{"id":12084,"date":"2016-03-02T03:38:15","date_gmt":"2016-03-02T03:38:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=12084"},"modified":"2016-03-02T03:38:15","modified_gmt":"2016-03-02T03:38:15","slug":"uma-urgencia-demasiado-esquecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=12084","title":{"rendered":"Uma urg\u00eancia demasiado esquecida"},"content":{"rendered":"<p>Portugal tem o \u00edndice de penetra\u00e7\u00e3o da imprensa di\u00e1ria mais baixo da at\u00e9 h\u00e1 pouco chamada Europa Ocidental: umas sete a nove vezes inferior ao da Europa escandinava. E \u00e9 provavelmente tamb\u00e9m o pa\u00eds que conta menos t\u00edtulos di\u00e1rios relativamente \u00e0s respetivas demografia e superf\u00edcie. Como se isto n\u00e3o bastasse, di\u00e1rios h\u00e1 que correm o risco de deixarem de ser publicados. Enquanto outros se encontram em situa\u00e7\u00e3o financeira grave, despedem jornalistas, diminuem o n\u00famero de p\u00e1ginas e reduzem custos, o que se traduz numa inevit\u00e1vel perda de qualidade. <em>(J-M Nobre-Correia )<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Perante tal situa\u00e7\u00e3o absolutamente catastr\u00f3fica, parlamentos e governos sucessivos guardam sil\u00eancio, mantendo-se indiferentes e inertes, como se isso n\u00e3o lhe dissesse respeito. A pontos de deixarem pensar que, no fim de contas, a classe pol\u00edtica deste pa\u00eds preferiria fazer a sua vidinha sem que jornalistas e jornais se metessem-se nela. Ou dito de outro modo: sem que os cidad\u00e3os fossem minimamente informados do que se passa nas esferas do poder\u2026<\/p>\n<p>Sejam quais forem as cr\u00edticas a fazer \u00e0s carater\u00edsticas dominantes dos mundos medi\u00e1tico e jornal\u00edstico, a circula\u00e7\u00e3o de uma informa\u00e7\u00e3o de qualidade constitui um elemento indispens\u00e1vel ao bom funcionamento de uma democracia. Pelo que urge elaborar um plano suscet\u00edvel de favorecer a sustentabilidade dos t\u00edtulos existentes e, paralelamente, promover a cria\u00e7\u00e3o de novos t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da sustentabilidade, conviria incentivar iniciativas que levassem os atuais di\u00e1rios de informa\u00e7\u00e3o geral (em papel ou em linha) a refor\u00e7ar as equipas de reda\u00e7\u00e3o e a desenvolver o jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o, de reportagem e de an\u00e1lise, assim como as correspond\u00eancias do estrangeiro, e mais particularmente da Uni\u00e3o Europeia e dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Mas tamb\u00e9m iniciativas de natureza a propor uma melhor cobertura da atualidade do pa\u00eds \u201cdo interior\u201d e at\u00e9 o lan\u00e7amento de cadernos regionais com informa\u00e7\u00e3o e publicidade espec\u00edficas. Assim como iniciativas suscet\u00edveis de alargar consistentemente as magras difus\u00f5es atuais, quer em Portugal mesmo quer junto da lusofonia no mundo.<\/p>\n<p>Paralelamente, conviria privilegiar o lan\u00e7amento de novos di\u00e1rios de informa\u00e7\u00e3o geral (pelo menos em vers\u00f5es digitais) baseados em tr\u00eas ou quatro cidades das regi\u00f5es de \u201cbaixa densidade\u201d. De modo a descentralizar uma informa\u00e7\u00e3o demasiadamente concebida em fun\u00e7\u00e3o de um litoral Centro-Norte e sobretudo de Lisboa e dos meios dirigentes (pol\u00edticos, econ\u00f3micos, culturais, sociais e desportivos) que por l\u00e1 reinam\u2026 Mas de modo tamb\u00e9m a favorecer uma informa\u00e7\u00e3o regional concebida em termos de qualidade profissional, o que \u00e9 raramente o caso hoje em dia.