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Há uma originalidade portuguesa que leva a que 95 políticos tenham lugar cativo na rádio, televisão e imprensa

2 de March de 2019


A maior bancada parlamentar portuguesa não seria suficiente para sentar os políticos que, em permanência, têm direito a espaço próprio nos órgãos de comunicação social portugueses. O Expresso contactou todos os diretores de jornais, revistas, televisões, rádios e sites de informação para chegar à conclusão de que há 95 políticos com tempo de emissão ou espaço de escrita garantidos nos media nacionais. A esmagadora maioria marca presença todas as semanas. Alguns mais do que uma vez e em vários media em simultâneo. Para se ter uma ideia do peso que têm, basta pensar que os sociais-democratas ocupam 89 lugares no Parlamento. Os socialistas 86. Mas a tribuna que os órgãos de comunicação social distribui — e paga — a estes políticos é maior. E atinge muito mais eleitorado, perdão, público do que alguma vez o Palácio de São Bento lhes poderia dar. (Rosa Pedroso Lima)

O leque é muito vasto e inclui dirigentes partidários, deputados, ex-governantes ou os chamados senadores do regime. O critério para a seleção desta lista foi estabelecido por cada diretor, que indicou ao Expresso aquele que considera ser o leque de políticos chamado a preencher alguns dos espaços mais nobres de cada órgão de comunicação social. Da imprensa à televisão, passando pelas novas plataformas online ou pela rádio, o modelo repete-se. Todos acham “relevante” ceder espaço ou tempo de antena para dar voz aos políticos, aos quais não colocam “quaisquer limites” quanto ao tema a abordar e ainda menos sobre o ângulo de análise. A liberdade é total. O espaço é entregue livre de encargos ao colaborador político.

E, por falar em encargos, é certo que estas presenças têm custos — não apenas sobre a informação prestada, que dificilmente se consegue medir, mas porque há um valor pago pelo serviço prestado. Curiosamente, todos os responsáveis dos media portugueses se reservaram o direito de não revelar quanto pagam pela colaboração dos políticos. “O valor é sigiloso”, é “um assunto sobre o qual não nos pronunciamos publicamente”, ou “os números não são divulgados, tal como o Expresso não divulga como remunera os seus colunistas”, são alguns dos exemplos de respostas que recebemos. Na verdade, o próprio diretor do Expresso não revelou quanto paga aos 11 colaboradores políticos permanentes do jornal em papel ou das suas versões digitais. Todos se refugiam no segredo dos contratos estabelecidos, que lhes permitiram garantir a sua ‘equipa’ própria e permanente de comentadores políticos.

Todos? Não é verdade. Há uma espécie de aldeia gaulesa, como nos livros do Astérix, que resiste a esta marca dos media portugueses: a Antena 1 é o único meio de comunicação social que não tem colaboradores políticos fixos. João Paulo Baltazar, diretor de informação da estação de rádio desde 2015, tomou isso como regra editorial. “Acabámos com políticos a comentar a solo. Achamos que não é correto para uma estação pública de rádio dar a políticos uma tribuna fixa e uma voz a solo.” Para ele, “isso não significa menos política, antes pelo contrário”. Os programas de debate e os espaços de opinião são uma marca da casa, mas fazem-se “em função da atualidade” e com uma condição essencial: serem escolhas editoriais e sempre mediadas e conduzidas por jornalistas.

UMA ORIGINALIDADE PORTUGUESA

O exemplo da Antena 1 é, aliás, o modelo seguido no resto do mundo. As 95 presenças fixas de políticos nos media nacionais é uma verdadeira originalidade lusa, sem paralelo tanto nas suas características como na dimensão que atinge. Em França, “não há políticos comentadores pagos”, garante Daniel Ribeiro, correspondente do Expresso em Paris. Não existem sequer “programas desse tipo”, onde políticos de carreira têm encontro marcado para debater entre si. “Isso não existe” nos media franceses.

Na Alemanha, “não há uma lei específica, mas existe uma prática”, explica Cristina Peres, jornalista do Expresso que cobre a realidade alemã. “Há formatos televisivos dos quais é de destacar o programa de Anne Will no canal Das Erste, que aos domingos à noite faz um debate com convidados para cada tema específico. Mas o único ‘residente’ do programa é a jornalista-entrevistadora.” Poderá até existir uma pool de políticos que mais facilmente são encaminhados para este tipo de debates, “por serem mais eficazes na comunicação, por terem melhor imagem televisiva, e o mesmo acontecerá com os que são chamados a fazer comentários pontuais. Mas qualquer alemão se espantaria com a presença de políticos no ativo que têm lugar cativo nos debates políticos na TV como acontece em Portugal. Seria lido como tempo de antena gratuito e uma prática de comentário ou análise sem neutralidade”, conclui.

