faltima hora, para ocupar menos tempo, decidira resumi-lo de viva voz e sem olhar para o papel.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><em>Esse seu testemunho de vida \u2013 que no final se transcreve na \u00edntegra &#8211; causou tal impacto que quase todos quiseram, depois de o ouvir, dizer de sua justi\u00e7a. E quem assistiu\/participou nesse almo\u00e7o p\u00f4de ficar a conhecer, melhor do que nunca, o esp\u00edrito que uniu tantos homens fardados que em Abril, numa bandeja suada e arriscada, nos trouxeram a liberdade.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><em>Come\u00e7o pelo fim, isto \u00e9, pelo resumo das reac\u00e7\u00f5es causadas pelo discurso frontal de Gertrudes da Silva. O privil\u00e9gio \u00fanico de ouvir, 43 anos depois, em palavras francas, as mem\u00f3rias e os sentimentos de alguns dos homens que, com as suas m\u00e3os, as suas armas e as suas ideias, tudo arriscando, fizeram uma das mais pac\u00edficas revolu\u00e7\u00f5es que se conhecem. Mudando o rosto de um Pa\u00eds \u2013 por sinal o nosso \u2013 e geografia pol\u00edtica de uma parte significativa de um continente chamado \u00c1frica.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Testemunhos de viva voz<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Coronel Apr\u00edgio Ramalho<\/em><\/strong><em>: Tivemos os nossos momentos de disc\u00f3rdia. Ele era o \u00fanico que tinha perfil para general. Mas n\u00e3o o deixaram.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>General Lu\u00eds Sequeira<\/em><\/strong><em>: Estamos perante um homem que deu muito mais aos outros do que recebeu \u2013 e ainda aponta para o futuro. <\/em><\/p>\n<p><strong><em>Coronel Otelo<\/em><\/strong><em>: Na verdade entreg\u00e1mos a revolu\u00e7\u00e3o cedo demais. Entreg\u00e1mos tudo aos pol\u00edticos cedo demais. O que mostra que n\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos revolucion\u00e1rios. N\u00e3o havia uma ideologia nos militares. Zeca Afonso: o povo \u00e9 quem mais ordena. N\u00f3s \u00e9ramos da classe burguesa.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Coronel Carlos Matos Gomes<\/em><\/strong><em>: Esta foi uma oportunidade \u00fanica para falar da personalidade do Gertrudes, uma personalidade marcante da nossa gera\u00e7\u00e3o e do nosso processo. <\/em><br \/>\n<em>Mas, hoje e aqui, perdemo-la, levantando apenas quest\u00f5es menores, banais.<\/em><br \/>\n<em>Portugal teve a sorte de ter esta gera\u00e7\u00e3o no comando do 25 de Abril. A sorte de ter pessoas com a terra enraizada em si. Nas entrelinhas percebemos tudo o que estava por tr\u00e1s das coisas. Conseguimos perceber o que era a sociedade portuguesa. As contradi\u00e7\u00f5es e puls\u00f5es tremendas do Portugal no 25 de Abril. A necessidade de acabar com a guerra. A necessidade de melhor distribui\u00e7\u00e3o da riqueza. A necessidade de ouvir o povo de uma forma qualquer.<\/em><br \/>\n<em>Sim, a interven\u00e7\u00e3o do Gertrudes foi brilhant\u00edssima. Como foi a sua vida. Estivemos na presen\u00e7a de algu\u00e9m excepcional. Era isto que eu gostava de dizer. <\/em><\/p>\n<p><strong><em>General Pezarat Correia<\/em><\/strong><em>: Interven\u00e7\u00e3o magn\u00edfica, hoje. Tarde singular. Matos Gomes tem raz\u00e3o: personalidade excepcional, o Diamantino Gertrudes. Obriga-me, obriga-nos, a pensar. A raz\u00e3o nunca est\u00e1 apenas de um lado. Eu n\u00e3o aceito que possamos ter estado em barricadas diferentes. Se estivemos, tenho que me equacionar a mim pr\u00f3prio. Ou me enganei nas alian\u00e7as que fiz, ou fui enganado. H\u00e1 que pensar.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><strong><em>Almirante Martins Guerreiro<\/em><\/strong><em>: Estamos perante uma pessoa extraordin\u00e1ria. Rara. Coerente, sempre. Os processos revolucion\u00e1rios s\u00e3o como s\u00e3o. A Hist\u00f3ria n\u00e3o se faz de \u2018ses\u2019. Foi assim. Como sempre \u00e9 mais f\u00e1cil a unidade no <strong>anti<\/strong> do que no <strong>pr\u00f3.