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Intervenção de José Carlos de Vasconcelos

É com um misto de satisfação, honra e melancolia que recebo este prémio, tão prestigioso e significativo pela qualidade de quem o outorga e de quem o entrega. A satisfação e a honra não preciso de as explicar. A melancolia, deriva do facto de este Gazeta Mérito se acrescentar a todos os outros prémios de carreira que antes me foram atribuídos – o que, se aumenta a satisfação e a honra, também acentua um certo sentimento de aproximação do fim da caminhada de quem há mais de 50 anos teve a sua primeira coluna jornalística e hoje se mantém, e deseja manter, no activo, com o empenhamento de sempre.

Um longo percurso, em variados meios, desde os tempo da ditadura aos da fantástica revolução libertadora, em períodos entusiasmantes e conturbados, em que a comunicação social teve a maior importância, e depois na chamada «normalização democrática». O que, na constante fidelidade aos mesmos valores e princípios, e assumindo desde o 25 de Abril cargos de direcção, me proporcionou inesquecíveis vivências e experiências. Entre as quais a de criar com outros camaradas, e por eles ser unanimemente eleito para dirigir, um jornal propriedade dos próprios jornalistas, base de uma empresa também de jornalistas, que foi durante anos a mais dinâmica do país, lançou iniciativas e títulos pioneiros, e co-lançou uma importante rádio, a TSF.

A liberdade e a independência perante quaisquer poderes, em particular o económico e o político, são as primeiras condições indispensáveis para um autêntico jornalismo de qualidade. E, sendo hoje utópica a repetição de projectos como esse, de O Jornal, não vejo melhor forma de à partida as garantir do que serem os jornalistas, com provas dadas, a ter participação activa nos seus conteúdos e intervenção determinante na escolha de quem editorialmente os dirige.

Por outro lado, um projecto jornalístico de qualidade é também, nessa medida, necessariamente um projecto cívico e cultural, no sentido mais amplo e mais nobre. E se o melhor jornalismo exige do jornalista muito trabalho, competência, talento, seriedade, criatividade – não menos exige integridade, rigor, rectidão, carácter. Exige saber ouvir e tentar compreender, compreender mais do que «julgar». O que não significa qualquer complacência na investigação dos factos, na qual se deve ser incansável e pertinaz, mas pressupõe um respeito sem mácula pelas pessoas e seus Direitos Fundamentais, no integral cumprimento das normas deontológicas.

Devemos ter orgulho na nossa profissão e de todas as formas lutar pela sua dignificação, mas ser humildes no seu exercício. Na reportagem, na entrevista, na notícia, o jornalista não é, não pode desejar ser, o «sujeito». O «vedetismo», a espectacularidade injustificada, a ânsia de protagonismo e poder, não têm a ver com jornalismo e estão na base de equívocos para os quais às vezes contribuímos pelo silêncio e pela passividade. Se não por um certo espírito corporativo, antítese da indispensável defesa vigorosa dos direitos e legítimos interesses dos jornalistas e da classe, pelos quais a vários títulos, incluindo os de dirigente sindical e advogado, sempre me bati.

Neste tempo que nos coube viver, é um duro mas exaltante e altamente responsabilizante ofício, o de jornalista. Mais do que ser o poder ou «contra-poder» que alguns tantos gostam de afirmar ou mesmo ostentar, entendo que o jornalismo é responsabilidade. Só a responsabilidade e uma aguda consciência dela no exercício da nossa actividade legitimam, aliás, aquele poder e a utilização, sem outros títulos, de uma arma tão poderosa e por vezes mortífera.

Uma última nota: um dos combates em que, na medida do possível, me empenhei, em particular nestes quase 29 anos que leva de existência e resistência o Jornal de Letras, foi o da cultura portuguesa e em língua portuguesa, o da nossa língua e sua presença no mundo, o da lusofonia, o da comunidade, ou, como gostaria, da fraternidade, entre países, povos, gente espalhada por todas as latitudes em diásporas várias. Numa altura em que no meios de tantos debates, e etc…., não se ouve falar da cultura nem sequer da língua portuguesa, em meu juízo o nosso mais extraordinário património vivo – e para nós, jornalistas, o nosso principal instrumento de trabalho -, deixo uma palavra de esperança em que a situação se altere no bom sentido, porque sei tratar-se de um tema caro ao senhor Presidente da República e que lhe merece toda a atenção. E outra palavra de esperança em que a liberdade, a independência e a qualidade da comunicação social cada vez mais se afirmem, indispensáveis que são para Portugal e para uma autêntica democracia. Muito obrigado.

José Carlos de Vasconcelos