Nos Estados Unidos, “há uma porta giratória entre a política e os media por onde passam políticos democratas e republicanos, sejam eles ex-candidatos presidenciais, congressistas, antigos membros das secretas, e até mesmo elementos dos staffs — assessores, conselheiros — se aproveitam disso”, explica Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA. Exemplos, há vários. Rick Santorum, candidato à nomeação republicana em 2012, é comentador na CNN. Howard Dean, que tentou a nomeação democrata em 2004, trabalha para a NBC. E congressistas são mais do que muitos: Mike Rogers, que liderou o Comité de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, também colabora com a CNN, canal por onde passou igualmente Harold Ford, enquanto Jason Chaffetz opina na FOX News.

Michal Hayden, que liderou a CIA e a NSA, tem um contrato de exclusividade com a CNN, e Jennifer Psaki, porta-voz do Departamento de Estado durante a Administração Obama, é comentadora da CNN. Ana Navarro, conselheira de Jeb Bush e John McCain, divide-se por Telemundo, CNN e ABC, onde participa no “The View”, um programa de TV matinal com um painel composto, exclusivamente, por mulheres que disseca a atualidade política e social americana.

Mas a presença de políticos nos media dos EUA é “uma porta giratória e não um corredor com acesso a ambos os mundos”. Um político no ativo não colabora, muito menos com retribuição garantida, nos programas informativos da televisão ou da rádio e não tem direito a uma coluna própria nos jornais norte-americanos. “Ou se faz uma coisa ou outra, para que não existam incompatibilidades. Um congressista, por exemplo, só aparece numa televisão para ser entrevistado e não para protagonizar espaços de opinião”, conclui Ricardo Lourenço.

A exposição, nos media americanos como em qualquer parte do mundo, serve “para manter ou, se possível, elevar o perfil público. Dessa forma, a carreira política nunca morre. Quanto muito, faz uma espécie de intervalo”, diz Ricardo Lourenço.

Em Espanha, “os dirigentes políticos aprenderam a gostar da influência que podem passar a ter se marcarem presença nos meios de comunicação social”. Um caso paradigmático é o de Pablo Iglesias, líder do Podemos, “que é raro o dia em que não tem uma aparição num dos múltiplos debates que existem no amplo panorama mediático espanhol. Aliás, o próprio Iglesias dirige a sua tertúlia política — ‘La Tuerka’—, que, segundo algumas fontes jornalísticas, é financiada pela televisão estatal iraniana”, explica o corresponde do Expresso em Madrid, Angel Luis de la Calle.

O modelo espanhol para chamar os políticos aos media passa pelas chamadas “tertúlias políticas”, uma fórmula que começou na rádio, nos anos 80, mas que se generalizou por todos os meios de comunicação social do país a partir do arranque do século XXI, explica Angel Luis de la Calle. “Os políticos dos mais diversos quadrantes estão muito presentes nestes programas, que são geralmente conduzidos por um moderador e quatro ou cinco jornalistas prestigiados, em muitos casos os próprios diretores dos órgãos de comunicação social.” Não é, porém, costume que compareçam a esta chamada “políticos em exercício de funções, com cargos de Governo ou no Parlamento”, e todos os que são convidados para integrar uma determinada tertúlia “não é habitual que cobrem pela sua colaboração”.

OS PREFERIDOS

A lista de políticos comentadores presente nos media nacionais é grande, mas está longe de ser bem distribuída. O peso eleitoral efetivo de cada força política, por exemplo, não é um critério tido em especial consideração pelos diretores de informação na altura de selecionar os colaboradores. Preferem “bons opinadores sobre a realidade”, e por isso “a assinatura é mais importante do que a eventual ligação partidária”, como sublinha a diretora do “Diário de Notícias”, Catarina Carvalho. Celso Filipe, do “Jornal de Negócios”, prefere outra fórmula: “Escolher personalidades cuja opinião possa ser do interesse público e relevantes para os nossos leitores” é o principal foco. E isso reflete-se no conjunto de políticos que, no final de todas as contas, formam o bolo dos colaboradores permanentes dos media.

