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Alguns gostam de poesia

19 de Setembro de 2009

Que os ratos da arca pessoana me perdoem, mas não vejo mal nenhum no facto de Sócrates, na entrevista em que abriu o íntimo a uma tal Raquel Alexandra da SIC, se ter confessado amante de poesia e ter ilustrado o seu desusado amor chamando o “trevo de quatro folhas” a uns versos do eng.º Álvaro de Campos e atribuindo-os ao médico monárquico dr. Ricardo Reis.

Confusões fazemos nós todos, ou ainda menos, e quem nunca confundiu uma quadra ao gosto popular com uma epopeia (ou o íntimo candidato José Sócrates com o “feroz” primeiro-ministro José Sócrates) que atire a primeira pedra. O problema é outro, é o de políticos em campanha acharem que lhes fica bem dizer que gostam de poesia. Não fica. Nem a eles nem à poesia, e muito menos à campanha. Quando Szymborska diz que “alguns gostam de poesia” (“mas também se gosta de canja de massa”) não constata, alerta para que não nos fiemos neles, nos “dois em mil”. Eu nunca confiaria num político que distinguisse Álvaro de Campos de Ricardo Reis, “O problema da habitação” de Ruy Belo da Nova Lei das Rendas ou António Franco Alexandre da Raquel Alexandra.

Manuel António Pina – “Jornal de Notícias” 19 Set 09

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