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Raios & coriscos

24 de August de 2019


Ler e ouvir diariamente os media portugueses é um exercício penoso, tantos são os erros de linguagem, escrita ou falada.
Ouvir dizer, durante a greve dos motoristas, que o governo «decidiu racionalizar os combustíveis» ou que a situação era melhor «kóke sesprava» não é muito diferente de ver traduzido, na legenda de um filme, safe house (casa segura para espiões) por «casa do cofre».
Que um alegado repórter de televisão anuncie a detenção do «único e principal suspeito» já nem me faz pestanejar porque a cadência da asneira é marcada, muitas vezes, ao minuto. (JAG)

Sempre houve, nas redacções, quem cometesse erros gramaticais de todo o tipo, mas que eram corrigidos pelos editores, ou, se escapassem nesse crivo, pelos atentos e competentes revisores.
Hoje, desaparecido o filtro da revisão, verifico que nem nos chefes directos se pode confiar porque, com frequência, são eles que introduzem erros na notícia. O conhecimento das técnicas de produção de um jornal permite identificar a origem do erro, quando ele aparece numa chamada ou no título e está em contradição com o corpo da notícia.
O problema mais sério não está nas gralhas ou nos erros gramaticais simples, embora a sua densidade não deixe de ser motivo de preocupação. O pior é a ocorrência constante de erros culturais, que contribuem para a perda de credibilidade dos media.
Numa sociedade cada vez mais alfabetizada e culta, o sentido crítico do público é exercido com rigor e sem piedade. Perante um erro cultural crasso, o cidadão pergunta-se: «Se eles não sabem isto, como posso confiar no que dizem?». Deixo aberto ao exercício da imaginação as possíveis consequências desse juizo.

Tudo isto vem a propósito de um incidente, na Polónia, com um grupo de pessoas atingidas por um raio durante uma trovoada.
O “Público” e o “Jornal de Notícias” referem, em título, que um raio matou quatro pessoas. Mas o “Correio da Manhã” inventa uma causa nunca vista: uma «tempestade de relâmpagos». Que raio de base de dados tem o jornalista na cabeça para transformar uma simples trovoada numa «tempestade de relâmpagos»?
Lá estará o cidadão a interrogar-se: se eles não sabem o que é uma trovoada…

João Alferes Gonçalves

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