O PAN, por exemplo, elegeu um deputado nas últimas legislativas, mas isso não chegou para que algum órgão de comunicação social achasse por bem chamá-lo a uma colaboração regular. Em contrapartida, André Ventura, cujo partido Chega ainda não está legalizado, já é presença assídua na imprensa e na televisão. Ou o Aliança, de Pedro Santana Lopes, com um mês de existência, já tem dois espaços de informação fixos, um com a assinatura do próprio líder, todas as semanas, no “Jornal de Negócios”, outro de João Gonçalves, no “Jornal de Notícias”. E, como de costume, há claramente um défice de participação das mulheres: só 18 têm espaço reservado, o que equivale a 19% da presença dos políticos nos media portugueses.

E, claro, há uma espécie de top dos mais requisitados. Francisco Louçã, ex-fundador e líder do Bloco de Esquerda, é um exemplo. Ele, que deixou o Parlamento há quase sete anos, está oficialmente fora da atividade política. Mas não do “combate” que prometeu continuar a levar “a todos os lugares da vida social onde puder chegar, e com a mesma energia. A política não se faz só numa sala, faz-se em toda a vida”, disse, na sua ‘despedida’ de São Bento, em 2012.

E, de facto, mesmo longe de São Bento, tem um vasto tempo de antena garantido. Louçã começa logo pela manhã, na TSF, a comentar diariamente o que considera relevante na atualidade noticiosa. São cerca de nove minutos de comentário, a que se juntam os 21 minutos de espaço concedidos todas as sextas-feiras na SIC Notícias para a opinião do agora reformado líder do Bloco. Louçã faz mesmo o pleno dos órgãos de comunicação social. Além da rádio e da televisão, é ainda colaborador semanal do Expresso, com uma página do Segundo Caderno garantida para expressar as suas opiniões, a que se junta uma crónica semanal no Expresso Diário, publicada às terças-feiras e reproduzida, depois, no fio do noticiário do online deste jornal.

Pacheco Pereira é outro dos grandes ocupantes do espaço mediático nacional. E também ele faz o pleno dos meios de comunicação social existentes. Na televisão, integra a agora denominada “circulatura do quadrado”, que foi uma das transferências televisivas do ano, passando a hora semanal de debate político diretamente da antena da SIC Notícias para a da TVI 24. O programa, que preenche a programação das noites de quinta-feira, tem réplica garantida na TSF (no mesmo dia, mas mais tarde) e ainda dá direito a uma versão de podcast, presente no site da estação de Queluz. A juntar a estas colaborações, Pacheco Pereira garante ainda duas páginas semanais de opinião na revista “Sábado”.

Mas a acumulação de presenças nos media não representa, necessariamente, um maior alcance da mensagem transmitida. E, na guerra das audiências, o pódio vai sempre para quem consegue um lugar ao sol num canal generalista. Não é para todos. É um campeonato difícil que, no caso português, agora está reservado a dois políticos: Paulo Portas e Luís Marques Mendes. O ex-líder do CDS e vice-primeiro-ministro do Governo de Passos Coelho tem um espaço de 15 minutos de comentário na TVI, ao domingo. No dia seguinte, publica uma crónica no jornal online “Eco”. Já Marques Mendes, também ao domingo e à mesma hora de Paulo Portas, fala na SIC durante cerca de 20 minutos. A sua ‘crónica’ televisiva é corrigida e adaptada, semanalmente, para uma versão de papel, que o “Jornal de Negócios” publica numa página de opinião que, depois, inclui na versão online daquele diário.

O poder de alcance destes dois comentadores políticos não tem paralelo. Dados dos dois últimos programas emitidos mostram que Portas, em poucos minutos na TVI, consegue reunir uma audiência de 1,6 milhões de espectadores. Marques Mendes fica lá próximo, com uma audiência de 1,4 milhões. Ambos muito além dos 75 mil espectadores captados por Francisco Louçã ou dos 149 mil de Pacheco Pereira, conseguidos nos canais por cabo.