<\/strong> De registar e sublinhar tamb\u00e9m que o MFA nunca teve nenhum projecto de Poder depois do 25 de Abril. Pelo contr\u00e1rio: n\u00e3o teve nem queria ter. E havia divis\u00f5es. \u00c9 da Hist\u00f3ria e de todas as Revolu\u00e7\u00f5es. Mas ao pensar nos Governos p\u00f3s Abril, devo concluir que fomos ing\u00e9nuos ao julgar que n\u00e3o ir\u00edamos intervir mais. O pr\u00f3prio primeiro Governo Provis\u00f3rio era j\u00e1 um pouco conservador. Foi com o movimento popular nas ruas que tudo mudou. E o nosso projecto era entregar o Poder ao povo, havendo no ar uma vontade que as pessoas participassem seguindo uma via socializante. Mas o jogo das for\u00e7as internacionais teve a parte de le\u00e3o no rumo que as coisas tiveram no nosso pa\u00eds. As for\u00e7as externas determinaram mais a nossa evolu\u00e7\u00e3o do que as for\u00e7as internas. A verdade \u00e9 que n\u00e3o t\u00ednhamos projectos de futuro &#8211; foram aparecendo, uns mais revolucion\u00e1rios, outros mais s\u00f3 de democracia representativa, e outros at\u00e9 em que n\u00e3o havia problema de maior se se voltasse \u00e0 direita\u2026 Tenho para mim que se o MFA tivesse concorrido \u00e0s elei\u00e7\u00f5es ganhava. Mas vot\u00e1mos na democracia dita socializante\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><strong><em>Coronel Vasco Louren\u00e7o<\/em><\/strong><em>: Nunca fomos revolucion\u00e1rios. Abrimos uma garrafa de champagne e permitimos que o champagne corresse livremente. E estou-me a lembrar do fogo no rabo que o Otelo trouxe de Cuba\u2026 Quanto ao Diamantino Gertrudes da Silva: homem justo, honesto e convicto que estava ao servi\u00e7o da verdade e do que era mais correcto. Pode ver-se ao espelho todas as manh\u00e3s.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Gertrudes da Silva, a terminar<\/em><\/strong><em>: Estou emocionado. Agrade\u00e7o muito a todos. S\u00f3 quero ser um cidad\u00e3o livre. Sempre.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Bilhete de Identidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Diamantino Gertrudes da Silva nasceu no concelho de Moimenta da Beira em 20 de Fevereiro de 1943. Em 1963 ingressou na Academia Militar e fez a sua carreira militar na Arma de Infantaria, tendo passado \u00e0 reserva no posto de coronel.<\/em><\/p>\n<p><em>Cumpriu duas comiss\u00f5es por imposi\u00e7\u00e3o na Guerra Colonial \u2013 a 1\u00aa em Angola e a 2\u00aa na Guin\u00e9. \u00c0 margem das suas ocupa\u00e7\u00f5es profissionais militares, em 1980 concluiu a Licenciatura em Hist\u00f3ria na Universidade de Coimbra.<\/em><\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m das condecora\u00e7\u00f5es geralmente atribu\u00eddas aos oficiais com um normal desempenho, foi ainda agraciado com a Gr\u00e3-Cruz da Ordem da Liberdade pela sua participa\u00e7\u00e3o no&nbsp;Movimento do 25 de Abril de 1974.&nbsp;Ou, como ele gosta de dizer, no MFA, que traz orgulhosamente no cora\u00e7\u00e3o, considerando-se, acima de tudo, um Capit\u00e3o de Abril.<\/em><\/p>\n<p><em>Com base na sua experi\u00eancia militar e c\u00edvica escreveu e publicou quatro livros: entre 2003 e 2007, uma trilogia&nbsp; que percorre a Guerra Colonial e a Revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril, com os t\u00edtulos <strong>\u201cDeus, P\u00e1tria e\u2026 a vida\u201d<\/strong>, <strong>\u201cA P\u00e1tria ou a Vida\u201d <\/strong>e <strong>\u201cQuatro Esta\u00e7\u00f5es em Abril\u201d;<\/strong> em 2011, <strong>\u201cTempos sem Remi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d. Livros significativos para se poder perceber uma parte da nossa Hist\u00f3ria recente.