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De Watergate a Trump, jornalismo em crise

Em algum ponto destes oito meses deveria ter havido um momento em que do jornalista deveria ter irrompido o cidadão Bob Woodward — para mais poderoso, famoso, icónico —, com o dever de servir. Servir o público e não esperar por setembro e 200 mil mortos. Não servir o público “como é dever dos jornalistas”, porque essa não é nenhuma condição específica dos jornalistas. Servir como é próprio dos bons cidadãos. (Ferreira Fernandes)

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Bob Woodward falou com Trump, já sabemos, durante o começo da covid-19 e até quando se confirmou o perigo mortal e pandémico da doença. A 7 de fevereiro, disse Trump para o gravador do jornalista de investigação, sobre o perigo: “Aquilo é mortal.” E também sobre o contágio fácil: “Basta respirar o ar, e é assim que passa.” Avisado líder, pois o raio do novo vírus foi, era e é mesmo isso tudo! Mas só esta semana ficámos a saber pelo livro de Bob Woodward que Trump pensava isso já em fevereiro. O que o Presidente pensava em fevereiro ficámos a saber em setembro, 200 mil
mortos depois.

Eis uma informação que não bate certo, não batem certo as conversas privadas e os discursos públicos do mesmo sujeito, que sobre o assunto andava e influenciava como ninguém no mundo. É que, entretanto, nesse fevereiro em que o entrevistado Trump privadamente afirmava saber da pandemia, da sua virulência e capacidade de contágio, ele, o Presidente Trump, fez cinco comícios, em pavilhões fechados, cheios e sem máscaras, perante milhares de apoiantes. E com milhões a beber-lhe as palavras nas rádios e televisões, sobre a tal doença. E, aí, dizia ele, e só: esse tal vírus não é mais do que a vulgar gripe! Um aborrecimento que vai e vem cada outono…

Em 19 de março, sabe-se agora pelo livro de Woodward, Trump explicou ao entrevistador porque mentia: “Eu prefiro minimizar, porque não quero criar pânico.”

Mas não se cobra dele o papel do avozinho que acalma os netos durante um furacão mas, isso sim, a irresponsabilidade de mandar as crianças fazer skate para a marginal quando o furacão já saltava do mar para a cidade. Publicamente ele negou a pandemia e recusou o uso da máscara. Nenhum outro líder mundial pode vangloriar-se de ter adivinhado o que vinha aí, é certo, mas, tirando Bolsonaro, nenhum recusou tanto e durante tanto tempo a realidade. Realidade que, sabemos agora, ele conhecia (Bolsonaro, ao menos, pode desculpar-se com aparições do beato Padre Cícero a iludi-lo).

No meio do mandato de Trump, em 2018, Bob Woodward já tinha publicado um livro sobre o atual Presidente. Não o ouviu dessa vez, só a muita da gente que passara pelo Governo. Foi um livro sóbrio, com um bom título, Fear (Medo), subtitulado, Trump na Casa Branca. O melhor desse livro está na frase que Woodward ouviu a Trump quando o entrevistara, em 2016, para o Washington Post: “O poder é, nem quero dizer a palavra, o medo”, e que inspirou o título.

O novo livro chama-se Rage, o que também está bem, porque raiva, tal como medo, é palavra que vai bem com o que o protagonista sugere. Vistam as páginas de rage e de fear com o encolher de ombros sobre Trump, a que já referi, e temos bem desenhado o paradoxo, o hoje e aqui internacional, que vivemos. O único sobressalto que se ouviu por estes dias sobre a discrepância entre o que realmente pensava o maior líder político mundial e o que ele dizia e fazia, foi o silêncio sobre Trump. Diz tudo sobre a esperança que temos sobre alguma mudança no futuro próximo.

Pelo contrário, já muito se publicou sobre a responsabilidade de Bob Woodward ter guardado para o livro, agora publicado, do que ele já sabia, desde pelo menos fevereiro, sobre a mentira pública e praticada por Trump sobre uma ameaça magna que o seu país vivia. E essa discussão ter surgido nos jornais (incluindo o próprio Washington Post…), por jornalistas e professores de comunicação honra uma profissão em crise como poucas. Como dizia o meu camarada Oscar Mascarenhas: “Temos muitos defeitos, mas ninguém diz tão bem mal de si próprio como os jornalistas.”

Em algum ponto destes oito meses deveria ter havido um momento em que do jornalista deveria ter irrompido o cidadão Bob Woodward — para mais poderoso, famoso, icónico —, com o dever de servir. Servir o público e não esperar por setembro e 200 mil mortos. Não servir o público “como é dever dos jornalistas”, porque essa não é nenhuma condição específica dos jornalistas. Servir como é próprio dos bons cidadãos.

Dessacralizar a profissão não nos faria mal nenhum, sobretudo agora que ninguém nos vê como heróis. Servir como diz o Livro de Estilo, quando o PÚBLICO foi lançado, com as “regras de bom senso e bom gosto”. Com o bom senso do jornalista que por acaso soubesse do dia e lugar da Invasão da Normandia, dos Aliados contra os nazis, e não dar a informação (não, nem sempre ela é sagrada). Com o bom gosto de encher uma primeira página com a fotografia de um modesto Citroën Dyane amarelo e duas cabeças a olhar o mar — e eu senti, como disse no dia de namorados de 1996, num jornal concorrente, o DN, a bênção que era ter um jornal moderno em Portugal (obrigado, Vicente Jorge Silva).

Com o bom senso e o bom gosto de denunciar, gritar, escrever, mais uma vez provar há meses e muitas mortes atrás — como um ícone desta útil e boa profissão não fez — que Trump é o que é.»

Ferreira Fernandes, “Público”, 13 setembro 2020