A lista dos políticos mais requisitados pelos media portugueses tem ainda em Paulo Rangel um protagonista relevante. O cabeça de lista do PSD às próximas eleições europeias acumula presenças na rádio, televisão e jornais. No “Público”, tem direito a ocupar uma página semanal de opinião. Na TVI, é convocado para um debate semanal com o seu adversário socialista, Pedro Silva Pereira, que dura 50 minutos de antena e lhe(s) garante uma audiência de quase 200 mil espectadores. Finalmente, a Rádio Renascença abre-lhe a antena para a “Casa Comum”, um espaço de confronto direto com um outro socialista, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

“Capacidade de comunicação, notoriedade, capacidade de análise e pluralidade ideológica” são os critérios principais para a contratação dos políticos como colaboradores permanentes, segundo as palavras do diretor de informação da TVI, Sérgio Figueiredo. E, aparentemente, ninguém se incomoda com a acumulação de crónicas e de tempos de antena, nem passa pela cabeça a ninguém assegurar a exclusividade do comentário político.

Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD e ex-ministra das Finanças de Durão Barroso, é disso exemplo. Além do comentário semanal das quartas-feiras na TVI 24, que dura cerca de 20 minutos, garante presença numa coluna quinzenal no caderno de Economia do Expresso e assegura uma colaboração semanal na antena da TSF. Poder-se-ia atribuir esta acumulação de espaços próprios de opinião à longevidade da sua carreira política nacional. Ou ainda aos vários cargos governativos ocupados (das Finanças à Educação) e às sucessivas tarefas dirigentes dentro do PSD. Mas se isso fosse o critério, não se aplica a outros comentadores políticos, como Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, José Eduardo Martins, do PSD, ou ainda Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, que semanalmente têm intervenções garantidas em, pelo menos, dois órgãos de comunicação social nacionais. A “relevância” da deputada do Bloco de Esquerda serve de justificação para a sua colaboração, em simultâneo, na SIC Notícias e no “Jornal de Notícias”. O “peso político” do social-democrata justifica a sua presença na antena da TSF e no Canal Q, no programa de debate político “Sem Moderação”, que acumula ainda com uma página semanal de opinião na revista “Visão”. Adolfo Mesquita Nunes, do CDS, também tem direito a idêntico espaço pago pela “Visão”. O dirigente do CDS já fez parte do painel de comentadores da SIC Notícias, mas agora resume a sua participação mediática à imprensa escrita, juntando à sua página na revista uma coluna semanal no “Diário de Notícias” e um artigo semanal no “Jornal de Negócios”.

IR A TODAS

Mas, se a presença de políticos nos órgãos de comunicação social nacionais parece grande, a verdade é que se trata apenas de uma parcela da realidade. De facto, referimo-nos até agora apenas aos espaços informativos concessionados diretamente a alguns protagonistas da nossa vida política com carácter de permanência. Mas há muito mais. Aos poucos, o terreno do entretenimento das televisões, da rádio e dos jornais vai sendo tomado pelos mesmos personagens, ora para mostrarem os seus dotes de comentadores desportivos, de especialistas em matéria criminal, ou até para darem apenas um ar da sua graça e mostrar as suas qualidades de cidadãos ‘normais’.

O “Cinco para a Meia-Noite”, da RTP, não entra nestas contas. Mas a ida de António Costa (por duas vezes) ao programa, a dançar um slowcom a apresentadora e a telefonar ao “Marinho” (o ministro das Finanças, Mário Centeno), fez quase tudo o que era preciso para adoçar a sua imagem. Assunção Cristas também lá foi dançar floss dance, André Silva, do PAN, fez biodança, e até o sisudo Rui Rio aceitou participar numa “batalha de piadas secas”. Este ‘lado B’ dos políticos é também feito nas sucessivas conversas radiofónicas do comendador Marques de Correia, na Renascença, conduzidas por Henrique Monteiro a meia classe política portuguesa. Por lá passaram Carlos Moedas ou Inês de Medeiros, Carlos César ou Helena Roseta, e a todos foi permitido mostrar o seu lado divertido e mundano, de quem tem vida para lá da política e está, assim, bem próximo dos seus eleitores. Para não falar do arroz de atum cozinhado em direto por Assunção Cristas no programa da manhã de Cristina Ferreira, que serviu bastante mais para a líder demarcar o CDS da imagem de partido elitista do que seria possível em mais de uma centena de entrevistas que pudesse vir a dar.

