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A ERC é pilinhas

Mandei o que foi pedido, mas volto ao assunto porque o episódio veio confirmar uma velha dúvida: a ERC, que regula os jornais, pouco sabe dos jornais. A ERC não sabe, o que fica justificado, desde logo, pela pesporrência do tom que acompanhava a exigência: “deverão” e “no prazo máximo”. Já agora, porque não compra, ela, os jornais e neles procura, ela, as importantes informações que aqueles textos lhe trazem? (Ferreira Fernandes)

A ERC é pilinhas

Há uns dias, a ERC mandou-me uma ordem. Ela é a Entidade Reguladora para Comunicação Social e regula os jornais. Na verdade, ordena e mal. Dizia o ofício da ERC que queria “a data de publicação e o número de página” dos artigos de opinião, e a data de publicação e o número de página das entrevistas dos candidatos, com a identificação dos respetivos partidos, durante a campanha “para o Parlamento Europeu no dia 26 de junho”. E mais ordenava que os pedidos “deverão dar entrada na ERC num prazo máximo de dez dias”.

Mandei o que foi pedido, mas volto ao assunto porque o episódio veio confirmar uma velha dúvida: a ERC, que regula os jornais, pouco sabe dos jornais. A ERC não sabe, o que fica justificado, desde logo, pela pesporrência do tom que acompanhava a exigência: “deverão” e “no prazo máximo”. Já agora, porque não compra, ela, os jornais e neles procura, ela, as importantes informações que aqueles textos lhe trazem?

Reparem, não estou a falar de uma entidade a que não são dados meios. Os orçamentos da ERC, de dinheiros públicos, e do DN, de dinheiros privados, sendo equivalentes, porque há de este fazer o trabalho daquela? A ERC, com os seus dinheiros, que regule; nós, com os nossos, que informemos. À nossa escassa medida orçamental, que, repito, é equivalente.

Os meios que a ERC tem são escassos – o que explica uma penúria de pessoal que os leva a dizer que as eleições europeias foram a 26 de junho (e escreveu-o por duas vezes), quando foram em maio. Mas, sendo os nossos também escassos, porque carrega os nossos com trabalho dela?

E, sendo escassos ambos os meios, porque nos aborrece a ERC com o que não deve? Dias antes deste episódio de abuso, a ERC julgou o DN sem previamente o ouvir. Considerou ela que um título por nós usado – “Ganhar uma estrela Michelin é muito fixe. Mantê-la é que é o caralho” – merecia sanção. O título foi usado numa reportagem, citando o principal sujeito da história. Um restaurante transmontano ganhara a famosa estrela e o galardoado dissera-nos aquela frase.

O repórter Ricardo J. Rodrigues, uma das marcas desta casa, bom de olhar, bom de falar com as pessoas e maravilhoso a escrever histórias, fora o autor do texto e escolheu aquele título. Estou a repetir-me, ele é bom a contar histórias, como podia não escolher aquele título? Uma estrela Michelin em Trás-os-Montes é raro, e mais raro é ouvir alguém expressar o exato significado de uma honra: é honrá-la. Que para isso usou uma expressão forte só pode incomodar desconhecedores do que é regular numa profissão da palavra.

Alinho argumentos de autoridade, bons para funcionários passadores de multas. Quando Gabriel García Márquez veio a Lisboa, em 1975, titulou a sua segunda reportagem na revista Alternativa assim: “Pero que carajo pensa el pueblo?” Olhem, aprendi esse facto num texto de Ricardo J. Rodrigues na Colômbia, em 2013.

Na The New Yorker, a revista mais bem escrita do mundo, já li este título: “Não sou um Olho do Cu” (Nate Den, 8 de outubro de 2016). O jornalista Matt Taibbi publicou uma série de ensaios que foram bestseller no The New York Times, e a um dos quais chamou “O Maior Olho do Cu do Mundo” a Alan Greenspan, chefe da Reserva Federal americana. Autor de um livro sobra a palavra “foda-se”, o especialista Jesse Scheidlower conta esta regra da revista The Economist: “Se utilizas um palavrão escreve-o com as letras todas.”

No The Guardian, em 2009, contaram-se 705 “fuck“; em 2012, 808 vezes. Deixou de se contar. A ERC é pilinhas – não digo isto para não dizer outra coisa, mas porque ela é só isso.

Ferreira Fernandes – “Diário de Notícias” 08 junho 2019