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 Enganar ou liderar a esquerda (Daniel Oliveira)

29 de May de 2018


No congresso do PS, Francisco Assis disse que queria, depois das próximas eleições, que o partido governasse sozinho. Mesmo que não tenha maioria absoluta. Dá-se um pequeno pormenor: o PS já governa sozinho. O que quer dizer que o que Assis defende é que o PS não tenha um acordo com o resto da esquerda. Só que para governar é preciso ter quem lhe aprove os Orçamentos de Estado. Não sendo provável que PCP e BE passem cheques em branco, muito menos depois dos quatro anos em que houve um acordo, o que Assis quer é o que sempre quis: que o PS volte a depender do PSD, como dependeu quando este lhe chumbou o PEC IV.

Há uma diferença fundamental entre o PSD, de um lado, e o Bloco e o PCP, do outro. Quando o PSD viabiliza um Governo do PS está só à espera do momento certo para fazer cair esse Governo já que é ele, e mais ninguém, o candidato à alternância. PCP e BE, pelo contrário, têm de ter em conta o preço político de abrirem caminho ao regresso da direita ao poder. O que Assis defende é, por isso, um suicídio para o PS. E não sabe explicar porquê, já que acredita que o PS tem a capacidade de tornar o PCP e o BE inofensivos.

O elogio de Francisco Assis a António Costa por ter anestesiado o PCP e o BE trazia água no bico. Assis precisava de explicar porque é que a tragédia que vaticinou não se deu. E precisava de voltar ao campo do consenso socialista para garantir uma recandidatura a Bruxelas. Mas, fora o lado interesseiro da coisa, houve quem dissesse o mesmo. No programa “Bloco Central”, da TSF, em que Augusto Santos Silva foi convidado, o dirigente socialista deu, naquele tom cínico e jocoso que se lhe conhece, os parabéns aos dois partidos à esquerda do PS por terem ajudado o Governo a cumprir as metas europeias que recusam. O agradecimento é uma farpa feia. Esfregar na cara de aliados as cedências que fizeram para garantir um Governo onde se está é um sinal de deslealdade. No caso de Santos Silva, é só mais um pauzinho na engrenagem de uma solução política que lhe desagrada tanto como a Assis.

A ideia de que BE e PCP foram anestesiados, que PSD, Assis e Santos Silva tentam fazer passar, é falsa. Não preciso de fazer nenhum exercício de história contrafactual. Proponho que vão ler o programa do PS para as eleições, o programa de Governo e o que foi feito. Grande parte das propostas de Mário Centeno constantes no programa económico do Partido Socialista morreu antes da formação do Governo. Mas esta ideia, muito cara a todos os anunciavam a catástrofe e tiveram de alterar a sua narrativa, não é apenas falsa. É, quando vem da boca de pessoas com responsabilidades no PS, uma confissão grave: estão a dizer que enganaram os aliados que lhes deram legitimidade para governar. E isso é o pior cartão de visita que um partido pode apresentar.

Quase todos os eleitores de esquerda percebem porque é que o PCP e Bloco garantiram ao PS uma maioria parlamentar para governar. Quase todos, incluindo os eleitores do PS, valorizam sem qualquer cinismo as cedências que fizeram para que isso fosse possível. E desconfio que uma larga maioria dos eleitores de esquerda acha que este Governo foi melhor do que se o PS governasse com maioria absoluta. Assis não pode ser acusado de incoerência, ao tratar os aliados do PS como lorpas. Santos Silva sim. E a sua agenda, que em nada difere nos objetivos da de Francisco Assis, sofre de um enorme problema: não bate certo com a solução política em que aceitou participar.

Claro que António Costa não se vai reformar por agora. O que todos andaram a ver não era quem ia concorrer ao próximo congresso, era quem está em melhores condições para liderar a geração que terá de virar a página da forma como se faz política. Porque novas crises virão e todos têm visto o que está a acontecer aos partidos socialistas na Europa. Não foi apenas por não haver, na nova geração, protagonistas evidentes da ala mais direitista do PS que Pedro Nuno Santos brilhou. Nem foi só pelos seus dotes oratórios ou por falar ao coração dos militantes. Nem sequer foi por ter feito mais do que um relatório de atividades. A maior vantagem da sua intervenção foi a coerência política com a solução em que participa. Há um diferença entre anestesiar o resto da esquerda e governar com o resto da esquerda. Há uma diferença entre enganar e liderar. Num caso, há um mero projeto de poder, no outro, há um projeto de mudança. Até os adversários tendem a respeitar mais os líderes do que os chicos-espertos.

Daniel Oliveira — “Expresso” Diário 28 maio 2018

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