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Um azar, muitos alívios

Se os portugueses nunca mais tiverem de ver o Presidente da República a passear com duas garrafas de vinho nas mãos pelas ruas de Cascais a caminho de um restaurante para ver a bola, bendita noite de infortúnio. (Luciano Alvarez)

Portugal disse adeus ao Campeonato da Europa [1] de futebol vergado por um golo da equipa belga, numa noite de domingo que, segundo muitos comentadores desportivos, nomeadamente o Presidente da República, foi de manifesto azar. Mas essa noite de azar vai trazer variados bálsamos a muitos portugueses, pelo menos durante algum tempo.

Se, durante algumas semanas, deixarmos de ver jornalistas com carteira profissional a acompanhar o dia-a-dia da equipa portuguesa sem qualquer independência, como se estivessem ao serviço da selecção e chegando ao ponto de fazerem directos com a camisola da selecção vestida, a noite azarada já nos traz algum ganho.

Se, nos próximos dias, alguns órgãos de comunicação social, em especial as televisões, deixarem de pedir durante dias inteiros, a um qualquer cidadão, em Portugal ou no estrangeiro, que adivinhe antes do jogo qual vai ser o resultado final e quem marca os golos, a enguiçada noite de domingo já nos traz alguns ganhos.

Se, durante uns tempos, os amantes do esférico caírem em si e deixarem de andar aos molhos em festejos, sem distanciamento social e sem uso de máscara, pensando que só por azar podem ser contaminados com covid-19, a saúde pública terá alcançado uma grande vitória.

Se os portugueses nunca mais tiverem de ver o Presidente da República a passear duas garrafas de vinho pelas ruas de Cascais, a caminho de um qualquer restaurante para poder ver a bola, bendita noite de infortúnio.

O problema é que, no final do próximo ano, há Campeonato do Mundo, no Qatar, e os jogos de apuramento estão praticamente à porta, pelo que é quase certo que toda esta ensandecida reinação, acompanhada pelas eternas perseguições ao “cu” do autocarro da selecção, estará de volta.

Luciano Alvarez – “Público” 28 junho 2021