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O risco da manipulação no jornalismo económico

11 de February de 2019


 

Conselhos da jornalista brasileira Consuelo Dieguez para que os jornalistas que trabalham na área da economia não caiam na armadilha da manipulação.

O risco da manipulação

Um dos grandes medos de todos nós, jornalistas, é sermos manipulados pelas fontes. Em se tratando de jornalismo econômico, a manipulação não se dá apenas no campo das ideias, mas em torno de um tema muito mais prosaico: dinheiro. Sem tomar os devidos cuidados, o jornalista pode ser usado para ajudar especuladores a obter ganhos fabulosos e, ao mesmo tempo, contribuir para que empresas, produtores rurais e, em última instância, até países sejam muito prejudicados por estes movimentos.

 Uma notícia falsa ou deturpada sobre contas públicas, sobre o resultado de uma empresa, ou produção mineral ou uma safra agrícola, tem o poder atrapalhar negócios e infernizar a vida das pessoas. A manipulação pode se dar no dia a dia do mercado financeiro, quando fontes bancárias ou do mercado acionário usam o repórter na tentativa de garantir ganhos econômicos, através de especulações sobre fragilidades nas contas governamentais ou de alguma companhia específica, ou também, por outro lado, passar informações inflando o desempenho de outra, dependendo dos interesses do especulador: se quer estimular a compra o venda de uma determinada ação. Quando essas informações são passadas por instituições financeiras com intenção deliberada de garantir ganhos para o seu negócio, quem tende a sair mais prejudicados são os pequenos investidores, que não têm agilidade para se movimentar nesse mercado.

Mais grave é quando a manipulação do repórter se dá em torno de situações que, embora graves, são às vezes exageradas pelo mercado para atender a interesses de especuladores. Durante as crises do México, da Ásia e da Rússia, no final dos anos 90, quando as economias dos países estavam mais frágeis, era comum surgirem notícias divulgadas por alguma fonte do mercado alertando para risco de quebra das contas públicas. Nesses momentos, a tensão aumentava e, claramente, era possível ver quem ganhava ou perdia nesse jogo. Se a especulação afetasse apenas os investidores, a situação era menos grave. O pior era quando, com a credibilidade atingida, um governo era forçado a reagir.

Um ataque especulativo com o dólar, por exemplo, como muitas vezes ocorreu no Brasil, obrigava o Banco Central a queimar reservas para conter uma alta ou queda excessiva da moeda justamente porque um grupo de especuladores explorava uma situação que poderia ser facilmente contornada, dando dimensões de quase desastre ao repassá-la para o repórter.  Este, no afã de ganhar manchetes de jornais ou de sites jornalísticos, publicava sem, antes, tentar entender o que estava por trás da notícia.

Um dos casos mais escandalosos na história recente do Brasil foi o do empresário Eike Batista. Tratado pelo mercado e pela imprensa como o Midas do mundo de negócios, sua derrocada acabou sendo tão espetacular quanto a sua meteórica ascensão.  Após ganhar muito dinheiro com negócios inexistentes e esquemas de corrupção, seu império veio abaixo quando finalmente se descobriu que a maior parte dos seus negócios eram todos inflados artificialmente, como ajuda de bancos e empresas do mercado financeiro.

Outra situação onde a manipulação também é um risco. Recentemente, uma agência de notícia brasileira detectou que jornais de estados americanos produtores de soja estavam publicando matérias condenando a produção de soja no cerrado brasileiro, no centro do país, uma das regiões mais produtivas do mundo nesse tipo de cultivo. Diziam que os brasileiros estavam destruindo o cerrado e alertavam para os riscos ao meio ambiente. Coincidentemente, essas informações começaram a ser divulgadas quando os Estados Unidos entraram em conflito econômico com a China e esta, por sua vez, passou a importar toda a soja do Brasil e não mais dos Estados Unidos. Seriam os produtores brasileiros mais irresponsáveis com o meio ambiente do que os produtores americanos? Essas reportagens procuraram ouvir especialistas brasileiros? Os repórteres foram até o cerrado confirmar se esta destruição está realmente acontecendo? Ou simplesmente reproduziram opiniões de quem tem interesse em prejudicar o comércio ao sul do equador? Não estou dizendo que as notícias têm ou não fundamento, dado que eu não investiguei este assunto, apenas levanto uma hipótese que deve ser levada em consideração, principalmente pelos repórteres estrangeiros que escrevem sobre a América Sul, antes de atacarem negócios do continente que incomodam competidores da Europa e Estados Unidos.

Mas não é apenas o mercado o gerador de confusão. Outras vezes, são os próprios governos que tratam de especular, através de uma fonte em off, que passa a informação para o repórter apenas para testar como tal medida será aceita pela sociedade. Se der errado, o desmentido vem logo em seguida, recaindo a culpa sobre o jornalista que bancou a informação.

Uso esses exemplos para ilustrar o quanto, no jornalismo econômico, o repórter tem que estar atento aos jogos de interesse por trás da notícia. Temos que ficar de olho para evitar que mercados, governos, políticos, empresários e outros infindáveis grupos sociais façam de nós peças chaves de suas estratégias.

É possível escapar da manipulação? Reconheço que às vezes é difícil, principalmente porque os sites de notícia exigem muita rapidez do repórter que, às vezes, pela pressão do tempo, não consegue fazer a devida checagem. No entanto, acho que é nossa função nos proteger, e aos nossos leitores, desse jogo que não nos diz respeito. Isso só será possível com uma checagem minuciosa. Checar com outras fontes antes de publicar uma informação, fazer a reportagem no local e não transferir para terceiros o trabalho de investigação, que é intrínseco à nossa profissão, é a única maneira de se fazer bom jornalismo. O resto é declaração.

Consuelo Dieguez

(publicado em: Red Ética)

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