<\/em><\/p>\n<p><em>Ribeiro Cardoso<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>******************<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Que mais haver\u00e1 para dizer? <\/strong><\/p>\n<p><em>Diamantino Gertrudes da Silva entregou \u00e0 Revista \u2018O Referencial\u2019 o texto que escrevera mas n\u00e3o leu. Intitula-se \u201c<strong>25 de Abril &#8211; Que mais haver\u00e1 para dizer\u2019<\/strong> e reza assim:<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cQue mais se poder\u00e1 dizer para al\u00e9m de tanto o que j\u00e1 foi dito e escrito, ficando ainda assim a ideia de que nada est\u00e1 formulado em termos de uma teoria sobre o 25 de Abril. Que ele decorreu quase directamente do impasse a que tinha chegado a Guerra Colonial e das conjunturas tanto nacional como internacional, se bem que verdadeira, tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma esp\u00e9cie de lugar-comum de todas as revolu\u00e7\u00f5es de que h\u00e1 mem\u00f3ria. Originalidades, podemos descobrir-lhe muitas. Mas isso n\u00e3o chega para estabelecermos uma teoria definidora do 25 de Abril que, porventura se vai fazendo, estando ainda muito longe de se l\u00e1 chegar.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem tenha afirmado que o 25 de Abril, daquela ou de outra maneira, teria mesmo que acontecer. Mas, um genu\u00edno marxista logo&nbsp; retrucaria que, para que factos hist\u00f3ricos desta natureza revolucion\u00e1ria ocorram, \u00e9 necess\u00e1rio que se verifique a conflu\u00eancia, num determinado tempo e num espec\u00edfico lugar de dois tipos de condi\u00e7\u00f5es: umas, de natureza objectiva, outras de natureza subjectiva, afastando com a exig\u00eancia das segundas o determinismo hist\u00f3rico que com alguma frequ\u00eancia e muita ligeireza lhe \u00e9 atribu\u00eddo, quando considera o homem como o verdadeiro motor da hist\u00f3ria, seja ele campon\u00eas ou oper\u00e1rio ou, mais genericamente, o explorado relativamente ao seu explorador, e opressor.<\/p>\n<p>Na falta de um corpo te\u00f3rico definidor, vamo-nos valendo dos testemunhos individuais, quer dos seus actores quer dos observadores, tentando assim ultrapassar os obst\u00e1culos a uma efectiva objectividade com as narrativas pessoais, sempre com a cuidada ressalva de que aquilo que dizemos ou escrevemos acerca deste tema \u00e9 \u201ca nossa verdade\u201d, nela nos entrincheirando no confronto com outras verdades, mesmo sabendo que a verdade verdadeira jamais estar\u00e1 ao nosso alcance. E \u00e9 assim, com este fundamental pressuposto, que eu me proponho, mais uma vez, falar sobre o 25 de Abril, sem me atrever, sequer, a afirmar que esta \u00e9 a minha verdade.<\/p>\n<p><strong>Nada de hero\u00edsmos, muito menos de \u00e9pico. <\/strong>Passados que foram j\u00e1 todos estes anos, do que posso falar \u00e9 dos registos da minha mem\u00f3ria, mantendo-me sempre alerta para as partidas, quantas vezes trai\u00e7\u00f5es, at\u00e9, que ela por vezes nos prega.<\/p>\n<p>Na minha interven\u00e7\u00e3o pessoal no 25 de Abril, pousadas j\u00e1 grande parte das poeiras, n\u00e3o vejo nada de hero\u00edsmos, muito menos de \u00e9pico. Quando muito, posso apontar a meu favor, como aos que mais directamente me acompanharam, um ineg\u00e1vel destemor, face ao pleno desconhecimento do desenlace final da empresa em que nos \u00edamos meter; e um arreigado esp\u00edrito de miss\u00e3o, essa esp\u00e9cie de v\u00edrus, n\u00e3o necessariamente malfazejo, que nos foi instilado nos bancos da Academia e, j\u00e1 antes disso, na educa\u00e7\u00e3o das escolas do Estado Novo. Tendo bem presente que est\u00e1vamos a envolver-nos num acto de subvers\u00e3o, se n\u00e3o mesmo de \u201calta trai\u00e7\u00e3o\u201d; a partir do momento em que abra\u00e7\u00e1mos a miss\u00e3o e recebemos as instru\u00e7\u00f5es para a executar, n\u00e3o tivemos quaisquer d\u00favidas de nela nos empenharmos como em tantas outras que nos foram cometidas, nomeadamente, na Guerra Colonial, mesmo que atrapalhados com tantas incertezas sobre a sua legitimidade, o que n\u00e3o era o caso desta, agora, disso, sim, est\u00e1vamos profundamente convictos.