{"id":10038,"date":"2014-05-26T10:00:30","date_gmt":"2014-05-26T09:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=10038"},"modified":"2014-05-26T04:45:49","modified_gmt":"2014-05-26T03:45:49","slug":"o-dia-da-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=10038","title":{"rendered":"O dia da censura"},"content":{"rendered":"<p>O resultado conjugado de todos estes factores, que desaguam no mesmo p\u00e2ntano, \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil ter uma campanha eleitoral pior do que a actual. Os candidatos e a campanha foram ao n\u00edvel zero da pol\u00edtica e encontraram na comunica\u00e7\u00e3o social o parceiro e o espelho ideais. Eles reduziram a campanha a encena\u00e7\u00f5es para a televis\u00e3o e a televis\u00e3o vai l\u00e1 obediente cobrir aquilo que sabe que n\u00e3o tem nenhum valor informativo. E n\u00e3o venham agora hipocritamente queixar-se de que \u201cningu\u00e9m discute a Europa\u201d, quando nem candidatos nem jornalistas desejam a \u201cchatice\u201d desse debate quando h\u00e1 tanto incidente e anedota mais interessante! <em>(Jos\u00e9 Pacheco Pereira)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h2>O dia da censura<\/h2>\n<div itemprop=\"articleBody\">\n<p>Hoje \u00e9 o dia absurdo em que, mesmo que queira falar de certas coisas, n\u00e3o posso falar delas. Hoje \u00e9 um dia em que h\u00e1 censura em nome do mesmo princ\u00edpio com que houve censura durante quarenta e oito anos: proteger a paz dos esp\u00edritos dos portugueses para que eles se portem bem.<\/p>\n<p>\u00c9 um absurdo em democracia e este absurdo soma-se a outros que come\u00e7am a impregnar o tempo e o modo das campanhas eleitorais, acrescentando-se \u00e0 j\u00e1 enorme decad\u00eancia daquilo que foi uma das conquistas da democracia \u2013 a possibilidade de fazer livremente propaganda das suas ideias, programas e pessoas.<\/p>\n<p>A culpa \u00e9 de muita gente, do legislador em primeiro lugar, que podia mudar profundamente uma legisla\u00e7\u00e3o eleitoral que j\u00e1 se revelou ultrapassada e perversa, e n\u00e3o o quer fazer porque isso prejudicaria os grandes partidos. \u00c9 da Comiss\u00e3o Nacional de Elei\u00e7\u00f5es, que soma medidas contradit\u00f3rias, algumas insensatas e ca\u00f3ticas, actuando pontualmente e sem nexo. \u00c9 da comunica\u00e7\u00e3o social, que se revela muito tesa (e bem) para actuar em conjunto quando os seus interesses econ\u00f3micos est\u00e3o em causa, e revela uma estranha complac\u00eancia com esta forma de censura.<\/p>\n<p>Significa que o faz por respeito pela lei? Nem isso, at\u00e9 porque a uma lei in\u00edqua se pode responder com a desobedi\u00eancia c\u00edvica e custa-me a perceber por que raz\u00e3o a comunica\u00e7\u00e3o social recusa em conjunto esta forma de censura, que viola todos os crit\u00e9rios editoriais e jornal\u00edsticos, os \u00fanicos que deviam presidir \u00e0 cobertura de uma campanha eleitoral. E faz ainda pior: responde \u00e0s delibera\u00e7\u00f5es da CNE agravando ainda mais a j\u00e1 baixa qualidade da cobertura da campanha introduzindo crit\u00e9rios que favorecem as candidaturas dos grandes partidos, como j\u00e1 aconteceu nas aut\u00e1rquicas em detrimento das candidaturas independentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tornar igual durante quinze dias o que \u00e9 diferente durante anos, nem essa pseudo-igualdade d\u00e1 qualquer vantagem aos pequenos partidos. Bem pelo contr\u00e1rio, acentua a sua pequenez e torna-os bizarros e folcl\u00f3ricos, que \u00e9 tamb\u00e9m o modo de aproxima\u00e7\u00e3o que favorece o incidentalismo da cobertura pol\u00edtica dos nossos dias. Nem tem sentido que a igualdade nas campanhas\u00a0\u2013 que deve ser assegurada por outros mecanismos, como seja, por exemplo, um efectivo controlo dos gastos em campanha, com uma severa limita\u00e7\u00e3o do seu montante, assim como dos financiamentos por debaixo da mesa\u00a0\u2013 seja assente no abandono dos \u00fanicos crit\u00e9rios que devem presidir \u00e0 reportagem pol\u00edtica, o interesse editorial e jornal\u00edstico. Haveria assim uma competi\u00e7\u00e3o pelo interesse e pela aten\u00e7\u00e3o dos <em>media<\/em>, que n\u00e3o evita desigualdades e injusti\u00e7as, mas pode favorecer quem tenha alguma coisa para dizer. Nos pa\u00edses civilizados e democracias estabilizadas, ningu\u00e9m espera que a cobertura do Labour ingl\u00eas e dos Conservadores seja \u201cequilibrada\u201d com a do Monster Raving Loony Party, nem que haja sil\u00eancios pr\u00e9-eleitorais obrigat\u00f3rios.