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Um cancro do jornalismo

29 de Julho de 2010

Uma prática corrente no “Público” é indicar no final de algumas peças que «o jornalista viajou a convite» desta ou daquela empresa. Uma espécie de confissão, aparentemente baseada no pressuposto de que quem confessa a verdade não merece castigo.
Não imagino o “Público” a indicar que «o jornalista almoçou a convite» de tal ou tal pessoa, nem vejo a diferença qualitativa entre um almoço e uma viagem. Dito de outro modo, se o jornal não deve permitir que os seus jornalistas aceitem convites para almoços de serviço, por maioria de razão deve rejeitar convites para viagens de trabalho.

Vem isto a propósito de um trabalho de uma jornalista do “Público”(Um escaldão hoje… mil novos melanomas por ano em Portugal), no final do qual se informa que «A jornalista viajou a convite da farmacêutica Bristol-Myers Squibb».

A viagem foi a Chicago, onde foi feita a apresentação de uma substância destinada a combater o melanoma, o ipilimumab, e no texto da peça não é feita qualquer referência à empresa farmacêutica.

Todo o trabalho está construído em torno do aparecimento e desenvolvimento dos melanomas e do alto grau de agressividade deste tipo de cancro. Citam-se especialistas e exemplifica-se com casos dramáticos de doentes. No meio do cenário (ou numa ara, sabe-se lá) aparece a referência à promessa milagrosa do ipilimumab, que vai ser comercializado no próximo ano, mas do qual se esperam resultados magníficos.

Supersíntese implícita da história: se tiver o azar de lhe ser diagnosticado um melanoma, não desespere porque vem aí o ipilimumab.

E é aqui que o cancro da pele se confunde com o cancro do jornalismo. No texto não há qualquer referência à empresa que desenvolve o ipilimumab, mas sabe-se que é… a Bristol-Myers Squibb, a mesma que pagou a viagem da jornalista a Chicago para ela assistir à apresentação da molécula e, obviamente, escrever sobre a terapia experimentada.

Os jornais, mais do que os jornalistas, têm toda a conveniência em evitar o alastramento deste cancro das viagens a convite (hoje só estou a escrever sobre este), porque, ao contrário dos melanomas, não há ipilimumab que salve a imprensa dos cancros jornalísticos.

João Alferes Gonçalves

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