<\/p>\n<p>Correu-nos bem, \u00e9 o que se pode dizer, no nosso caso, em particular, n\u00e3o se proporcionando nenhuma situa\u00e7\u00e3o que exigisse especiais dotes de valentia nem de hero\u00edsmo que, bem sabemos, \u00e9 quase sempre fruto das circunst\u00e2ncias. Fiquemo-nos, ent\u00e3o, pelo destemor e pelo imenso orgulho de termos participado num acto a todos os t\u00edtulos glorioso, num feito hist\u00f3rico com pesadas e radicais consequ\u00eancias, a n\u00edvel nacional como, e algumas assinal\u00e1veis, quando n\u00e3o mesmo irrevers\u00edveis, decorr\u00eancias internacionais, a maior das quais traduzida na independ\u00eancia dos povos at\u00e9 a\u00ed sujeitos ao nosso dom\u00ednio colonial.<\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o e consci\u00eancia de classe<\/strong>. A seguir ao vitorioso levantamento militar \u2013 agora passo a falar por mim \u2013 abracei com paix\u00e3o e muito afinco a revolu\u00e7\u00e3o que dali emergiu por vontade e press\u00e3o das massas populares, movimento impar\u00e1vel e com in\u00e9dita vitalidade e for\u00e7a, especialmente, nos principais centros urbanos, mas que logo, logo se espalhou at\u00e9 aos lugares mais rec\u00f4nditos, uma esp\u00e9cie de sobressalto no despertar de um pa\u00eds, aparentemente devotado ao marasmo. Com paix\u00e3o, dizia eu, porque tudo aquilo para que a revolu\u00e7\u00e3o parecia apontar correspondia ao que se pode chamar de consci\u00eancia de \u201cclasse\u201d, a que, apesar da minha ascens\u00e3o, eu me julgava pertencer, a dos mais desfavorecidos, quando n\u00e3o, por isso mesmo, humilhados, fruto de recalcamentos sociais que por essa via fui acumulando at\u00e9 essa altura da minha vida, e que j\u00e1 muito depois, sem ser de prop\u00f3sito, vim a descarregar, em parte, ao longo das p\u00e1ginas dos quatro livros que entretanto escrevi, aceitando sem reservas a anota\u00e7\u00e3o de catarse que alguns dos meus amigos ali viram.<\/p>\n<p>Depois, o que se seguiu, \u00e9 tamb\u00e9m fruto das circunst\u00e2ncias. Passado pouco tempo do 25 de Abril, os meus companheiros de aventura foram novamente mobilizados para o que ainda restava \u2013 e que era o osso mais duro \u2013 da Guerra Colonial, ficando eu praticamente sozinho, tendo que tudo decidir, face a uma irremediavelmente enfraquecida cadeia de comando. Fruto das circunst\u00e2ncias. Nada que eu tenha pedido ou reclamado, e muito menos usurpado. E faz-me isto lembrar a forma como na Assembleia do MFA na Manuten\u00e7\u00e3o Militar empurr\u00e1mos o Otelo para o comando do COPCON, e como depois o abandon\u00e1mos quando as coisas come\u00e7aram a andar para tr\u00e1s. Que foi o mesmo que tamb\u00e9m fizemos a Vasco Gon\u00e7alves e a tantos outros e, j\u00e1 agora, coisa de menor import\u00e2ncia, \u00e9 certo, eu inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>Claro que naquelas circunst\u00e2ncias cometi alguns erros e excessos. Mas sempre no quadro das orienta\u00e7\u00f5es e instru\u00e7\u00f5es superiores emanadas da nova cadeia de comando. Fui Gon\u00e7alvista? Fui, sim senhor. E erros, nesse excepcional contexto, s\u00f3 n\u00e3o os cometeu, costumo dizer, quem, face \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, ficou parado a ver no que aquilo iria dar. E quando come\u00e7ou a viragem, todos esses erros e alguns excessos foram hipervalorizados, pena que n\u00e3o tenha sido s\u00f3 pelos reaccion\u00e1rios e contrarrevolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Paguei bem caro, como \u00e9 comum dizer-se, com l\u00edngua de palmo. Conforme nos in\u00edcios da revolu\u00e7\u00e3o era