<\/p>\n<p>O resultado conjugado de todos estes factores, que desaguam no mesmo p\u00e2ntano, \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil ter uma campanha eleitoral pior do que a actual. Os candidatos e a campanha foram ao n\u00edvel zero da pol\u00edtica e encontraram na comunica\u00e7\u00e3o social o parceiro e o espelho ideais. Eles reduziram a campanha a encena\u00e7\u00f5es para a televis\u00e3o e a televis\u00e3o vai l\u00e1 obediente cobrir aquilo que sabe que n\u00e3o tem nenhum valor informativo. E n\u00e3o venham agora hipocritamente queixar-se de que \u201cningu\u00e9m discute a Europa\u201d, quando nem candidatos nem jornalistas desejam a \u201cchatice\u201d desse debate quando h\u00e1 tanto incidente e anedota mais interessante!<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que hoje, no balan\u00e7o da campanha, no \u201cdia da reflex\u00e3o\u201d, eu n\u00e3o o posso dizer? Se eu quiser escrever que foi penoso ver a \u201crua\u201d dos candidatos, em particular, os da maioria, ser\u00e1 que o posso dizer? Ser\u00e1 que posso dizer que a \u201crua\u201d desses candidatos foi uma completa mistifica\u00e7\u00e3o para obter imagens televisivas, daquilo que foi um dolo total, um n\u00e3o-acontecimento, feito de toca e foge, para n\u00e3o haver sarilhos, ser\u00e1 que o posso dizer? Ser\u00e1 que posso escrever que foi tamb\u00e9m penoso ver os l\u00edderes do PSD, chamados \u00e0 campanha pelo mestre da coreografia medi\u00e1tica, numa pirueta do tipo das que os seus disc\u00edpulos na comunica\u00e7\u00e3o social gostam muito, e totalmente vazia de significado pol\u00edtico, e depois terem tanta vergonha dos candidatos e da campanha que chegaram \u00e0s suas imedia\u00e7\u00f5es pest\u00edferas&#8230; para irem apoiar o candidato luxemburgu\u00eas ou dizerem que \u201cvotem A ou B, o que conta \u00e9 votarem\u201d? Ser\u00e1 que posso falar da indig\u00eancia dos candidatos da maioria, a fazer campanha contra um primeiro-ministro do passado, como se agora o PS resolvesse fazer uma campanha contra Santana Lopes? Ou, do vai-n\u00e3o-vai de M\u00e1rio Soares, \u00e0 campanha do super-homem da Juventude Socialista de peito feito em que uma caneta inscreve a fogo ou a sangue uma cruz? Ou de como o <em>selfie<\/em> do PS \u00e9 uma afronta aos direitos humanos da c\u00e2mara fotogr\u00e1fica que teve de rebaixar a sua condi\u00e7\u00e3o de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que \u00e9 o aspecto que os <em>selfies<\/em> d\u00e3o \u00e0s pessoas? Ser\u00e1 que posso hoje falar em nome dos direitos da m\u00e1quina, obrigada a estas viol\u00eancias? Ser\u00e1 que posso escrever que a campanha de Marinho e Pinto, a \u00fanica campanha dos pequenos partidos que, por puros crit\u00e9rios jornal\u00edsticos, devia ter uma muito maior cobertura, at\u00e9 porque o seu populismo \u00e9 uma \u201cfruta da \u00e9poca\u201d que exige aten\u00e7\u00e3o, foi a mais prejudicada de todas por crit\u00e9rios que favorecem sempre PSD, CDS, e PS? Ser\u00e1 que posso dizer que a campanha mais verdadeira, menos enganadora, aquela em que o que h\u00e1 \u00e9 o que se viu, foi o retrato cruel da solid\u00e3o pol\u00edtica do POUS, no momento em que as televis\u00f5es filmaram solit\u00e1ria, com a mesma faixa sempre reciclada, Carmelinda Pereira \u00e0 porta de uma f\u00e1brica? Ou dizer aquilo que \u00e9 evidente que a \u00fanica campanha que n\u00e3o teve medo da \u201crua\u201d foi a da CDU, porque \u00e9 o que \u00e9, e a mais n\u00e3o se sente obrigada? E est\u00e1 hoje, como sempre, melhor entre os velhos de Serpa, do que a do PSD-CDS que nem sequer j\u00e1 tem o \u201ccavaquist\u00e3o\u201d?<\/p>\n<div data-pagina-dadosid=\"1637164\" data-pagina-fonte=\"SCRIPTOR_NOTICIA_DETALHE\" data-caixa-id=\"258\" data-template=\"itemAoMinuto\" data-is-varios-conteudos=\"True\" data-is-por-contexto=\"False\" data-fonte=\"SCRIPTOR_NOTICIA_DETALHE\" data-dados-id=\"1637164\" data-refresh=\"0\"><em>\u00a0Jos\u00e9 Pacheco Pereira &#8211; &#8220;P\u00fablico&#8221; 24 maio 2014<\/em><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O resultado conjugado de todos estes factores, que desaguam no mesmo p\u00e2ntano, \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil ter uma campanha eleitoral pior do que a actual. Os candidatos e a campanha foram ao n\u00edvel zero da pol\u00edtica e encontraram na comunica\u00e7\u00e3o social o parceiro e o espelho ideais. 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