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Palavras imensas (Manuel Alegre)

21 de August de 2013


A matriz das esquerdas é comum: reside na recusa daquilo a que Octavio Paz chamou “a injustiça inerente ao capitalismo.” Essa é a sua essência. Mas a divisão entre revolucionários e reformistas vem quase desde o início. Talvez tenha começado no Congresso de Londres do Partido Social Democrata russo, em 1904. Lenine venceu Martov, com a sua teoria de partido de vanguarda, constituído por um núcleo de revolucionários profissionais, regido pela disciplina do centralismo democrático. Muitos marxistas criticaram essa ideia de introduzir de fora no movimento operário a consciência revolucionária, considerando-a um desvio voluntarista e idealista do pensamento de Marx, para o qual o ser (movimento dos trabalhadores) é que determina a consciência e as formas de organização, não o contrário. Hoje ninguém discute estas velharias ideológicas, embora nelas esteja a origem da Revolução Russa de 1917. Foi um facto histórico de importância capital no século XX. Apesar das tragédias posteriores, das purgas e do Gulag, a União Soviética mudou a relação de forças no mundo, tornou-se a esperança de explorados e oprimidos e teria um papel decisivo na derrota do nazismo. A fidelidade à URSS tornou-se a pedra de toque dos partidos comunistas.

Com a guerra fria, os partidos da Internacional Socialista funcionaram como terceira via, por um lado contraponto em relação ao bloco comunista, por outro gestão moderadora do capitalismo, através do Estado providência e dos direitos sociais que significaram um considerável avanço civilizacional. No plano teórico, os partidos comunistas continuaram a defender a revolução, embora os eurocomunistas tenham trocado a via insurreccional pela eleitoral. Os partidos da IS foram abdicando do projecto de transicção para o socialismo por via gradual e democrática. Mas já depois do SPD alemão ter abandonado o marxismo, Mitterrand, após a sua eleição em 1981, começou por aplicar o “programa comum da esquerda”, que visava a reindustrialização estatizante da França e uma ruptura progressiva com o capitalismo. Mais tarde, aliar-se-ia ao chanceler Kohl para a consagração do neoliberalismo no Tratado de Maastrich. Também em 1981, no congresso em que Mário Soares derrotou o chamado ex-Secretariado, a sua moção ainda mantinha uma via de ruptura gradual com o capitalismo. Onde isso vai!

Com Reagan e Thachter e o posterior colapso da União Soviética, não foi só o comunismo que foi derrotado, foi toda a esquerda, mesmo aquela que desde sempre se opôs ao estalinismo e ao modelo soviético. A queda do muro de Berlim não se traduziu na vitória da social democracia, mas no triunfo do capitalismo financeiro à escala global. Os partidos socialistas ou se deixaram colonizar pelo neoliberalismo triunfante ou seguiram a moda pseudo-modernizadora do blairismo. Os partidos comunistas, com a honrosa excepção do português, sumiram-se ou mudaram de nome. Adverti então que um partido pode tornar-se historicamente desnecessário. Hoje, perante a crise provocada pelo domínio absoluto do capitalismo financeiro, as sondagens na Europa são reveladoras do declínio dos partidos tradicionais. Nem os comunistas falam de revolução nem os socialistas pronunciam a palavra socialismo. E contudo a direita assume sem complexos e sem pudor a sua ideologia, na maior ofensiva de sempre contra os direitos dos cidadãos e o património histórico e social da democracia. Sou, porventura, um socialista fora de moda. Mas não quero o socialismo fora da História e da própria linguagem. E muito menos da vida. Como escreveu Mário Cesariny: “Há palavras imensas, que esperam por nós.” Mas não as palavras ideologicamente assépticas.

Manuel Alegre – “Público” 21 agosto 2013

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