f\u00e1cil apelidar qualquer um de fascista, quando o projecto avan\u00e7ou para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, que veio a ter acolhimento expresso na nova Constitui\u00e7\u00e3o, aprovada por todos os partidos com assento na Assembleia Constituinte menos um, tamb\u00e9m f\u00e1cil se tornou apodar de comunistas todos os que mais declaradamente resistiam ao avan\u00e7o da direita, um estigma que j\u00e1 n\u00e3o deixava nada a dever ao de fascista, ao ponto de algumas fac\u00e7\u00f5es da extrema-esquerda \u2013 e como isso soava t\u00e3o bem aos ouvidos da direita \u2013 afirmarem que tais ep\u00edtetos eram uma e mesma coisa: Estaline e Hitler em tudo eram iguais,<\/p>\n<p><strong>O tempo de todas as desforras. <\/strong>E com o 25 de Novembro chega o tempo de todas as desforras. E foi a\u00ed que eu, sem de nada de concreto me acusarem para al\u00e9m do \u201clab\u00e9u\u201d de comunista, iniciei a minha travessia do deserto. Podia, at\u00e9, abandonar o barco, como alguns fizeram, e assim livrar-me dos numerosos sapos vivos que tive que passar a engolir, desamparado da quase totalidade dos meus anteriores companheiros.<\/p>\n<p>Mas pensava \u2013 e ainda hoje continuo a pensar \u2013 que fiz bem em ficar e continuar, nem que fosse s\u00f3 a resistir. Tamb\u00e9m na altura n\u00e3o tinha muito mais por onde escolher: uma fam\u00edlia para cuidar, e sem poder contar com um amigo empreiteiro, um sogro camiseiro ou um pai empres\u00e1rio. Alguns, foi por aqui que se escaparam; mas sem propriamente baterem com a porta \u2013 sabia-se l\u00e1 \u2026, claro que \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de raros casos que ser\u00e1 justo tamb\u00e9m assinalar, como o de um amigo e camarada que saiu, arriscando quase tudo, para esgravatar outra alternativa profissional.<\/p>\n<p>A seguir ao 25 de Novembro, com a sensa\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 a sair dum filme de que n\u00e3o apanhou o sentido, agarrei com as duas m\u00e3os a oportunidade de me envolver no Curso de Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m com alguma inten\u00e7\u00e3o de por esta via arranjar uma poss\u00edvel t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o no caso de a minha vida profissional vir a ter um desenlace que os desenvolvimentos que se seguiram ao \u201cstop da revolu\u00e7\u00e3o\u201d deixavam pairar no ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o me livrei, com a minha resist\u00eancia, daquele estigmatizante pr\u00e9-ju\u00edzo que me colaram \u00e0 pele e que a\u00ed se manteve at\u00e9 ao fim da minha carreira. Mas uma coisa penso ter conseguido: afirmar uma razo\u00e1vel e reconhecida compet\u00eancia profissional e voltar a granjear o meu quinh\u00e3o de prest\u00edgio junto de uma boa parte dos meus camaradas, nomeadamente, os do meu Curso de Infantaria, prest\u00edgio alicer\u00e7ado, segundo penso, n\u00e3o em especiais dotes profissionais, mas no cunho de seriedade com que sempre procurei carimbar os actos da minha vida, mesmo nos momentos mais controversos do processo revolucion\u00e1rio, enquanto este durou. Isto sem ceder em nada, at\u00e9 hoje, nas minhas leg\u00edtimas convic\u00e7\u00f5es, querendo crer que ningu\u00e9m, honestamente, pode p\u00f4r em causa o meu profundo empenho e apego aos ideais do 25 de Abril, a nossa e a minha utopia, que ainda hoje serve de alimento \u00e0 minha alma, seja l\u00e1 isso o que for, tanto a alma como a utopia.<\/p>\n<p><strong>Instrumentalizados?<\/strong> Isso penso que todos fomos de alguma maneira, excepto os que, como j\u00e1 referi, ao longo de todo o processo se mantiveram parados: nem para um nem para outro lado, sempre a ver aonde \u00e9 que as coisas iriam parar. No fim, parece que foi a estes que o tempo veio a dar raz\u00e3o.