Um Pulitzer para o DN
“Notícias são notícias”. Categórico, o director do Diário de Notícias explicava ontem as razões pelas quais o jornal tinha optado por publicar a “notícia” sobre as suspeitas de escutas na Presidência da República à custa da violação de direitos básicos da cidadania. Discutir onde começa e acaba o papel do jornalismo na sua relação com os valores de um Estado de Direito é caminho sem fim à vista. Cada caso é, em tese, um caso. E, no caso em questão, o que é obrigatório é saber se a “notícia” do DN, medida pelo seu interesse para a comunidade, legitima uma violação grosseira do direito que todos temos à protecção da correspondência privada ou dessa garantia que alimenta o jornalismo nas sociedades abertas – a protecção das fontes.
O que traz o DN de novo à manchete do PÚBLICO de 18 de Agosto, que tinha por título Presidência suspeita estar a ser escutada pelo Governo? Um nome de um assessor que, supostamente, teria “encomendado” a história. De resto, já se sabia que havia suspeitas; era público que essas suspeitas se sustentavam numa fonte da presidência; já se sabia que Cavaco as não desmentia; e já se sabia que a colocação dessas suspeitas no espaço público era sintoma do péssimo clima institucional existente. A história do DN é a reconfirmação de que a manchete do PÚBLICO era verdadeira.
O jornal pode tomar as opções que lhe são mais convenientes ou que melhor se ajustam aos seus critérios. O erro é um perigo que não poupa nenhum jornal nem nenhum jornalista. Mas quando se opta por caminhos sinuosos, não fica bem justificá-los com elevadas considerações sobre o jornalismo, o poder corporativo dos jornalistas ou o interesse público. O DN pode optar por publicar na íntegra e-mails privados e expor na praça pública fontes protegidas pelo segredo profissional. Poupem-nos, por favor, a textos sumptuosos com palavras nobres para embrulhar decisões dignas de um tablóide. Não é com “notícias” destas que se ganha um Pulitzer.
Manuel Carvalho – “Público” 20 Set 09

