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Morreu Ruben de Carvalho

O velório do jornalista Ruben de Carvalho decorrerá no sábado, dia 15, a partir das 17 e 30, na Câmara Municipal de Lisboa. O corpo será cremado no domingo, pelas 15 horas, no cemitério do Alto de S.João. Ruben de Carvalho iniciou a carreira jornalística em 1963 e foi chefe de redacção da «Vida Mundial», redactor coordenador de «O Século» e chefe de redacção do semanário «Avante!», a partir do nº 1 da série legal. (Actualizado com informação sobre o velório)

Ruben de Carvalho tinha 74 anos e era o único membro no actual Comité Central do PCP que tinha estado preso nas cadeias da PIDE durante o Estado Novo. Foi sujeito a várias detenções no Aljube e em Caxias entre 1961 e 1966, tendo sido de novo preso no início de Abril de 1974.

É uma referência na direcção e entre os militantes comunistas, tendo assumido ao longo de décadas uma atitude crítica, mas sem nunca romper ou entrar em conflito com a linha oficial do PCP. Ruben de Carvalho aderiu ao PCP em 1970 e foi funcionário do partido entre 1974 e 1997. Foi eleito para o Comité Central em 1997. Integrou também vários órgãos executivos do Comité Central: Comissão Executiva (1990-1992) e Conselho Nacional (1992-1996). Foi igualmente chefe de redacção do jornal partidário “Avante!”, de 1974 a 1995.

Durante anos e desde o seu início em 1976, Ruben de Carvalho foi o responsável pela programação cultural e pela organização dos espectáculos da Festa do “Avante!”.

Quando das dissidências partidárias do final dos anos oitenta, do início dos anos noventa e do início dos anos 2000, Ruben de Carvalho manteve-se sempre ao lado das posições do líder histórico do PCP, Álvaro Cunhal. Próximo de Carlos Carvalhas, secretário-geral entre 1994 e 2002, Ruben de Carvalho foi também próximo do actual secretário-geral, Jerónimo de Sousa.

Como dirigente comunista, foi um defensor de que o PCP fizesse o acordo com o PS, em Novembro de 2015, que permitiu a viabilização parlamentar do actual Governo de António Costa.

Em nota divulgada esta terça-feira, o Secretariado do PCP afirma que “lamenta profundamente o falecimento do camarada Ruben de Carvalho e apresenta as mais sentidas condolências à sua família, em especial à camarada Madalena Santos, sua companheira de vida e luta.” O Secretariado destaca que ele “ao longo de toda a sua vida” se empenhou “na luta, com o seu partido, pela liberdade e a democracia, por uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão, o socialismo e o comunismo”.

Nascido a 21 de Julho de 1944, Ruben de Carvalho envolveu-se desde cedo na luta antifascista. Em 1960, integrou a direcção da comissão pró-Associação dos Estudantes do Ensino Liceal e da Comissão Nacional do Dia do Estudante (de 1961 a 1964). Como aluno do ensino superior participou na luta académica em 1962, tendo integrado a direçcão da Comissão Pró-Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1963, e a Reunião Inter-Associações (RIA) entre 1964 e 1965, sendo o responsável pelo Departamento de Informação.

Antes de aderir ao PCP, integrou as comissões juvenis de apoio à candidatura de Humberto Delgado (1958) e a Oposição Democrática nas eleições para a Assembleia Nacional de 1961, 1965 e 1973. Nessas eleições fez parte da Comissão Central da CDE (Comissão Democrática Eleitoral). Tendo integrado a direcção do Movimento Democrático (MDP). Em 1974, foi chefe de gabinete do ministro Sem Pasta, Francisco Pereira de Moura, no I Governo Provisório.

Ruben de Carvalho foi jornalista desde 1963 no Século e depois na Vida Mundial, colaborando ainda em jornais como o Notícias da Amadora, o Diário, Diário de Lisboa e A Capital. Ruben de Carvalho especializou-se também em história do fado, tendo publicado vários livro sobre o tema, bem como outra obra.

Foi eleito deputado à Assembleia da República em 1995, vereador na Câmara de Setúbal em 1997 e da Câmara de Lisboa entre 2007 e 2013. Assumia com clareza que o seu perfil não se adaptava ao necessário ao mandato de deputado, já que se via como talhado para funções mais executivas.

Daí ter aceitado ser candidato à Câmara de Lisboa nas eleições autárquicas intrecalares na capital, cidade de que era um conhecedor, incluindo dos roteiros gastronómicos da capital, como gastrónomo que era. Foi como vereador em Lisboa que conseguiu alguns consensos com o então eleito presidente da Câmara pelo PS, António Costa, que conhecia já bem na altura, até porque o actual primeiro-ministro é filho do escritor Orlando da Costa, que foi militante comunista.

Nos últimos anos, mantinha na RDP1 o programa Radicais Livres, onde debatia temas de actualidade e gerais com Jaime Nogueira Pinto.

São José Almeida e Nuno Ribeiro

“Público” – 11 junho 2019