{"id":10423,"date":"2014-09-28T08:41:13","date_gmt":"2014-09-28T07:41:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=10423"},"modified":"2014-09-28T08:41:13","modified_gmt":"2014-09-28T07:41:13","slug":"o-jornalismo-os-jornalistas-e-as-distincoes-necessarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=10423","title":{"rendered":"O jornalismo, \u201cos jornalistas\u201d  e as distin\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p>Logo que o esc\u00e2ndalo BES rebentou surgiram diversas vozes afirmando o seu indignado espanto pelo facto de ao longo dos anos a comunica\u00e7\u00e3o social nunca ter investigado nem denunciado as falcatruas no reino do Esp\u00edrito Santo, e da\u00ed partindo para mais ou menos pomposas, mais ou menos moralistas, acusa\u00e7\u00f5es \u201cao estado a que o jornalismo chegou\u201d e \u201caos \u201cjornalistas que temos\u201d.<\/p>\n<p>Colocar no banco dos r\u00e9us e acusar generalizadamente \u201cos jornalistas\u201d, no caso do BES como noutras situa\u00e7\u00f5es, pode ser fruto de leviandade, \u00a0ignor\u00e2ncia\u2026 ou segundas inten\u00e7\u00f5es. Conduz, de qualquer modo, a uma an\u00e1lise, no m\u00ednimo, perigosamente simplista \u2013 ou ardilosamente montada\u2026 \u2013 no sentido de encobrir e desviar as aten\u00e7\u00f5es do lugar dos jornalistas na produ\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e do papel dos media na sociedade capitalista, e concretamente em Portugal. <em>(Fernando Correia)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os jornalistas, mas sim os propriet\u00e1rios dos grandes grupos econ\u00f3micos, que mandam na comunica\u00e7\u00e3o social dominante \u2013 jornais e revistas de grande expans\u00e3o, esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e de televis\u00e3o de \u00e2mbito nacional, s\u00edtios online. E <i>dominante<\/i> por isso mesmo: est\u00e1 nas m\u00e3os da classe <i>dominante<\/i> e os conte\u00fados que veicula <i>dominam<\/i> a informa\u00e7\u00e3o e a opini\u00e3o a que a generalidade das pessoas tem acesso, assim condicionando os gostos, h\u00e1bitos e\u00a0 comportamentos dos portugueses.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da natureza da propriedade h\u00e1 outros elos da cadeia que n\u00e3o podem ser esquecidos. O mais importante \u00e9 a publicidade, principalmente a dependente dos grandes grupos, nacionais e multinacionais, ligados ao n\u00facleo duro do capitalismo, com peso absolutamente decisivo na economia dos media, mas que se reflecte tamb\u00e9m, directa ou indirectamente, nos conte\u00fados, incluindo os informativos. \u00c9 a conquista de publicidade que preside \u00e0s estrat\u00e9gias dos media porque \u00e9 ela que d\u00e1 lucro aos media \u2013 lucro financeiro mas tamb\u00e9m, tendo em conta os conte\u00fados divulgados, lucro pol\u00edtico e ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p><b>Uma abstrac\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Mas aten\u00e7\u00e3o: \u201cos jornalistas\u201d s\u00e3o uma abstrac\u00e7\u00e3o. Quando se acusam \u201cos jornalistas\u201d \u2013 e o caso BES \u00e9 apenas um exemplo \u2013 da qualidade e do sentido da informa\u00e7\u00e3o e da opini\u00e3o que nos chegam, de quem estamos a falar?<\/p>\n<p>Das centenas que nos \u00faltimos anos t\u00eam vindo ou est\u00e3o na imin\u00eancia de ser \u201creestruturados\u201d, \u201crescindidos\u201d, empurrados para a \u201creforma\u201d ou simplesmente despedidos? Dos que v\u00eaem os sal\u00e1rios reais diminu\u00eddos, os que nada recebem pelas horas extraordin\u00e1rias, os que s\u00e3o impedidos de progredir na carreira e no vencimento, os que t\u00eam contrato com um jornal e, sem receber mais um c\u00eantimo, t\u00eam de trabalhar para o online, a r\u00e1dio ou a TV do grupo? Dos prec\u00e1rios, os pagos \u00e0 pe\u00e7a, os freelancer n\u00e3o por op\u00e7\u00e3o mas por lhes ser recusado contrato? Dos estagi\u00e1rios curriculares, utilizados