O fenómeno está presente em quase todos os lados, mas uma amostra desta tendência crescente do “assalto dos políticos” aos media é fácil de compreender através do “Correio da Manhã” e do seu canal televisivo. Octávio Ribeiro, diretor do “Correio da Manhã”, explica que o espaço concedido aos 13 políticos que tem como colaboradores permanentes se reparte por “colunas semanais” no jornal, assim como por um espaço de “três minutos integrados” no noticiário principal da televisão. Além disso, há “debates sobre futebol ou sobre temas de segurança”, cuja duração varia entre os 60 e os 120 minutos e que também incluem a presença assídua de políticos. “A capacidade de atração e retenção de audiência” são os principais critérios para a escolha destes protagonistas, e o certo é que os políticos aproveitam a oportunidade e usam e abusam da polémica, que lhes serve de rampa automática de lançamento para mais altos voos.

Foi, por exemplo, na coluna semanal do “Correio da Manhã”, que ocupa uma página inteira, que Assunção Cristas conseguiu chamar a atenção do primeiro-ministro. Acusando Costa de “irresponsabilidade”, de “desonestidade”, de “vistas curtas” ou de ser um “habilidoso contorcionista”, a líder do CDS acabou por capitalizar, no Parlamento, as linhas de ataque cerrado que, ao longo dos anos, foi deixando naquele jornal. Num dos debates quinzenais, o chefe do Governo perdeu a compostura e acabou por disparar contra a adversária e os seus “artigozinhos” publicados na comunicação social. A partir daí, Cristas ganhou músculo e protagonismo político como a grande adversária do primeiro-ministro. E a esgrima entre os dois passou a fazer parte da história dos debates parlamentares que se seguiram.

André Ventura é outro dos exemplos. Está na CMTV, ora como comentador desportivo (na qualidade de benfiquista ferrenho) ora como jurista capaz de comentar qualquer caso criminal que a estação de televisão decida dissecar. O palco cedido e o tempo de antena garantidos estão na base da surpresa que foi a sua vitória nas últimas eleições autárquicas, conseguindo para o PSD um lugar de vereador que nunca o partido imaginou poder vir a ter. Na CMTV, estão ainda dois outros políticos na pele de comentadores desportivos: Hélder Amaral, do CDS, e Nuno Encarnação, do PSD, têm tempo de antena garantido. E isso serve também de base de apoio para os seus projetos políticos futuros.

Há cinco anos, Marinho e Pinto foi um case study para este fenómeno. O ex-jornalista e ex-bastonário da Ordem dos Advogados não foge a nenhum combate, e só isso bastou para ter acesso direto aos programas das manhãs da televisão, onde comentava crimes e questões de segurança para um auditório de milhões. Do ecrã para um lugar como eurodeputado foi um passo de anão. E, agora que as eleições para o Parlamento Europeu se aproximam, Marinho voltou ao comentário televisivo. Num dos últimos, o pé escorregou-lhe para a política e, do crime, passou para a crítica ao atual Presidente da República. “Este nosso telepresidente parece que quer continuar como antes de ser eleito, e estou cansado de um Presidente de afetos. Um Presidente é para tomar decisões difíceis”, disse.

Nem de propósito. Há um “efeito Marcelo”, como lhe chama a investigadora Rita Figueiras, que banalizou a presença dos políticos no espaço mediático. “Atualmente, nenhuma carreira política se constrói à margem dos media, em particular da televisão”, afirma. E ninguém duvida da capacidade dos media em acomodar políticos ou na força de uma carreira construída a partir deles. O fundador da SIC, Emídio Rangel, foi o primeiro a dizer que a televisão servia para “vender tudo, desde sabonetes a Presidentes da República”. A história recente deu-lhe toda a razão.

É um segredo bem guardado. O valor pago pela colaboração de um político num órgão de comunicação social é matéria “sigilosa” que quase nenhum diretor de informação aceita revelar. “Claro que há comentadores muito bem pagos — falamos da elite do comentário — mas são uma minoria”, diz Rita Figueiras, autora do ensaio “O Efeito Marcelo, o Comentário Político na Televisão”, recentemente editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Mas desses, da elite dos colaboradores permanentes dos media portugueses, ninguém quer falar. “São bem pagos”, diz Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas, que assume não conhecer os números exatos. E dos 17 responsáveis editoriais dos vários órgãos de comunicação social portugueses contactados pelo Expresso, apenas um aceitou revelar números. Domingos Andrade, diretor do “Jornal de Notícias”, assumiu que os sete colaboradores fixos dos jornal (Nuno Melo, João Gonçalves, Miguel Poiares Maduro, Mariana Mortágua, Pedro Bacelar Vasconcelos, Rui Sá e Manuel Teixeira) , a que se junta, ocasionalmente, um leque de opinion makers recebem “valores simbólicos que rondam os 100 euros por crónica”.