<\/p>\n<p>Dir\u00e3o os eternamente pessimistas que Portugal atravessa uma crise econ\u00f3mica e financeira nada favor\u00e1vel a tais iniciativas. S\u00f3 que a ajuda ao desenvolvimento de iniciativas em mat\u00e9ria de informa\u00e7\u00e3o escrita (impressa ou digital) poder\u00e1 ter como origem um fundo alimentado por financiamentos de origem muito diversa. De origem p\u00fablica (Uni\u00e3o Europeia, Estado portugu\u00eas e outros) e de origem privada: percentagem das receitas de publicidade das esta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o assim como dos di\u00e1rios e seman\u00e1rios gratuitos, imposi\u00e7\u00e3o sobre a venda de tecnologias de telecomunica\u00e7\u00e3o (telem\u00f3veis, antenas parab\u00f3licas, redes de cabo, computadores, fornecedores de acesso \u00e0 internet\u2026), imposi\u00e7\u00e3o sobre as receitas dos operadores de telecomunica\u00e7\u00f5es, contribui\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias de institui\u00e7\u00f5es, empresas e pessoas privadas (dedut\u00edveis da imposi\u00e7\u00e3o fiscal)\u2026<\/p>\n<p>O fundo poderia ser solicitado por empresas de m\u00e9dia j\u00e1 existentes ou por sociedades criadas em vista do lan\u00e7amento de novos projetos. No caso de novas sociedades, estas teriam obrigatoriamente que ser constitu\u00eddas por equipas de jornalistas, de comerciais e de gestores acionistas em propor\u00e7\u00f5es definidas por elas pr\u00f3prias. Em qualquer dos casos, os fundos seriam atribu\u00eddos mediante a apresenta\u00e7\u00e3o de projetos editoriais, comerciais e financeiros circunstanciados, devidamente acompanhados dos comprovativos emanados das empresas de que as publica\u00e7\u00f5es seriam clientes. E os projetos seriam analisados e avaliados pela dire\u00e7\u00e3o do fundo composta por elementos independentes de indiscut\u00edvel compet\u00eancia em mat\u00e9ria de m\u00e9dia de informa\u00e7\u00e3o escrita.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do financiamento do fundo, as institui\u00e7\u00f5es e empresas poderiam complementarmente participar neste apoio \u00e0 informa\u00e7\u00e3o generalista escrita atrav\u00e9s da subscri\u00e7\u00e3o a pre\u00e7o preferencial de assinaturas coletivas para o seu pessoal, fiscalmente dedut\u00edvel. Como poderiam participar com inser\u00e7\u00f5es publicit\u00e1rias tamb\u00e9m fiscalmente dedut\u00edveis a partir de um certo n\u00famero de inser\u00e7\u00f5es ou de montante financeiro.<\/p>\n<p>A qualidade e a pujan\u00e7a de uma democracia est\u00e3o estreitamente ligadas ao dinamismo e ao pluralismo da informa\u00e7\u00e3o proposta aos cidad\u00e3os: h\u00e1 pois que cuidar dela, urgentemente. As autoridades pol\u00edticas n\u00e3o podem continuar a ignorar o estado confrangedor em que se encontram os m\u00e9dia de informa\u00e7\u00e3o escrita, se n\u00e3o quiserem ser acusados de serem os primeiros respons\u00e1veis pelo definhar da democracia pluralista!\u2026<\/p>\n<p><em>Professor em\u00e9rito de Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o da Universit\u00e9 Libre de Bruxelles<\/em><\/p>\n<p><em>(&#8220;P\u00fablico&#8221;, 2 mar\u00e7o 2016)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal tem o \u00edndice de penetra\u00e7\u00e3o da imprensa di\u00e1ria mais baixo da at\u00e9 h\u00e1 pouco chamada Europa Ocidental: umas sete a nove vezes inferior ao da Europa escandinava. E \u00e9 provavelmente tamb\u00e9m o pa\u00eds que conta menos t\u00edtulos di\u00e1rios relativamente \u00e0s respetivas demografia e superf\u00edcie. 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