de borla e de cara alegre, como substitutos dos profissionais que j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o? Dos que praticam todos os dias, agarrados ao computador, um noticiarismo muitas vezes pouco estimulante mas que \u00e9 \u00fatil? Dos que t\u00eam por tarefa correr as portas dos tribunais e das sedes partid\u00e1rias em busca de uma frase bomb\u00e1stica ou de uma mexeriquice que fa\u00e7a manchete ou abra um notici\u00e1rio? Dos que v\u00eaem as suas propostas para uma reportagem ou uma investiga\u00e7\u00e3o serem recusadas porque \u201cn\u00e3o h\u00e1 dinheiro\u201d ou s\u00e3o \u201cinconvenientes\u201d \u00e0 \u201clinha\u201d do \u00f3rg\u00e3o, isto \u00e9, ao interesse comercial ou pol\u00edtico dos patr\u00f5es?<\/p>\n<p>Dos que, ocupando ou n\u00e3o lugares de coordena\u00e7\u00e3o, de forma respons\u00e1vel e paciente orientam,\u00a0 corrigem e ajudam o trabalho dos menos experientes, entregues quotidianamente a uma rotina essencial \u00e0 qualidade do produto final e \u00e0 necessidade de que a edi\u00e7\u00e3o esteja pronta a tempo e horas? Dos que, discreta mas honradamente, longe dos holofotes, desenvolvem trabalho de qualidade, incluindo em lugares de responsabilidade executiva ou realizando investiga\u00e7\u00f5es de importante significado social e pol\u00edtico, aproveitando as brechas abertas pela guerra das audi\u00eancias?<\/p>\n<p><b>Uma certa elite<\/b><\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que para al\u00e9m destes profissionais, outros h\u00e1 \u2013 uma pequena minoria \u2013 que, ocupando posi\u00e7\u00f5es de direc\u00e7\u00e3o e de responsabilidade editorial, funcionam como ve\u00edculos privilegiados de transmiss\u00e3o, quer para dentro das redac\u00e7\u00f5es quer para o exterior, das orienta\u00e7\u00f5es das administra\u00e7\u00f5es e dos interesses que elas representam. Deles n\u00e3o ser\u00e1 de esperar a iniciativa de investigar os meandros dos neg\u00f3cios dos banqueiros, dos patr\u00f5es da grande distribui\u00e7\u00e3o e de outras empresas que financiam a comunica\u00e7\u00e3o social\u2026<\/p>\n<p>Muitos assinam colunas na imprensa, t\u00eam lugar cativo em pain\u00e9is televisivos, misturam impudicamente a not\u00edcia com o coment\u00e1rio. E a sua visibilidade, proporcionada pela presen\u00e7a televisiva, leva a que muitas vezes a sua imagem se transforme na imagem que se tem dos jornalistas em geral.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que as generaliza\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser evitadas. N\u00e3o seria correcto cair no simplismo de dividir a pir\u00e2mide das salas de redac\u00e7\u00e3o entre \u201cbons\u201d, os que est\u00e3o em cima, e \u201cmaus\u201d, os que est\u00e3o em baixo. Necess\u00e1rio \u00e9 termos consci\u00eancia dos mecanismos da produ\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e da exist\u00eancia de uma certa elite jornal\u00edstica, com um papel essencial na concretiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o determinante dos media na sobreviv\u00eancia e promo\u00e7\u00e3o, em geral, do sistema capitalista, e em concreto dos interesses do grande capital e das pol\u00edticas e dos pol\u00edticos ao seu servi\u00e7o. Como, hoje e aqui, bem sabemos.<\/p>\n<p><em>\u00a0Fernando Correia &#8211; &#8220;Avante!&#8221;\u00a0 25 setembro 2014<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo que o esc\u00e2ndalo BES rebentou surgiram diversas vozes afirmando o seu indignado espanto pelo facto de ao longo dos anos a comunica\u00e7\u00e3o social nunca ter investigado nem denunciado as falcatruas no reino do Esp\u00edrito Santo, e da\u00ed partindo para mais ou menos pomposas, mais ou menos moralistas, acusa\u00e7\u00f5es \u201cao estado a que o jornalismo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-10423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-headline"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}