Mário Ramires, do “Sol” e do “Jornal i”, também foi transparente. Mas por um motivo diferente: tanto os 10 políticos com colunas regulares no diário que dirige como os cinco que colaboram com o semanário prestam serviço gratuitamente. “Não temos colaborações pagas. Pagamos zero, portanto”, diz Ramires.

Manuel Carvalho e o “Público” têm uma posição intermédia. Os cinco colunistas regulares do jornal incluem Pedro Filipe Soares, do BE, Paula Teixeira da Cruz e Paulo Rangel, do PSD, Rui Tavares, do Livre e Francisco Assis, do PS. Por considerarem que “os colunistas com cargos nos partidos ou indicados para funções públicas não devem ser pagos” só entende a direção editorial do “Público” que devem ser “remunerados os membros de partidos sem funções políticas ou cargos públicos”. “A intervenção pública e cívica faz parte das suas funções naturais”, explica Manuel Carvalho. Contas feitas, “só Rui Tavares é remunerado” pelos artigos que, três vezes por semana, preenchem a última página daquele diário. Os valores ficam, no entanto, confidenciais.

Aqui ao lado, em Espanha, “não é habitual” pagar a um político que seja chamado a participar num debate político nos media. Segundo o correspondente do Expresso em Madrid, o pagamento é apenas para os especialistas (sejam eles jornalistas, juristas, magistrados, sociólogos ou economistas) que sejam convidados pelas cadeias televisivas. E, com a crise económica, os valores são, hoje, “muito inferiores aos anteriormente pagos e que podiam ultrapassar os mil euros brutos por cada colaboração num programa de grande audiência”. “Hoje, os pagamentos mais comuns situam-se entre os 300 e os 700 euros por participação”, diz Angel Luis de la Calle.

MARCELO NÃO PERCEBE

A presidente do Sindicato dos Jornalistas diz que a presença de políticos nos media portugueses “é uma questão que nos tem assolado e sempre nos questionamos como é que ninguém fez ainda as contas para perceber a dimensão do fenómeno”. Ao Expresso, Sofia Branco confidenciou que este “crescente domínio do espaço informativo por não jornalistas” foi um dos assuntos abordados na audiência concedida pelo Presidente da República, na altura em que a atual direção sindical foi eleita.

O próprio Marcelo Rebelo de Sousa — que foi jornalista e é, na verdade, o ‘pai’ do comentário político na televisão — tinha “dificuldade em perceber como chegámos aqui”, diz Sofia Branco. O problema, para a sindicalista, tem sobretudo a ver com a “dimensão” que a invasão de políticos atingiu, assim como pelo “investimento que exige”, numa altura em que as redações estão cada vez mais descapitalizadas e onde a austeridade passou a ser palavra de ordem para a gestão da produção de informação.

“Preocupa-me que um espaço onde se joga a nossa credibilidade e onde se podia mostrar a competência dos jornalistas em áreas da sua especialidade esteja a servir para dar o ouro ao bandido”, diz Sofia Branco. Até porque, “os espaços de análise são tanto mais relevantes, quanto forem plurais” e, garantidamente, isso não acontece. “A representatividade dos colunistas é, do ponto de vista etário, um desastre. Tal como há falta de pluralidade étnica e uma sub-representação das mulheres. No conjunto, formam um retrato muito pobre da sociedade portuguesa”, conclui a presidente do Sindicato dos Jornalistas.

Na verdade, “as empresas de comunicação social tendem sempre a dar espaço de opinião a quem está de fora”, diz Sofia Branco. E isso não é uma inevitabilidade. “Amputar a possibilidade dos jornalistas fazerem análise e de criarem opinião é empobrecedor”, afirma. Afinal de contas, “as empresas não dão crédito aos jornalistas que têm e que, muitas vezes, têm maior capacidade de análise e melhor conhecimento das matérias do que os opinion makers do costume”. Além do mais, “os jornalistas têm deveres e princípios éticos a respeitar, que obrigam a um esforço de imparcialidade, de rigor e de fundamentação dos seus artigos que enriquecem a análise dos assuntos”, diz Sofia Branco. Substituir profissionais da informação por profissionais da política pode ser um erro. “É dar o ouro ao bandido”, repete a representante sindical dos jornalistas.

Rosa Pedroso Lima – “Expresso” 2 março 2019

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