<\/p>\n<p>E quando emprego o termo \u201cinstrumentalizados\u201d, quero com isso significar que em alguma fase do processo se valeram de n\u00f3s para a consecu\u00e7\u00e3o de determinados objectivos, uns pol\u00edticos outros pessoais, o que ali\u00e1s ainda hoje continua a acontecer, sejam os convites das c\u00e2maras municipais, de associa\u00e7\u00f5es e, at\u00e9, de partidos pol\u00edticos, tanta gente a querer arvorar-se dos ideais de Abril, produto, valha-nos isso, com ainda assinal\u00e1vel cota\u00e7\u00e3o na bolsa de valores, com todos estes cada vez mais a escassearem, assim \u00e9 a voz corrente, que pessoalmente me recuso a subscrever.<\/p>\n<p>E isto aconteceu, inevitavelmente, porque se divididos j\u00e1 come\u00e7\u00e1mos, continu\u00e1mos a dividir-nos logo no dia 25 de Abril \u2013 para cada um a sua revolu\u00e7\u00e3o, assim costuma acontecer \u2013 , no dia 26 e por a\u00ed adiante, at\u00e9 \u00e0 primeira grande e decisiva cis\u00e3o, primeiro em spinolistas, n\u00e3o spinolistas e outras correntes mais radicais e extremistas, culminando com os resultados eleitorais para a Assembleia Constituinte, onde os partidos radicalizaram, e n\u00f3s com eles, as suas posi\u00e7\u00f5es: dum lado os que reclamavam a legitimidade assente na vontade popular manifestada nas urnas, do outro os que, perdendo nas urnas, se recusavam a deitar assim a perder todos os esfor\u00e7os e resultados da revolu\u00e7\u00e3o; em suma: democratas contra revolucion\u00e1rios, e a\u00ed estava o mote e a raz\u00e3o para o \u201cVer\u00e3o Quente\u201d, que depois, e de repente, a muitos de n\u00f3s deixou gelados em 25 de Novembro.<\/p>\n<p><strong>Que fazer?<\/strong> A quest\u00e3o que, verdadeiramente, se calhar, nunca nos pusemos e que por isso parece ter toda a acuidade, \u00e9 a de saber o que fazer, pesem as resson\u00e2ncias ainda muito inc\u00f3modas para alguns com a c\u00e9lebre quest\u00e3o formulada por Lenine: \u201cQue fazer?\u201d<\/p>\n<p>E, na falta de uma melhor resposta, vamos seguindo a t\u00e1ctica comum \u00e0 generalidade dos nossos governantes ap\u00f3s o decreto do fim da nossa revolu\u00e7\u00e3o: navegar \u00e0 vista, seguindo o princ\u00edpio de que entre n\u00e3o fazer nada e fazer alguma coisa, pois que se fa\u00e7a alguma coisa, para chegar aonde, logo se ver\u00e1. Falta-nos, como tem faltado \u00e0 nossa governa\u00e7\u00e3o, a defini\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia, o que prossup\u00f5e a elei\u00e7\u00e3o de objectivos a atingir.<\/p>\n<p>Quando chegou a altura disso, limit\u00e1mo-nos a recuar, que n\u00e3o \u00e9, necessariamente, o mesmo que andar para tr\u00e1s, at\u00e9 nos fixarmos nesta trincheira, dispostos a defender o templo sagrado evocativo da nossa revolu\u00e7\u00e3o, numa matriz em quase tudo id\u00eantica \u00e0 dos Republicanos da Revolu\u00e7\u00e3o de 5 de Outubro. De passo em passo, nada para estranhar, e pela m\u00e3o de alguns que ficaram sempre a invejar-nos o feito, fomos perdendo toda a nossa parcela de poder, numa ac\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 que levaram a cabo em rela\u00e7\u00e3o ao Presidente da Rep\u00fablica, restando-nos ainda, mas menos do que a este, algum poder de influ\u00eancia, pouco mais que um esfor\u00e7o para manter a chama do nosso memorial.<\/p>\n<p>O 25 de Abril deixou de ser, e se calhar ainda bem, uma coisa nossa, elevando-se nas alturas at\u00e9 se transformar num mito, a forma mais sublime de sobreviv\u00eancia e a face mais linda da nossa utopia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u2018Associa\u00e7\u00e3o 25 de Abril\u2019, presidida desde o in\u00edcio pelo coronel Vasco Louren\u00e7o, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o peculiar com uma actividade e um historial \u00fanicos a que os media, lamentavelmente, n\u00e3o prestam a aten\u00e7\u00e3o devida. 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